PSV, tricampeão holandês 2025-26

O PSV Eindhoven escreveu mais um capítulo marcante em sua história ao conquistar o tricampeonato da Eredivisie com uma campanha que foge completamente dos padrões recentes. Se na temporada passada o título foi confirmado apenas na última rodada, carregado de tensão e drama até o jogo final, desta vez o cenário foi oposto. A equipe comandada por Peter Bosz simplesmente atropelou seus adversários e garantiu a taça com cinco jornadas de antecedência. Trata-se do título mais “curto” da história do clube em termos de definição antecipada, algo que evidencia o nível de superioridade apresentado ao longo da competição. Mais do que vencer, o PSV dominou. Mais do que dominar, impôs um ritmo impossível de ser acompanhado.

Esse tricampeonato, o 27º título nacional do PSV, não é apenas mais um troféu na prateleira, mas sim uma afirmação clara de hegemonia dentro do futebol holandês atual. A distância de 17 pontos em relação ao vice-colocado Feyenoord deixa evidente que não houve concorrência real ao longo da campanha. Em um campeonato historicamente equilibrado, essa vantagem escancara um abismo técnico e tático entre os Boeren e seus principais rivais. E esse domínio não se construiu apenas com resultados, mas com uma identidade de jogo extremamente bem definida, sustentada por ideias claras e execução consistente.

A base desse sucesso passa diretamente pela filosofia ofensiva de Peter Bosz, um treinador que sempre defendeu o princípio de que a melhor defesa é o ataque. E os números não deixam margem para discussão. Com 82 gols marcados até o encerramento da 29ª rodada, o PSV não apenas liderou a Eredivisie, mas o fez de forma isolada e incontestável. Trata-se de uma equipe que agride constantemente o adversário, que joga no campo ofensivo e que transforma volume em produtividade. Não é um ataque circunstancial, é um sistema pensado para produzir gols em escala industrial.

Mas talvez a maior virtude de Peter Bosz nesta temporada tenha sido sua capacidade de adaptação. Após perder peças importantes como o zagueiro Olivier Boscagli, o treinador não buscou reposições diretas no mercado, mas sim soluções dentro do próprio elenco. Foi aí que surgiu uma de suas decisões mais inteligentes: a transformação de Jerdy Schouten, originalmente um volante, em líbero. Essa mudança não apenas compensou a ausência defensiva, como elevou o nível da construção ofensiva da equipe desde a base da jogada.

Ao lado de Jerdy Schouten, o PSV passou a ter uma saída de bola muito mais qualificada, especialmente na conexão com o meio-campo liderado por Joey Veerman. A presença de dois jogadores com capacidade técnica para organizar o jogo desde trás permitiu ao time quebrar linhas com mais facilidade, acelerar a transição ofensiva e criar jogadas com inteligência. Esse ajuste foi fundamental para consolidar a identidade dos tricampeões holandeses e garantir fluidez em todas as fases do jogo.

Vale ressaltar ainda, que o impacto da presença de Jerdy Schouten como líbero também foi determinante nesse aspecto. Com ele atuando como zagueiro, o PSV apresentou uma consistência impressionante, tendo tropeçado apenas em um empate em 2 a 2 diante do NAC Breda. Esse dado reforça como a escolha de Peter Bosz foi acertada e como a construção desde a defesa se tornou um pilar fundamental do sistema de jogo.

Por outro lado, quando Jerdy Schouten retornava ao meio-campo e a defesa era formada por alternativas menos técnicas como Ryan Flamingo formando a dupla de zaga com
Yarek Gasiorowski, o desempenho da equipe caía. Isso demonstra que, mais do que peças individuais, o PSV depende de uma estrutura funcional muito bem definida, onde cada função tem impacto direto no coletivo. E Peter Bosz conseguiu encontrar esse equilíbrio ao longo da temporada.

Como resultado, essa melhoria na construção teve impacto direto no comportamento dos laterais, como são os casos de Sergiño Dest e Anass Salah-Eddine, que passaram a atuar quase como meias interiores na fase ofensiva. Ao invés de simplesmente dar amplitude, esses jogadores passaram a construir o jogo por dentro, aumentando a densidade no meio-campo e dificultando a marcação adversária. O PSV, nesse contexto, não apenas atacava, mas sufocava o adversário através da ocupação inteligente dos espaços centrais.

Outro ponto crucial foi a reinvenção de Mauro Júnior, que deixou de atuar aberto no ataque para ser incorporado ao meio-campo para jogar ao lado de Joey Veerman. Essa mudança trouxe ainda mais qualidade técnica ao setor mais importante da equipe. Com mais jogadores capazes de pensar o jogo, o PSV ganhou controle, ritmo e criatividade. A bola passou a circular com mais precisão, e o time passou a ditar o ritmo das partidas com naturalidade.

Ademais, a saída de Luuk de Jong também representava um desafio importante, especialmente pela sua presença física e capacidade de finalização. No entanto, Peter Bosz optou por um caminho alternativo, apostando em uma dupla ofensiva formada por jogadores de características mais associativas, como Guus Til e Ismael Saibari, ao invés dos substitutos imediatos Ricardo Pepi, Alessane Pléa e Myron Boadu. Essa escolha mudou a dinâmica do ataque, tornando-o menos previsível e mais móvel.

Ainda que essa nova dupla de ataque não tenha o mesmo impacto na pressão alta, acima de tudo na saída de bola adversária, houve uma compensação clara na organização defensiva. O PSV passou a se estruturar em um 4-4-2 compacto, com linhas bem definidas e jogadores comprometidos com a recomposição. Guus Til e Ismael Saibari recuam, fecham espaços e ajudam a equipe a manter equilíbrio, algo essencial para sustentar um modelo tão ofensivo.

Logo, esse ajuste tático teve reflexo direto nos números defensivos da equipe. Mesmo sendo um time extremamente agressivo no ataque, o PSV conseguiu reduzir o número de gols sofridos, evidenciando uma evolução coletiva. A equipe deixou de ser apenas um time que faz muitos gols e passou a ser um time que também sabe controlar o jogo sem a bola. Isso é o que diferencia boas equipes de equipes campeãs.

No desenho geral, o PSV desta temporada pode ser interpretado quase como um time formado majoritariamente por meio-campistas. O sonho de Peter Bosz de jogar com “11 meio-campistas” em campo nunca esteve tão próximo da realidade. Com exceção de nomes como Ivan Perišić, além de peças específicas como o goleiro Matěj Kovář e um defensor mais clássico como Yarek Gąsiorowski, praticamente todo o restante do elenco possui características híbridas.

Esse perfil versátil permitiu ao PSV variar seu comportamento dentro das partidas, alternando entre controle e aceleração, entre posse e verticalidade. É um time que entende o jogo, que sabe quando acelerar e quando pausar, e que dificilmente perde o controle emocional das partidas. Essa maturidade coletiva é reflexo direto do trabalho de Peter Bosz e da assimilação de suas ideias por parte do elenco.

No fim das contas, o tricampeonato do PSV Eindhoven não é apenas uma conquista, mas uma declaração de identidade, de modelo e de superioridade. Em um futebol cada vez mais físico e direto, os Boeren mostroram que ainda é possível vencer com inteligência, técnica e organização. E fizeram isso de forma dominante, incontestável e histórica.

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