Na força do coração: Argentina está entre as oito melhores seleções da Copa de 2026

A classificação da Argentina para as quartas-de-final da Copa do Mundo de 2026 ficará marcada como um daqueles capítulos que ajudam a explicar por que a camisa albiceleste continua carregando tanto peso na história do futebol. Depois de uma campanha tranquila na fase de grupos, quando enfrentou Argélia, Áustria e Jordânia, os pupilos de Lionel Scaloni finalmente foram colocados à prova diante de adversários capazes de levá-la ao limite. E foi justamente quando deixou a zona de conforto que a seleção argentina revelou suas maiores virtudes, mas também expôs defeitos que podem custar caro na sequência do torneio.

Os confrontos eliminatórios contra Cabo Verde e Egito mostraram uma Argentina completamente diferente daquela vista na primeira fase. Se antes a superioridade técnica permitia controlar os jogos com relativa tranquilidade, agora o roteiro passou a ser de sofrimento, tensão e imprevisibilidade. Em ambos os duelos, os atuais campeões mundiais precisaram recorrer à força emocional para permanecer vivos na competição. A classificação deixou de ser apenas uma questão de qualidade técnica e passou a depender de personalidade, característica que historicamente acompanha as grandes gerações do futebol argentino.

O embate diante de Cabo Verde, válido pelos 16 avos-de-final, já serviu como um primeiro alerta. A Argentina encontrou enormes dificuldades para superar uma seleção extremamente organizada e precisou esperar os minutos finais da prorrogação para confirmar sua classificação em Miami. A partida lembrou, em diversos momentos, a caminhada do tricampeonato conquistado quatro anos antes, quando os argentinos também alternaram momentos de domínio absoluto com quedas de rendimento que quase comprometeram a campanha. Contra Holanda e França, em 2022, a Albiceleste encontrou forças para sobreviver.

Se a vitória sobre Cabo Verde já havia acendido um sinal de atenção, o jogo contra o Egito elevou esse sentimento ao máximo. A Argentina protagonizou, até aqui, a maior virada da Copa do Mundo de 2026. Perdendo por 2 a 0 até os 33 minutos da etapa final, tudo indicava que os argentinos estavam diante de uma eliminação precoce. O relógio corria contra eles, enquanto os egípcios administravam uma vantagem construída com enorme eficiência. Era o cenário perfeito para um dos maiores choques desta edição do Mundial.

O roteiro, entretanto, ignorou qualquer lógica. Apesar do placar desfavorável, a Argentina havia criado inúmeras oportunidades desde o primeiro tempo. O goleiro egípcio foi, durante boa parte da partida, o grande protagonista do confronto, realizando intervenções decisivas que impediram os argentinos de abrir vantagem antes mesmo do intervalo. Como se isso não bastasse, Lionel Messi desperdiçou um pênalti, o segundo perdido pelo camisa 10 nesta Copa do Mundo. Em circunstâncias normais, uma sequência como essa seria suficiente para derrubar qualquer seleção. A Albiceleste, porém, escolheu resistir.

A reação construída nos minutos finais sintetiza aquilo que talvez seja a principal qualidade desta geração campeã mundial em 2022: a capacidade de jamais abandonar uma partida. A Argentina marcou três gols nos instantes derradeiros e transformou uma eliminação praticamente inevitável em uma classificação histórica. Existe um componente psicológico extremamente forte nessa seleção. É um grupo que parece acreditar até o último segundo, independentemente das circunstâncias. Essa mentalidade competitiva faz parte da identidade do futebol argentino há décadas e, em muitos momentos, supera até mesmo as limitações técnicas apresentadas durante os jogos.

Não é exagero afirmar que esse espírito de luta atravessa gerações e se conecta com a própria construção da identidade esportiva do país. O argentino sempre cultivou a ideia de resistência, orgulho e superação diante da adversidade. Em diferentes momentos ao longo da trajetória, inclusive em episódios marcantes como a questão das Ilhas Malvinas, consolidou-se um imaginário coletivo de perseverança que também encontra reflexos dentro das quatro linhas. Evidentemente, futebol e história pertencem a contextos distintos, mas a maneira como eles encaram as dificuldades parece fazer parte de uma cultura competitiva profundamente enraizada.

