França volta a cair diante da Espanha e vê o sonho do tri se tornar um pesadelo

Freguês. Segundo o dicionário Michaelis, é o indivíduo que frequenta determinado local com habitualidade, alguém que retorna repetidamente ao mesmo estabelecimento ou um consumidor constante. No futebol, porém, a palavra costuma ganhar outro significado. Ela passa a representar uma equipe que, repetidas vezes, encontra o mesmo adversário em momentos decisivos e acaba deixando o campo derrotada. Nos últimos anos, nenhum exemplo ilustra melhor essa definição do que o confronto entre França e Espanha. Pela terceira competição consecutiva, os espanhóis eliminaram os franceses em uma semifinal, consolidando um retrospecto que já começa a se transformar em uma verdadeira freguesia.

Tudo começou na Eurocopa de 2024, quando a Espanha derrotou a França por 2 a 1 na semifinal e seguiu rumo ao título continental. No ano seguinte, pela Liga das Nações da UEFA, novo encontro entre as duas seleções e outra vitória espanhola, desta vez por um eletrizante 5 a 4, em solo alemão. Agora, em Dallas, pela Copa do Mundo de 2026, a história voltou a se repetir. A vitória por 2 a 0 garantiu os espanhóis na decisão e confirmou uma escrita que já não pode mais ser tratada como coincidência. Sempre que o duelo vale uma vaga em uma grande final, a Furia Roja encontra o caminho para superar os Bleus.

O resultado surpreendeu justamente porque a seleção francesa chegava cercada de enorme expectativa. Até então, havia sido considerada por muitos a principal candidata ao título mundial graças ao futebol extremamente ofensivo apresentado durante praticamente toda a competição. Eram dezesseis gols marcados antes da semifinal, desempenho inferior apenas ao da Argentina, além de um ataque que encantava pela velocidade, intensidade e capacidade de decidir partidas rapidamente. Kylian Mbappé vivia uma Copa extraordinária, responsável por metade dos gols franceses, enquanto Ousmane Dembélé, Bradley Barcola e Michael Olise completavam um quarteto que parecia imparável.

A campanha até Dallas reforçava esse favoritismo. Nos quatro primeiros compromissos da Copa de 2026, a França marcou pelo menos três gols em cada partida, atropelando adversários e demonstrando enorme facilidade para criar oportunidades. Depois vieram duas classificações mais duras, primeiro diante do Paraguai (1×0) e posteriormente contra Marrocos (2×0), mas ainda assim os franceses transmitiam total segurança. O desempenho coletivo permanecia convincente e poucos imaginavam que justamente na semifinal o ataque mais explosivo do torneio encontraria tantas dificuldades para competir. A sensação era de que bastava manter o nível apresentado até então para alcançar a terceira decisão mundial consecutiva.

Entretanto, o futebol costuma premiar quem interpreta melhor cada contexto. E foi exatamente nesse aspecto que Luis de la Fuente levou ampla vantagem sobre Didier Deschamps. O treinador espanhol compreendeu perfeitamente o tipo de confronto que teria pela frente, enquanto seu técnico francês insistiu praticamente na mesma estrutura utilizada durante toda a campanha. O problema é que enfrentar uma seleção que domina a posse de bola exige adaptações específicas, principalmente no setor mais importante do campo: o meio. A França simplesmente não conseguiu oferecer essas respostas.

O 4-2-3-1 francês deixou Aurélien Tchouaméni e Adrien Rabiot sozinhos diante de uma região ocupada por Rodri, Fabián Ruiz, Dani Olmo, Álex Baena e Mikel Oyarzabal, que muitas vezes abandonava a referência ofensiva para atuar como um verdadeiro meio-campista. A superioridade numérica era evidente. Enquanto os espanhóis encontravam constantemente linhas de passe e controlavam o ritmo do jogo, os franceses eram obrigados a correr atrás da bola durante boa parte da partida. Não havia pressão coordenada nem capacidade para interromper a circulação adversária. A Espanha transformou o meio-campo em seu território particular.

Essa desvantagem provocou outro efeito importante. Michael Olise passou boa parte do jogo acompanhando as movimentações de Rodri, desempenhando uma função defensiva que jamais foi sua principal característica. O desgaste foi inevitável e sua influência ofensiva absolutamente desapareceu. Na etapa final, Didier Deschamps tentou inverter as posições, deslocando Ousmane Dembélé para cumprir essa missão. O resultado foi o mesmo. Dois jogadores extremamente criativos passaram mais tempo perseguindo adversários do que participando da construção ofensiva, comprometendo por completo a capacidade francesa de acelerar as transições.

