Vinte anos podem parecer pouco para um clube acostumado à grandeza. Mas, no futebol, duas décadas representam uma eternidade. Uma geração inteira nasce, cresce, se forma e envelhece sem jamais experimentar determinadas emoções. Foi exatamente isso que aconteceu com os torcedores do Arsenal.
Desde aquela dolorosa final perdida para o Barcelona em Paris, em 2006, o clube londrino jamais voltou ao palco mais importante do futebol europeu. Agora, vinte anos depois, os Gunners reencontram o destino. No próximo dia 30, em Budapest, o Arsenal terá novamente a oportunidade de disputar uma final de Champions League. E talvez isso explique o peso emocional dessa campanha. Não é apenas sobre o jogo. É sobre memória, espera, reconstrução e pertencimento. Sobre torcedores que ouviram histórias dos Invincibles quando eram crianças e que agora finalmente poderão viver a própria decsião continental inesquecível.
Curiosamente, a temporada do Arsenal parecia destinada a ser ainda maior. Durante meses, os Gunners alimentaram o sonho da quádrupla coroa. Brigaram simultaneamente pela Premier League, Champions League, FA Cup e Copa da Liga. A caminhada, porém, foi cruel em alguns momentos. A eliminação para o Southampton na FA Cup doeu profundamente, sobretudo pela diferença técnica entre as equipes. Já na Copa da Liga Inglesa, o vice-campeonato diante do Manchester City serviu como mais uma lembrança de como o time de Mikel Arteta ainda precisava aprender a sobreviver em finais nacionais.
Ainda assim, o Arsenal chega ao mês de maio podendo transformar uma temporada muito boa em histórica. Porque os dois títulos mais importantes continuam ao alcance das mãos. E no futebol moderno, marcado por investimentos bilionários e projetos artificiais, poucas coisas possuem mais valor do que construir um time competitivo de forma sustentável e emocionalmente conectada à própria torcida, algo que Mikel Arteta o fez tão bem.

Na Premier League, o cenário é igualmente animador. O Arsenal lidera a competição com cinco pontos de vantagem sobre o Manchester City. É verdade que a equipe de Pep Guardiola possui um jogo a menos e ainda ameaça a liderança londrina. Todavia, os Gunners dependem apenas de si mesmos para encerrar um jejum que já dura 22 anos. Desde os Invincibles de Arsène Wenger, eles não sabem o que é erguer o caneco inglês.
A propósito, é impossível falar desse Arsenal sem revisitar aquele time lendário da temporada 2003-04. Porque existe algo simbólico nessa conexão entre passado e presente. Arsène Wenger construiu uma equipe artística, técnica, ofensiva e imortal. Mikel Arteta, por outro lado, ergue outro diferente, mais pragmático, físico e disciplinado. Ainda assim, ambos compartilham algo essencial: a capacidade de devolver orgulho ao norte de Londres. E para uma torcida marcada por tantos anos de frustrações europeias e tropeços domésticos, isso significa absolutamente tudo.
Existe, inclusive, uma coincidência extremamente simbólica envolvendo essa campanha continental. O Arsenal chega à decisão da Champions League de forma invicta. Em 14 partidas disputadas, foram 11 vitórias e apenas 3 empates. Nenhuma derrota. Algo que inevitavelmente remete à histórica campanha invicta na Premier League duas décadas atrás. Não se trata do mesmo estilo de jogo, evidentemente. Mas existe um componente psicológico muito forte em equipes que aprendem a sobreviver sob pressão sem perder. E os pupilos de Mikel Arteta desenvolveram isso ao longo da temporada. Em muitos momentos, eles não encantaram. Em outros, sofreram críticas pela maneira conservadora com que controlam os jogos. Entretanto, o futebol raramente premia somente espetáculo, mas sim maturidade mental. E foi justamente isso que os londrinos construíram no decorrer da Champions League: uma equipe fria, organizada, intensa defensivamente e absolutamente preparada para suportar ambientes hostis.

