Borussia Dortmund: o aço precisa resistir até maio

Invicto e ao lado do Bayern de Munique, os comandados de Niko Kovac transformam organização em esperança, mas ainda precisam provar que conseguem sustentar uma corrida pelo título alemão.

Dortmund aprendeu a reconhecer o esforço muito antes de celebrar o futebol.
Entre carvão, aço e cerveja, a cidade construiu sua expansão industrial com mãos operárias, jornadas extensas e uma relação coletiva com o trabalho. O Borussia tornou-se uma das expressões mais fortes desse pertencimento, oferecendo ao cotidiano uma linguagem que atravessa gerações. Seria exagero dizer que o município cresceu em torno do clube; ambos, porém, aprenderam a contar partes importantes da mesma história. Quando o amarelo ocupa as arquibancadas do Westfalenstadion, aquela memória encontra uma maneira de continuar respirando.

É nesse cenário que a Bundesliga de 2026/27 começa a oferecer uma promessa que exige cuidado. Após oito rodadas, os aurinegros somam 18 pontos, com cinco vitórias, três empates e nenhuma derrota, acompanhando o Bayern de Munique na pontuação. Os bávaros conservam a liderança pelo saldo: marcaram 27 gols e sofreram oito, enquanto os perseguidores anotaram 14 e foram vazados seis vezes. A proximidade permite sonhar, embora a diferença ofensiva recomende moderação. Existe uma disputa aberta na tabela; transformar esse equilíbrio inicial numa corrida até maio constitui outra tarefa.

Para compreender o tamanho da espera, convém acertar o relógio: a última conquista alemã aconteceu em 2012, sob Jurgen Klopp, depois do triunfo anterior em 2011. Portanto, são 14 anos desde aquela Bundesliga, e não 13 desde 2013. Também seria injusto confundir o jejum nacional de liga com ausência completa de troféus, pois as Copas da Alemanha de 2017 e 2021 pertencem ao período posterior. A memória doméstica inclui ainda os campeonatos de 1995, 1996 e 2002, anteriores à transformação promovida pelo treinador hoje associado àquelas tardes elétricas. O passado oferece grandeza suficiente para alimentar ambição, mas nenhuma garantia para satisfazê-la.

A ferida mais evidente dessa caminhada permanece aberta em maio de 2023. Bastava vencer o Mainz em casa na rodada final; o empate por 2 a 2 permitiu que o rival conquistasse a taça pelo saldo de gols. Foi uma dessas ocasiões em que o estádio parece pequeno para acomodar tamanha decepção, mesmo quando comporta uma multidão. Entretanto, reduzir sucessivas frustrações à falta de personalidade seria uma explicação conveniente demais. Qualidade, planejamento, escolhas técnicas e capacidade de responder à pressão precisam entrar na análise antes que qualquer sentença emocional seja pronunciada.

Niko Kovac encontrou em fevereiro de 2025 uma equipe na 11ª colocação e terminou aquela campanha dentro da zona de classificação à Champions League. Na temporada seguinte, alcançou o vice-campeonato com 73 pontos, a quinta melhor pontuação da história do Borussia na Bundesliga. Esse dado impede uma comparação preguiçosa: o trabalho atual não nasce sobre as ruínas de um ano inteiramente malsucedido. Sua base já havia produzido recuperação competitiva, regularidade e uma distância menor em relação ao topo.
O desafio mudou de natureza: depois de reorganizar a casa, o croata precisa demonstrar até onde ela pode crescer.

A principal correção começou pela distribuição dos jogadores e pela proteção dos espaços.
Ao longo dessa reconstrução, o 3-4-2-1 aproximou os apoios de Serhou Guirassy, entregou amplitude aos alas e acrescentou cobertura à última linha. Com menos distância entre os setores, recuperar a bola deixou de depender exclusivamente de arrancadas individuais ou perseguições desordenadas. O meio-campo passou a encontrar melhores condições para recolher sobras e interromper contra-ataques. A interpretação tática é simples: atacar com gente por perto também ajuda a defender quando a posse termina.

Os números defensivos da campanha passada ajudam a medir essa transformação. Foram 34 gols sofridos e 15 partidas sem ser vazado, recorde do clube numa edição da Bundesliga, segundo levantamento publicado pelo próprio Borussia Dortmund. O início atual acrescenta sinais de maturidade, como a vitória por 1 a 0 em Stuttgart, sustentada por compactação e resistência coletiva. Joane Gadou, Waldemar Anton e Nico Schlotterbeck oferecem uma referência para essa organização, sem eliminar a importância dos movimentos à frente deles. Niko Kovac parece compreender que disciplina só ganha valor quando produz comportamentos reconhecíveis, repetidos mesmo sob desconforto.

