A temporada 2025-26 terminou para o Crystal Palace exatamente da mesma maneira que começou: com os Eagles levantando uma taça. A equipe londrina abriu o calendário conquistando a tradicional Community Shield ao derrotar o Liverpool nas penalidades e encerrou a temporada vencendo o Raio Valecano por 1 a 0 na decisão da Conference League, disputada em Leipzig.
Um roteiro improvável para um clube acostumado historicamente a lutar contra o rebaixamento na Premier League e raramente frequentar as grandes manchetes do futebol europeu. O Crystal Palace encerra a temporada com três títulos conquistados em apenas doze meses e transforma definitivamente a ‘era Oliver Glasner’ na mais importante de toda a sua história. Uma trajetória construída muito mais na resistência do que propriamente na estabilidade.
Porque apesar das conquistas, a temporada do Crystal Palace esteve longe de ser tranquila. Muito pelo contrário. Em diversos momentos, o ambiente dentro do clube foi bastante turbulento, principalmente por conta da relação cada vez mais desgastada entre Oliver Glasner e a diretoria liderada por Steven Parish. O treinador austríaco passou boa parte da temporada reclamando publicamente da falta de investimentos e da dificuldade do clube em manter suas principais estrelas. E não era exagero. Desde a chegada de Glasner, o Palace perdeu jogadores fundamentais de maneira consecutiva, enfraquecendo um elenco que já não possuía tantas alternativas técnicas assim.
Primeiro veio a saída de Michael Olise, um dos jogadores mais talentosos formados pelo Crystal Palace nos últimos anos. Depois, o clube perdeu Eberechi Eze, o principal responsável pela criatividade ofensiva da equipe e peça central do sistema montado por Oliver Glasner. No meio da temporada, Marc Guéhi também deixou Selhurst Park, desmontando ainda mais a estrutura defensiva do time londrino. E como se não bastasse, Jean-Philippe Mateta esteve muito próximo de trocar a Inglaterra pelo Milan durante a janela de janeiro. O atacante chegou inclusive a viajar para a Itália e realizar exames médicos antes da transferência fracassar. A permanência de Mateta acabou sendo decisiva meses depois, mas naquele momento parecia mais um sinal de que o Palace desmontava aos poucos.
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— Crystal Palace F.C. (@CPFC) May 27, 2026
Ainda assim, mesmo perdendo tantas peças importantes, o Crystal Palace conseguiu iniciar muito bem a caminhada na Premier League. A equipe começou dezembro ocupando a quarta colocação da tabela, algo absolutamente impensável para um clube com a realidade financeira dos Eagles. Oliver Glasner havia conseguido construir um time competitivo, organizado defensivamente e muito agressivo nos contra-ataques. Brennan Johnson, contratado durante a temporada, ajudou a elevar o nível ofensivo do time, enquanto Adam Wharton crescia cada vez mais no meio-campo. O problema é que o elenco curto começou a sentir desgaste físico, emocional e técnico ao longo da segunda metade da temporada.
A partir de janeiro, o Crystal Palace entrou em colapso. Foram doze partidas consecutivas sem vitória, mergulhando o clube em uma grande crise que aproximou perigosamente a equipe da zona de rebaixamento da Premier League. O rendimento ofensivo caiu drasticamente, tornando o Palace um time previsível e com enorme dificuldade para propor o jogo contra adversários mais fechados. Oliver Glasner passou a conceder entrevistas cada vez mais explosivas, criticando publicamente o planejamento esportivo da diretoria. Durante várias semanas, a sensação era de que sua permanência no cargo estava por um fio. O ambiente em Selhurst Park se tornou absolutamente pesado.
Como se a sequência negativa não bastasse, o Crystal Palace ainda sofreu uma das eliminações mais humilhantes de toda a sua história recente. Atual campeão da FA Cup, o clube caiu ainda na terceira fase do torneio ao ser derrotado pelo Macclesfield, equipe da sétima divisão inglesa. O resultado gerou revolta entre os torcedores e aumentou ainda mais a pressão sobre Oliver Glasner. Muitos passaram a questionar se o treinador austríaco realmente conseguiria sustentar o nível competitivo do time sem as principais estrelas do elenco. O Palace parecia emocionalmente destruído naquele momento da temporada. E poucos acreditavam que o desfecho seria tão glorioso meses depois.
Paralelamente a toda essa turbulência doméstica, o Crystal Palace iniciava sua primeira campanha internacional em 119 anos de existência. Uma participação cercada de polêmica desde o início. Afinal, os Eagles haviam garantido vaga originalmente na Europa League após a conquista da FA Cup, mas acabaram rebaixados para a Conference League por conta dos problemas relacionados às participações acionárias de John Textor, que também possuía ligação com o Lyon. O sentimento dentro do clube inglês era de profunda injustiça. E talvez justamente por isso o Palace tenha encarado a o torneio continental com tamanha obsessão competitiva, a ponto de torná-lo prioridade absoluta.