Os problemas também apareceram pelos lados do campo. A escolha por laterais mais defensivos parecia fazer sentido antes da bola rolar, especialmente diante da qualidade técnica espanhola. Porém, na prática, a estratégia fracassou. Lucas Digne encontrou enormes dificuldades para conter Lamine Yamal, que realizou uma de suas melhores atuações no Mundial. Foi justamente de uma falha no domínio seguida por uma abordagem precipitada que nasceu o pênalti convertido por Mikel Oyarzabal. Talvez Theo Hernández, graças à maior força física e velocidade, pudesse oferecer um embate mais equilibrado. Até mesmo Lucas Hernández improvisado poderia representar uma alternativa diferente para limitar o jovem atacante do Barcelona.

Se o primeiro gol já abalou emocionalmente a seleção francesa, o segundo praticamente definiu o confronto. Logo aos treze minutos da etapa complementar, Pedro Porro ampliou a vantagem espanhola e tornou a missão dos Bleus ainda mais complicada. O dado mais impressionante daquela altura era outro: até aquele instante, a França sequer havia acertado uma finalização na direção do gol adversário. Para um ataque que vinha atropelando todos os rivais da competição, tratava-se de uma estatística bastante simbólica. O domínio da Espanha era absoluto tanto com quanto sem a bola.

Depois disso, vieram algumas tentativas dos franceses, mas muito mais impulsionadas pelo desespero do que por organização coletiva. Ao todo foram dez finalizações, quase todas construídas na base do abafa, sem infiltrações bem trabalhadas, triangulações ou jogadas coletivas capazes de desmontar a defesa espanhola. A impressão era de que cada atleta buscava resolver individualmente aquilo que o conjunto já não conseguia produzir. Quando uma seleção abandona sua identidade justamente na partida mais importante do campeonato, normalmente o desfecho acaba sendo cruel. E foi isso que aconteceu com a França, em Dallas.

Diante desse cenário, fica uma pergunta inevitável: será que Didier Deschamps demorou demais para entender que enfrentar a Espanha exige soluções diferentes das utilizadas contra qualquer outro adversário? A entrada de Manu Koné para reforçar o meio-campo, formando um trio ao lado de Aurélien Tchouaméni e Adrien Rabiot, talvez reduzisse os espaços explorados pelos espanhóis. Bradley Barcola poderia dar lugar a um volante adicional, enquanto Kylian Mbappé, Ousmane Dembélé e Michael Olise ajudariam na recomposição e pressão na saída de bola. Evidentemente não existe garantia de vitória, porém ao menos haveria um equilíbrio maior em uma região onde a França foi amplamente dominada durante noventa minutos.

A eliminação também simboliza o encerramento de uma das eras mais importantes da história recente do futebol francês. Didier Deschamps deixa o comando da seleção após quatorze anos, mais de cento e oitenta partidas e dois títulos conquistados. Independentemente das críticas recebidas após esta Copa do Mundo, seu legado permanece enorme. Sob sua liderança, a França disputou finais, levantou troféus e consolidou uma geração extremamente competitiva. Ainda assim, sua despedida acontece de maneira melancólica, justamente diante do adversário que mais encontrou soluções para neutralizar suas equipes nos últimos anos.

Curiosamente, a França já viveu momentos históricos em que precisou se reinventar para voltar ao protagonismo. Um bom exemplo ocorreu durante a construção da Torre Eiffel para a Exposição Universal de 1889. Inicialmente alvo de inúmeras críticas e considerada por muitos intelectuais uma obra que jamais representaria Paris, a estrutura acabou transformando-se no maior símbolo do país. A história mostra que grandes transformações costumam nascer justamente após períodos de contestação. Talvez seja exatamente esse o desafio que aguarda a seleção francesa a partir de agora sob o provável comando de Zinedine Zidane.

A Copa do Mundo termina de forma frustrante para quem era apontado como principal favorito ao título. Não porque faltassem talento, qualidade técnica ou profundidade de elenco. Pelo contrário. Poucas seleções reuniam tantas opções quanto os franceses. O problema esteve na incapacidade de adaptar o plano de jogo diante de um adversário que apresentou uma proposta completamente previsível. Enquanto a Espanha venceu o duelo das ideias, a França permaneceu presa às próprias convicções. Em Mundiais, detalhes fazem toda a diferença. E, desta vez, foram justamente estes que transformaram um sonho do tricampeonato em uma despedida amarga para os Bleus.

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