Mas até onde pode chegar uma equipe que aprende a sofrer melhor: esse aprendizado basta para conquistar a Alemanha ou ainda falta controlar com mais frequência os jogos decisivos? A pergunta acompanha o empate por 2 a 2 em Munique, onde os visitantes buscaram duas igualdades e impediram a abertura de uma vantagem direta. Serhou Guirassy respondeu primeiro; Fábio Silva apareceu perto do fim para preservar a invencibilidade. Houve coragem, capacidade de reação e utilidade nas alterações. Também existiram dificuldades suficientes para lembrar que sobreviver ao favorito representa um mérito diferente de dominá-lo.

No Der Klassiker, Niko Kovac a abandonou a estrutura habitual e iniciou num 4-4-2 assimétrico, com Maximilian Beier pela direita e Felix Nmecha ocupando uma faixa mais interior à esquerda. Jobe Bellingham e Joey Veerman formaram o centro, enquanto Carney Chukwuemeka acompanhou Serhou Guirassy no ataque. A escolha revela flexibilidade e procura por respostas específicas, embora o adversário tenha ampliado sua pressão depois do intervalo. O Bayern de Munique criou perigo, acertou a trave e desperdiçou um pênalti com Harry Kane. Celebrar a reação sem reconhecer essas concessões transformaria uma análise promissora em propaganda.

A Champions League, por sua vez, apresenta uma trajetória menos uniforme. Nas três primeiras apresentações, vieram o triunfo por 3 a 2 sobre o Villarreal, a derrota por 1 a 0 diante do Bodø/Glimt e a vitória por 2 a 1 contra o Sabah. São seis pontos, cinco gols marcados e quatro sofridos, antes do encontro frente o Betis. O resultado na Noruega funciona como advertência contra qualquer sensação prematura de segurança. No continente, organização precisa viajar acompanhada de concentração e repertório, sobretudo quando o contexto oferece menos espaço para acelerar.

O calendário europeu também ajuda a dimensionar o que ainda será cobrado.
Arsenal, Inter e Aston Villa estão entre os compromissos posteriores ao duelo com os espanhóis, elevando o nível de exigência e o custo físico da competição. Disputar várias frentes obriga o treinador a preservar intensidade sem transformar cada ausência numa emergência. Serhou Guirassy oferece referência ofensiva, mas não pode carregar sozinho toda dificuldade de criação. A consistência doméstica ficará mais convincente se sobreviver às semanas em que recuperação, deslocamentos e decisões comprimirem o tempo disponível.

O mercado de transferências acrescentou possibilidades e retirou características importantes. A saída de Karim Adeyemi para o Barcelona significou perder um atacante capaz de ameaçar a profundidade com velocidade; o empréstimo de Yan Couto ao Como alterou as opções pelo corredor. Julien Duranville também deixou o elenco, transferindo-se ao Lyon. Na direção contrária, chegaram Joane Gadou, do Salzburg, Joey Veerman, do PSV, Konstantinos Karetsas, do Genk, e Giannis Konstantelias, do PAOK, além de Kauã Prates, contratado ao Cruzeiro. Existe uma combinação de juventude e recursos distintos, cuja coerência dependerá mais do encaixe coletivo do que do entusiasmo causado pelos anúncios.

Dentro dessa renovação, Joey Veerman representa uma alternativa para qualificar a circulação, enquanto os novos jogadores ofensivos ampliam as possibilidades de associação. São expectativas ligadas às características dos reforços, não certificados antecipados de sucesso. A presença de Jobe Bellingham, Carney Chukwuemeka e Fábio Silva, incorporados anteriormente, mostra que a mudança atravessa mais de uma janela. Preservar referências como Nico Schlotterbeck também importa, especialmente para uma instituição acostumada a reconstruir vínculos esportivos depois de negociar talentos. O problema histórico não se resolve apenas encontrando o próximo destaque: exige formar uma equipe capaz de continuar crescendo ao redor dele.

Há condições de disputar o título, portanto, mas o Bayern de Munique permanece como referência a ser superada. Os 18 pontos de cada lado autorizam a candidatura; os 27 gols bávaros lembram a diferença de poder ofensivo observada até aqui. Ao Dortmund caberá melhorar a produção com bola sem desmanchar a proteção que tornou seu rendimento mais confiável. Confrontos equilibrados exigirão criatividade, e partidas aparentemente acessíveis cobrarão uma concentração que a euforia costuma enfraquecer. Campeonatos longos como a Bundesliga também são decididos nas tardes sem glamour, quando vencer parece uma obrigação simples apenas para quem acompanha de longe.

A renovação contratual de Niko Kovac até 2029 oferece um sinal de continuidade, ingrediente relevante para um projeto que já deixou de ser provisório. De qualquer maneira, estabilidade administrativa precisa encontrar ambição esportiva, cobrança criteriosa e disposição para corrigir problemas antes que cresçam. Dortmund conhece o valor do trabalho, mas sua torcida tem razões para desejar algo além da dignidade do esforço. A cidade que aprendeu a transformar matéria bruta reconhece a diferença entre promessa e resistência. Até maio, os aurinegros precisarão demonstrar que o aço desta vez suporta o calor.

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