Do abismo às oitavas: Bélgica renasce nos minutos finais e segue viva na Copa de 2026

A dramática, épica e histórica classificação da Bélgica para as oitavas-de-final da Copa do Mundo de 2026 ficará marcada como um dos jogos mais emocionantes do torneio até aqui. Depois de passar boa parte da partida sendo dominada por Senegal e estar perdendo por 2 a 0 até os minutos finais do tempo regulamentar, os Diabos Vermelhos buscaram forças para reagir de maneira improvável, empataram nos instantes derradeiros e garantiram a vitória por 3 a 2 na prorrogação, em um duelo repleto de emoção, sofrimento e controvérsia. Foi uma classificação conquistada muito mais na base da insistência e da experiência de seus principais jogadores do que propriamente pela qualidade apresentada ao longo dos 120 minutos.

A goleada por 5 a 1 sobre a Nova Zelândia, na última rodada da fase de grupos, havia garantido aos belgas a liderança do Grupo G, mas não era suficiente para convencer que a Bélgica chegava plenamente consolidada ao estágio eliminatório. Antes daquele resultado, os Diabos Vermelhos haviam empatado em 1 a 1 com o Egito na estreia e não passaram de um frustrante empate sem gols diante do modesto Irã. A atuação diante dos neozelandeses serviu muito mais para elevar a confiança do elenco do que propriamente para eliminar as dúvidas em torno do desempenho coletivo da seleção europeia.

Mesmo porque a enorme superioridade técnica sobre a Nova Zelândia já fazia daquela goleada um resultado esperado. A Bélgica finalizou 35 vezes ao longo do jogo e transformou sua maior qualidade ofensiva em gols suficientes para assumir a liderança da chave graças ao saldo. Entretanto, o verdadeiro teste viria nos 16 avos-de-final, quando os erros cometidos durante a primeira fase naturalmente seriam muito mais castigados. E foi exatamente isso que aconteceu diante de uma organizada e competitiva seleção senegalesa.

Desde os primeiros minutos ficou evidente que Senegal havia preparado um jogo extremamente disciplinado do ponto de vista tático. Com linhas compactas, intensidade na marcação e muita velocidade para explorar os espaços deixados pela defesa belga, os africanos conseguiram neutralizar a criação de Kevin De Bruyne e impedir que os laterais belgas encontrassem a profundidade que normalmente caracteriza o sistema ofensivo da equipe de Rudi Garcia. A Bélgica tinha mais posse de bola, mas produzia muito pouco em termos de oportunidades claras.

O primeiro golpe veio ainda na etapa inicial. Habib Diallo aproveitou uma boa construção ofensiva para colocar Senegal em vantagem, levando enorme preocupação aos belgas antes do intervalo. Como se não bastasse, logo aos seis minutos da segunda etapa, Ismaïla Sarr ampliou o marcador e deixou a classificação muito próxima da seleção africana. Aquele segundo gol expôs todas as dificuldades que a Bélgica vinha apresentando desde a fase de grupos e fez crescer a sensação de que a campanha dos Diabos Vermelhos terminaria precocemente.

Na tentativa de mudar o panorama da partida, Rudi Garcia promoveu alterações importantes em sua equipe. Charles De Ketelaere já havia deixado o campo no intervalo para a entrada de Romelu Lukaku, enquanto Jeremy Doku e Kevin De Bruyne também foram substituídos durante a etapa final. As mudanças, porém, demoraram para surtir qualquer efeito. A Bélgica continuou encontrando enormes dificuldades para furar o sólido sistema defensivo senegalês e pouco ameaçava o gol adversário.

Foi justamente quando tudo parecia decidido que apareceu o peso da experiência. Mesmo claramente sem estar em sua melhor condição física e ainda recuperando ritmo de jogo, Romelu Lukaku mostrou novamente sua capacidade de decidir partidas importantes. Aos 41 minutos do segundo tempo, o centroavante do Napoli diminuiu o placar e recolocou a Bélgica emocionalmente dentro da disputa. O gol mudou completamente a confiança dos belgas e o ambiente do confronto, aumentando a pressão sobre Senegal nos minutos finais.