A última vítima do Arsenal respondeu pelo nome de Atlético de Madrid. Pois é, talvez não existisse adversário mais simbólico para medir a evolução emocional dos ingleses. O time de Diego Simeone representa há anos a essência da competitividade europeia. Um clube que transforma sofrimento em combustível e que costuma sobreviver em jogos apertados. O empate por 1 a 1 na capital espanhola deixou a semifinal completamente aberta para o confronto em Londres. E foi justo ali que os Gunners viveram a noite mais importante desde sua mudança de casa. Porque desde que deixou Highbury para inaugurar o moderníssimo Emirates, eles jamais haviam experimentado uma atmosfera tão poderosa quanto aquela do jogo de volta.
Pela primeira vez, o Emirates Stadium pareceu carregar alma, memória e identidade euopeia. Como se, finalmente, o Arsenal tivesse transformado sua nova casa em um verdadeiro templo emocional. E o detalhe mais bonito está no autor do gol decisivo. Porque o futebol possui uma capacidade impressionante de produzir roteiros poéticos quando menos se espera. Foi Bukayo Saka, garoto criado nas categorias de base, quem marcou o gol da classificação. Um menino nascido no norte de Londres, torcedor do clube, identificado com a camisa desde a infância e formado dentro da própria estrutura dos Gunners.
Bukayo Saka, aliás, merece um capítulo à parte nessa trajetória. O camisa sete chegou cercado de dúvidas para o jogo de volta contra o Atlético de Madrid. Ainda retornava de lesão e não havia atuado durante todos os 90 minutos na partida de ida. Mesmo assim, Mikel Arteta decidiu apostar no atacante desde o início do confronto em Londres. Era uma escolha arriscada. Mas talvez os grandes treinadores sejam justamente aqueles capazes de compreender o tamanho emocional de determinadas noites. Arteta entendeu que Saka precisava estar em campo. E o garoto respondeu como os grandes jogadores costumam responder: decidindo. Mais do que isso, seus números no Emirates Stadium pela Champions League impressionam. Em 14 jogos disputados no estádio pela competição continental, o camisa 7 soma 14 participações diretas em gols. São nove tents e cinco assistências. Estatísticas de protagonista absoluto, de jogador destinado a deixar marcas profundas na história do clube.

Vale ressaltar que Bukayo Saka teambém marcou na semifinal da edição anterior da Champions League, quando o Arsenal acabou eliminado pelo Paris Saint-Germain. Naquela ocasião, porém, o sonho terminou de forma amarga. E talvez isso torne a atual classificação ainda mais simbólica. Porque grandes equipes quase sempre precisam aprender a perder antes de finalmente vencer. Os ingleses caíram, sofreram, foi criticados e amadureceram com aquela desqualificação. Arteta utilizou aquela dor como combustível para elevar o nível competitivo do time. Não por acaso, os Gunners parecem hoje muito mais preparados para sobreviver aos momentos difíceis dos jogos grandes. Existe uma serenidade diferente. Uma sensação de controle emocional que faltava em temporadas anteriores. Trata-se de mais um dos méritos do treinador espanhol desde sua chegada ao norte de Londres em 2019.
Mikel Arteta ainda não conquistou um título considerado verdadeiramente gigante no comando do Arsenal. E isso inevitavelmente gera desconfiança em parte da torcida e da imprensa inglesa. Afinal, o futebol costuma ser cruel com treinadores que acumulam bons trabalhos sem troféus históricos. Contudo, seria injusto ignorar a transformação promovida pelo espanhol. Quando assumiu os Gunners, encontrou um clube emocionalmente destruído, distante da elite europeia e sem identidade competitiva clara. Aos poucos, o ex-auxiliar de Pep Guardiola reorganizou a estrutura esportiva, recuperou a conexão com a torcida e devolveu aos londrinos a sensação de pertencimento ao topo do mundo da bola. Mais do que resultados imediatos, ele construiu cultura competitiva. E isso talvez explique por que os atuais líderes da Premier League parecem tão confortáveis em jogos grandes. Porque eles voltaram a acreditar que pertencem a esse cenário.