Do ponto de vista tático, algumas alterações promovidas por Lionel Scaloni surtiram efeito. O deslocamento de Enzo Fernández para o lado esquerdo do meio-campo fortaleceu aquele corredor ao lado de Nicolás Tagliafico, oferecendo maior profundidade ofensiva justamente quando a equipe precisava pressionar o Egito. As mudanças ajudaram a modificar o comportamento ofensivo da Argentina, que passou a criar superioridade numérica pelos lados do campo e encontrou espaços para iniciar a reação que parecia impossível poucos minutos antes.

Ao mesmo tempo, seria um erro ignorar os problemas defensivos apresentados pela Albiceleste. Somente nas partidas contra Cabo Verde e Egito, a Argentina sofreu cinco gols. Para uma equipe que sonha em conquistar o tetracampeonato, trata-se de um número bastante preocupante. O contraste fica ainda mais evidente quando comparado ao desempenho de outros candidatos ao título. A França sofreu apenas um gol até aqui, enquanto a Espanha sequer foi vazada. Em torneios de tiro curto, sistemas defensivos sólidos costumam decidir campeonatos.

Por outro lado, se a defesa preocupa, o ataque segue funcionando em altíssimo nível. Com 14 gols marcados, a Argentina chega às quartas-de-final ostentando o melhor ataque da competição, dividindo esse posto com a França. Lionel Messi também lidera a artilharia do Mundial com 8 tentos assinalados, demonstrando que, aos 39 anos, continua sendo um dos jogadores mais decisivos do planeta. Poucos imaginavam que o meia do Inter Miami conseguiria apresentar um rendimento ainda superior ao exibido no Catar, quando conduziu a seleção ao tricampeonato mundial.

Essa dependência de Lionel Messi, contudo, continua sendo um tema inevitável. Contra o Egito, ele participou diretamente dos principais momentos da reação: sofreu, criou, marcou o gol de empate, distribuiu assistência e iniciou a jogada que terminou na virada histórica. Sem Ángel Di María, aposentado da seleção, a Argentina perdeu justamente o segundo grande protagonista ofensivo do time campeão no Catar. Durante anos, Di María dividiu responsabilidades com Messi nos momentos decisivos. Hoje, essa carga tornou-se, literalmente, ‘messiânica’.

A impressão é de que a renovação da seleção argentina ainda acontece de forma lenta. Jogadores promissores perderam espaço ou sequer foram incorporados definitivamente ao grupo principal, enquanto a base campeã mundial permanece praticamente intacta, apenas quatro anos mais experiente. Essa continuidade trouxe entrosamento e identidade, mas também aumentou a dependência das mesmas lideranças técnicas. Na visão de muitos analistas, o trabalho de Lionel Scaloni continua sendo muito eficiente na gestão emocional do elenco, embora ainda desperte debates sobre a evolução tática da Argentina.

Agora, porém, o grau de dificuldade aumentará consideravelmente. A Suíça aparece como o adversário mais complicado da Argentina até aqui nesta Copa do Mundo. Muitos imaginavam uma reedição da final da última Copa América diante da Colômbia, mas os colombianos acabaram eliminados nos pênaltis pelos suíços. Organizada, disciplinada e extremamente sólida defensivamente, a seleção europeia comete poucos erros e possui enorme capacidade física para competir durante os noventa minutos. Será, provavelmente, o maior teste enfrentado pelos argentinos no Mundial.

Independentemente do que acontecer nas quartas-de-final, a campanha argentina já demonstrou duas verdades difíceis de ignorar. A primeira é que a Albiceleste continua absolutamente competitiva, sustentada por uma força mental admirável e por um Lionel Messi que insiste em desafiar o tempo. A segunda é que suas fragilidades defensivas e a excessiva messidependência tornam o caminho rumo ao tetracampeonato muito mais complicado do que parecia durante a fase de grupos.

Das 48 seleções que iniciaram a Copa do Mundo de 2026, apenas oito continuam vivas. Entre elas, somente a Argentina representa a América do Sul. E enquanto houver Lionel Messi em campo e a Scaloneta disposta a lutar até o último segundo, jamais será prudente apostar contra os argentinos.

Deixar um comentário

Menu