Oliver Glasner conquista o 2.º 🏆 título internacional da carreira de treinador:
— Playmaker (@playmaker_PT) May 27, 2026
2022 Liga Europa (Frankfurt)
2026 Conference League (Crystal Palace)
⚠ O treinador 🇦🇹 abandona o Crystal Palace com 3 títulos conquistados – o melhor registo de um treinador no clube pic.twitter.com/BiqkQkmHNG
A caminhada europeia, no entanto, esteve longe de ser tranquila. O Crystal Palace sofreu desde a fase preliminar diante do Fredrikstad, da Noruega, tendo enormes dificuldades principalmente nos jogos fora de casa. Os ingleses claramente não possuíam experiência internacional e em vários momentos demonstravam nervosismo excessivo. Nos playoffs, eles enfrentaram o Zrinjski Mostar e precisaram suportar jogos extremamente físicos e truncados. Depois, nas oitavas-de-final, passaram pelo AEK Larnaca apenas na prorrogação, em uma classificação dramática no Chipre. Ficava evidente que o Palace sofria muito quando precisava propor o jogo sem ter mais jogadores tão criativos no elenco.
Foi justamente por isso que as quartas-de-final acabaram representando uma virada emocional para o clube. Contra a Fiorentina, uma equipe muito mais acostumada a disputar competições continentais, o Crystal Palace finalmente apresentou o seu melhor futebol na Conference League. A vitória por 3 a 0 em Selhurst Park mudou completamente a percepção em torno da campanha inglesa. Oliver Glasner montou uma equipe agressiva sem a bola, intensa na pressão e eficiente nas transições ofensivas. Ismaila Sarr realizou talvez sua melhor atuação desde que chegou ao clube, enquanto Mateta voltou a ser decisivo no ataque. Pela primeira vez, o Palace começou realmente a acreditar que poderia ser campeão europeu.
Nas semifinais, o adversário foi o Shakhtar Donetsk, tradicional equipe do futebol ucraniano e acostumada a disputar Champions League. Mais uma vez o Crystal Palace mostrou enorme maturidade competitiva. Mesmo sem possuir um elenco tecnicamente brilhante, o time compensava isso com organização tática, intensidade física e principalmente força mental. Oliver Glasner conseguiu transformar um plantel emocionalmente abalado em um grupo combativo no cenário continental. E muito dessa transformação passava pela identificação criada entre treinador, torcida e elenco. O Palace já não jogava apenas por uma taça. Jogava para provar que pertencia ao futebol europeu.
🏆 Oliver Glasner mudou a HISTÓRIA do Crystal Palace:
— Curiosidades PL (@CuriosidadesPRL) May 27, 2026
✅ Conquistou a PRIMEIRA taça da história do clube com a FA Cup
✅ Depois venceu a Community Shield contra o Liverpool
✅ Agora entrega ao Palace o PRIMEIRO título europeu da história do clube
De time sem tradição em… pic.twitter.com/ANhQuTK6Uq
A decisão em Leipzig contra o Rayo Vallecano carregava enorme simbolismo. De um lado, um clube espanhol vivendo o maior momento de sua história. Do outro, um Crystal Palace tentando conquistar o primeiro título internacional em 119 anos de existência. O jogo foi extremamente equilibrado, tenso e marcado por poucas oportunidades claras. Como já havia acontecido em boa parte da campanha europeia, o Palace sofreu diante de um adversário muito fechado defensivamente. Mas aos cinco minutos do segundo tempo surgiu o herói improvável daquela trajetória: Jean-Philippe Mateta. Justamente o jogador que tentou deixar o clube em janeiro marcou o gol mais importante da história dos Eagles.
O gol de Jean-Philippe Mateta não apenas decidiu a final da Conference League. Ele simbolizou claramente o espírito contraditório e caótico dessa temporada do Crystal Palace. Um clube que passou boa parte do ano mergulhado em crises internas, convivendo com derrotas traumáticas, especulações e problemas administrativos, mas que ainda assim encontrou forças para conquistar títulos históricos. A imagem de Oliver Glasner comemorando ajoelhado após o apito final em Leipzig resume o que foi sua passagem pelo clube. Um treinador intenso, explosivo, muitas vezes difícil de lidar, mas totalmente transformador. Glasner deu identidade ao Palace.
É impossível olhar para a história recente do clube sem colocar Oliver Glasner como o maior treinador que o Crystal Palace já teve. Foi ele quem conduziu os Eagles ao primeiro grande título nacional da história ao vencer a FA Cup sobre o Manchester City. Foi ele quem derrotou o Liverpool na Community Shield meses depois. E agora é ele quem entrega ao clube um inédito título internacional ao conquistar a Conference League. Em apenas duas temporadas e meia, Glasner transformou completamente o tamanho institucional do Palace dentro do futebol inglês e europeu. Algo que parecia impossível há poucos anos atrás.
Agora, o Crystal Palace olha para o futuro de uma maneira diferente. A classificação para a Europa League coloca o time novamente diante de um cenário continental desafiador, mas também promissor. Frankfurt já aparece como possível palco da próxima final continental, pois após tudo o que viveu nessa temporada, o torcedor do Palace aprendeu que não existe mais impossível para os Eagles. Afinal, em apenas doze meses, eles derrotaram Manchester City, Liverpool e agora conquistaram a Europa. Um clube historicamente pequeno que finalmente aprendeu a pensar grande.