Claro que o estilo de jogo do Arsenal não agrada todo mundo. Há quem considere os Gunners excessivamente pragmáticos. Muitos preferem um estilo agressivo e ofensivo apresentado por equipes como Bayern de Munique e PSG, protagonistas de semifinais eletrizantes, repletas de gols e intensidade ofensiva. O Arsenal joga de outra forma. O time de Arteta prioriza controle, organização defensiva e eficiência. Explora muito as bolas paradas, as transições rápidas e os lançamentos longos. Em vários momentos, prefere administrar riscos a trocar golpes no ataque. E embora isso gere críticas estéticas, também explica por que os londrinos sofreram apenas seis gols em 14 partidas na Champions League. O Arsenal construiu sua caminhada europeia a partir da defesa mais sólida do torneio. E no futebol de mata-mata, poucas virtudes são tão decisivas quanto saber defender.
➡ Único jogador do Arsenal que jogou e venceu a Champions:
— Playmaker (@playmaker_PT) May 6, 2026
Havertz (2021, pelo Chelsea, marcou o golo da vitória)
➡ Outro jogador que disputou a final da Champions:
Gabriel Jesus (2021, pelo Man. City)
➡ Venceu a Champions mas não jogou na final:
Kepa (2024, pelo Real… pic.twitter.com/o4BozGPFOW
Existe algo quase antigo nesse Arsenal. Como se Mikel Arteta tivesse resgatado conceitos de equipes europeias tradicionais, aquelas que entendiam perfeitamente o valor estratégico do sofrimento. Nem sempre o time encanta. Nem sempre domina posse de bola de maneira sufocante. Mas quase sempre transmite segurança. Atua completamente compacto, além de ser disciplinado e maduro taticamente, o que explica por que tantos adversários parecem desconfortáveis enfrentando os Gunners que, por característica, transformam jogos grandes em batalhas lentas, desgastantes e controladas. Foi assim contra o Atlético de Madrid. Foi assim ao longo de praticamente toda a temporada.
A final contra o Paris Saint-Germain carrega um enorme peso histórico. O Arsenal conhece muito bem o tamanho europeu do clube francês. A queda nas semifinais há um ano ainda está guardada na memória da torcida. Agora, porém, o contexto parece diferente. Os ingleses chegam mais maduros, competitivos e preparados. Não existe mais aquele complexo de inferioridade que os acompanhava em outros tempos. O PSG continua sendo uma potência do futebol europeu, detentor do título continental na luta pelo bicampeonato e acostumado a grandes decisões. Entretanto, os Gunners finalmente parecem capazes de encarar esse tipo de confronto olhando nos olhos dos parisienses. E talvez isso represente a maior vitória construída por Mikel Arteta até aqui.
Diante do exposto, essa campanha do Arsenal fala muito sobre reconstrução. Sobre como um clube pode passar anos perdido entre frustrações, mudanças e crises até reencontrar sua identidade. Durante muito tempo, os Gunners pareciam distantes da elite europeia. Tornou-se comum vê-lo apenas como coadjuvantes vivendo de memórias do passado. No entanto, o futebol possui ciclos, e o mais bonito é vê-los renascer preservando sua essência. Eles chegam à final da Champions League carregando consigo a memória de Highbury, o legado de Arsène Wenger, o sofrimento do longo jejum na Premier League e a esperança de uma nova geração de torcedores que, enfim, terá a oportunidade de viver aquilo que seus pais viveram vinte anos atrás.
Em Budapeste, os Gunners entrarão em campo buscando algo que nunca conquistaram em toda a sua história: a Champions League. A famosa orelhuda ainda não existe na sala de troféus dos Emirates Stadium. E este mero detalhe torna tudo ainda mais poderoso. Porque o futebol também é movido por ausências, por sonhos que atravessam décadas esperando o momento certo para finalmente acontecer. Bukayo Saka estará lá. Mikel Arteta estará lá. O norte de Londres inteiro estará representado naquela final. E independentemente do resultado, existe algo que ninguém poderá tirar desse Arsenal: o clube voltou a ser relevante no cenário europeu. Voltou a pertencer às grandes noites continentais. Vinte anos depois, os londrinos reencontraram seu lugar entre os gigantes da Europa.