A reação ganhou contornos ainda mais dramáticos apenas três minutos depois. Aos 44 minutos, Youri Tielemans apareceu para empatar a partida em 2 a 2, levando o confronto para a prorrogação e frustrando profundamente a seleção senegalesa, que esteve muito próxima de garantir uma classificação histórica. Em questão de poucos minutos, toda a vantagem construída no decorrer da partida desapareceu diante da eficiência belga nas raras chances criadas no fim do tempo regulamentar.

Na prorrogação, o desgaste físico passou a influenciar diretamente o ritmo do jogo. Senegal ainda conseguiu competir em alto nível e seguiu oferecendo perigo nos contra-ataques, enquanto a Bélgica tentava assumir o controle da posse de bola. Quando tudo indicava que a decisão seria definida nas cobranças de pênaltis, surgiu o lance mais discutido da partida. Já aos 120 minutos, um pênalti assinalado após revisão do VAR acabou dando aos belgas a oportunidade de completar uma virada absolutamente improvável e garantir a classificação para as oitavas-de-final através da cobrança de Youri Tielemans.

Taticamente, a Bélgica manteve sua estrutura habitual no 4-2-3-1. Grande parte da força ofensiva dos Diabos Vermelhos nasce justamente da participação intensa dos laterais. Timothy Castagne oferece profundidade pelo lado direito em parceria com Leandro Trossard, enquanto Maxim De Cuyper atua pelo corredor esquerdo ao lado de Jeremy Doku. Kevin De Bruyne permanece sendo o principal organizador das jogadas, funcionando como cérebro da equipe sempre que encontra espaços entre as linhas adversárias.

O grande problema da seleção belga continua sendo a ausência de um substituto capaz de desempenhar a mesma função de Romelu Lukaku. Nem Charles De Ketelaere, nem Loïs Openda conseguem oferecer o mesmo poder de presença na área, força física e capacidade de definição que o camisa 9 ainda proporciona, mesmo longe de sua melhor forma. Não por acaso, a entrada de Lukaku alterou completamente a referência ofensiva dos belgas, mostrando o quanto eles ainda dependem do jogador de 33 anos de idade que representa um dos últimos símbolos da geração dourada da Bélgica.

Defensivamente, entretanto, continuam existindo motivos importantes para preocupação. Sem a bola, a Bélgica normalmente recompõe em um 4-4-2, mas apresenta dificuldades na proteção dos espaços, especialmente quando é obrigada a defender transições rápidas. Os números comprovam essa vulnerabilidade: desde a chegada de Rudi Garcia, os Diabos Vermelhos marcaram impressionantes 55 gols em 18 partidas, mas também sofreram 17, um índice elevado para uma seleção que pretende lutar pelo título mundial e que frequentemente oferece espaços aos oponentes.

Agora, a Bélgica terá pela frente um desafio ainda maior nas oitavas-de-final, quando enfrentará os anfitriões Estados Unidos em busca de uma vaga nas quartas. A classificação dramática diante de Senegal certamente fortalece emocionalmente o elenco belga, mas também evidencia problemas que precisarão ser corrigidos rapidamente. Afinal, o nível de dificuldade cresce consideravelmente a partir deste momento da competição, e repetir uma atuação tão irregular poderá custar a eliminação.

Independentemente do que acontecer daqui para frente, esta classificação simboliza também um dos últimos grandes capítulos da histórica geração belga. Thibaut Courtois, Kevin De Bruyne e Romelu Lukaku representam os derradeiros remanescentes de um grupo que colocou a Bélgica entre as principais potências do futebol mundial na última década, alcançando as quartas-de-final em 2014, o terceiro lugar em 2018 e tendo apenas a frustrante eliminação ainda na fase de grupos do Catar, em 2022, como exceção.

Em 2026, essa geração segue escrevendo seus últimos capítulos, e o faz da maneira que sempre caracterizou os Diabos Vermelhos: sofrendo, lutando até o fim e recusando-se a desistir enquanto houver tempo no relógio.

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