Existem coisas que definitivamente só acontecem no futebol sul-americano, e a noite de ontem, se encerrou da forma mais perfeita possível para o modesto clube argentino Atlético Tucumán, que após vivenciar momentos extremamente desesperadores para chegar a tempo no estádio Olímpico Atahualpa, em Quito, conseguiu bater o El Nacional, por 1 a 0, e assim, avançar para a próxima fase da Copa Libertadores da América.
Club Atlético Tucumán, equipe de futebol localizada na província de Tucumán na Argentina (norte do país), e situado na capital (capital da província de Tucumán) San Miguel de Tucumán (1200 km de Buenos Aires), foi fundado em 27 de setembro de 1902 (114 anos), sendo assim, o clube mais antigo da província. A luta deste pequeno time argentino já começou antes mesmo do pontapé inicial da Copa Libertadores da América, tudo porque o Decano (apelido do Atlético Tucumán) precisou convencer a AFA (Associação de Futebol Argentina) para que ela permitisse que ele disputasse o torneio continental pela primeira vez em sua história, pois uma decisão administrativa da própria associação argentina, que tinha o interesse de colocar o Independiente, maior vencedor da competição com sete títulos na bagagem, em seu lugar. Depois de muita espera, finalmente a AFA confirmou que o Atlético Tucumán estava liberado para disputar a tão sonhada Copa Libertadores.

Classificado para disputar a fase pré-eliminatória do torneio, o Atlético Tucumán teve como primeiro compromisso, encarar o El Nacional, do Equador. Já com a desvantagem de disputar o jogo de ida em casa, e sendo obrigado a disputar o segundo jogo fora de seus domínios, as esperanças dos tucumanos diminuíram consideravelmente, depois do time somente empatar os primeiros 90 minutos contra os equatorianos em Tucumán, por 2 a 2, resultado que obrigou os comandados de Pablo Lavallén a vencerem o confronto da volta, na altitude de 3000 metros de Quito, uma tarefa bastante complicada.
Acontece que essa missão que já era praticamente impossível, ficou ainda mais, tudo porque uma série de incidentes começaram a ocorrer com a delegação do Atlético Tucumán. Hospedados na cidade Guayaquil, aonde permaneceram pelo período de um dia, justamente para fugir da altitude de Quito, o Atlético Tucumán havia planejado voar até a capital no inicio da quarta-feira (dia do jogo decisivo), e foi aí que o primeiro problema veio à tona.

A aeronave que levaria toda a delegação do clube argentino para a capital equatoriana, não estava autorizado a fazer voos domésticos no Equador, e por conta disso, o Atlético Tucumán através de seu presidente, decidiu tirar todos os integrantes da comissão técnica, além de todos os jogadores (reservas e titulares) que aguardavam dentro do avião (na pista), há exatas três horas, a liberação para o voo, e comprou 30 novas passagens para o próximo voo à Quito. Vale ressaltar, que quem fez esse trajeto foi a companhia aérea Latam. Já preocupado com o longo atraso, o presidente Mario Leito comprou mais seis passagens para embarcar também os uniformes e materiais de jogo, pois não havia mais tempo suficiente para despachar malas e depois no destino, esperá-las nas esteiras rolantes. Para o azar do Atlético Tucumán o embarque dos materiais foi proibido pela companhia aérea, e os mesmos, foram despachados no voo seguinte, que ocorreu vinte minutos após o voo que levou toda a delegação do time. Nisso, o horário do jogo se aproximava, e restavam apenas 40 minutos para o árbitro apitar o inicio da partida.

Quando aterrizou em Quito, o Atlético Tucumán pousou 15 minutos atrasado, e continuou sua saga até o estádio Olímpico Atahualpa. O El Nacional que nesse momento aguardava o visitante, já comunicava a Conmebol sobre um possível W.O., pois segundo o regulamento da Copa Libertadores, prevê que os clubes podem se atrasar no máximo 45 minutos após o horário da partida. O embaixador argentino no Equador, Luis Juez, foi até o estádio e teve papel fundamental para que o El Nacional entendesse a situação e aceitasse enfrentar o Atlético Tucumán mesmo com minutos a mais de atraso. A distância do aeroporto até o estádio é de aproximadamente 35 km, e câmeras registraram o ônibus que transportava a delegação do Atlético Tucumán a aproximadamente 150 km por hora, com o apoio da polícia, que foi abrindo caminho para eles durante o percurso.
Os jogadores e toda comissão técnica enfim chegaram no estádio Olímpico Atahualpa, mas e os uniformes? Pois é, os materiais da equipe não chegaram, afinal, estavam tudo no outro voo.

Foi aí que a o presidente se lembrou que a seleção argentina sub-20 está no Equador, disputando o campeonato sul-americano da categoria, e para a surpresa de todos, quando o Atlético Tucumán subiu ao gramado, todos os atletas estavam vestindo a camisa da seleção argentina. Sim, seria a primeira vez que jogadores como Fernando Zampedri, Leonel Di Plácido, David Barbona, Nery Leles entre outros, vestiriam a camisa da Argentina em uma partida oficial
Depois de toda essa confusão, o segundo duelo decisivo da fase pré eliminatória da Copa Libertadores. enfim foi realizado, e com muita garra, raça e ímpeto, o Atlético Tucumán bateu o El Nacional em plena altitude por 1 a 0, com gol salvador do atacante Fernando Zampedri, classificando os tucumanos para encarar Junior Barranquilla na terceira e última fase pré-eliminatória do torneio, para quem sabe, qualificar-se no grupo 5 da competição, aonde já estão os times do Palmeiras, Peñarol (Uruguai) e Jorge Wilstermann (Bolívia).
Relatos dão conta de que por decorrência do longo atraso, a Conmebol eliminará o Atlético Tucumán da Copa Libertadores, cumprindo assim o que está previsto no regulamento e apagando essa linda história de superação. Só nos resta agora torcer para que isso realmente não aconteça, e prevaleça o que aconteceu de fato dentro de campo, ainda mais sabendo que mesmo depois de passar por todo esse perrengue, o Atlético Tucumán, através de muita perseverança, conseguiu sua classificação.