“Vocês são verdadeiros heróis canadenses”. A frase dita por Jesse Marsch logo após a vitória do Canadá sobre a África do Sul sintetiza perfeitamente o momento histórico vivido pela seleção da folha de bordo. O triunfo pelo placar mínimo, conquistado de forma dramática nos acréscimos da partida, colocou os canadenses pela primeira vez nas oitavas-de-final de uma Copa do Mundo. Mais do que uma simples classificação, trata-se da consolidação de um projeto que transformou completamente o futebol do país nos últimos anos.
A caminhada do Canadá até o mata-mata esteve longe de ser tranquila. Na estreia, em Toronto, os canadenses empataram com a Bósnia em uma partida que deixou um sentimento de frustração. Apesar do placar igualado, os pupilos de Jesse Marsch foram superiores durante boa parte do confronto, criaram as melhores oportunidades e saíram de campo com a nítida impressão de terem desperdiçado dois pontos importantes na luta pela classificação.
Na segunda rodada veio a resposta esperada. Diante de mais de 52 mil torcedores no BC Place, em Vancouver, o Canadá atropelou o Catar por 6 a 0. Jonathan David brilhou intensamente ao marcar um hat-trick e comandar a maior atuação dos Les Rouges na competição. Entretanto, nem tudo foi motivo de comemoração. A gravíssima lesão do volante Ismael Koné, que sofreu uma fratura na perna, acabou deixando uma marca triste em uma tarde que parecia perfeita para os canadenses.
Já na última e decisiva rodada do estágio inicial do Mundial, os canadenses acabaram derrotados por 2 a 1 pela Suíça. O resultado impediu o Canadá de terminar na liderança do Grupo B, fazendo com que os Canucks avançassem como vice-colocados da chave. Como consequência, eles cruzaram o caminho da África do Sul — que ficou no segundo lugar do Grupo A — nas eliminatórias da fase de 16 avos-de-final.
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— FIFA World Cup (@FIFAWorldCup) June 24, 2026
Mesmo diante de um confronto eliminatório, o favoritismo estava ao lado do Canadá. Algo que até poucos anos atrás seria praticamente inimaginável tornou-se uma realidade graças à evolução apresentada pelos canadenses. Hoje, os Canucks entram em campo sendo respeitados por qualquer adversário, consequência direta do crescimento técnico e da consistência construída ao longo os últimos dois ciclos de Copas do Mundo.
Essa transformação ganha ainda mais valor quando se observa o passado recente da seleção. Em 2017, o Canadá ocupava apenas a 120ª colocação no ranking da FIFA, estando muito mais próximo das últimas posições do futebol mundial do que da elite da modalidade. Poucos imaginariam que, menos de uma década depois, o Les Rouges estariam disputando um Mundial em casa e alcançando um feito inédito em sua história.
Os primeiros frutos desse projeto começaram a aparecer ainda em 2022, quando o Canadá retornou à Copa do Mundo após um longo período de 28 anos ausente. Apesar das três derrotas sofridas no Catar, aquela campanha teve um enorme significado para o futebol canadense. Afinal, foi justamente naquela edição do torneio que Alphonso Davies marcou o primeiro gol da história da seleção em Mundiais, abrindo um novo capítulo para o país.
Agora, atuando como um dos anfitriões da Copa de 2026, o Canadá aproveita ao máximo a oportunidade de jogar diante de sua torcida. O ambiente criado pelos torcedores vem impulsionando os jogadores canadenses em momentos decisivos, e a conexão entre campo e arquibancada tem sido um dos grandes diferenciais da campanha. Talvez esta seja uma oportunidade única para uma geração que já entrou definitivamente para a história.
Seleções da CONCACAF nos oitavos de final do Mundial:
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🇨🇦 Canadá (2026)
🇺🇸 Estados Unidos (1994, 2002, 2010, 2014, 2022)
🇲🇽 México (1986, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018)
🇨🇷 Costa Rica (1990, 2014) pic.twitter.com/whJDUVkw2j
Contra a África do Sul, o roteiro foi de muita paciência. Os africanos adotaram uma postura extremamente defensiva durante praticamente toda a partida. Embora tenham ficado mais tempo com a posse de bola na maior parte do tempo, trocaram passes quase sempre em seu próprio campo, demonstrando claramente que o objetivo principal era levar a decisão para a prorrogação e, posteriormente, aos pênaltis.
Enquanto isso, o Canadá assumiu o protagonismo desde os minutos iniciais. Os Canucks pressionaram, buscaram espaços, criaram boas chances para balançar as redes e nunca deixaram de acreditar na vitória. A insistência foi premiada apenas aos 47 minutos do segundo tempo, quando Stephen Eustáquio apareceu para marcar o gol que explodiu o estádio em Los Angeles e garantiu a classificação histórica dos canadenses.
WE ADVANCE!!!
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OUR FIRST WORLD CUP KNOCKOUT STAGE VICTORY IN HISTORY!!!!#CANMNT #OurGameNow pic.twitter.com/sFHDdKAUmz
Além da vaga inédita, a partida também ficou marcada pelo tão aguardado retorno de Alphonso Davies. Principal jogador da seleção canadense, o lateral entrou em campo aos 30 minutos da etapa final, encerrando um longo período de ausência. Ele não defendia o Canadá desde março de 2025 e vinha sendo um dos assuntos mais comentados durante toda a campanha dos Les Rouge na Copa do Mundo.
Vale ressaltar que Alphonso Davies recuperava-se de uma lesão muscular na coxa sofrida ainda quando defendia o Bayern de Munique. O camisa 19 ficou fora das partidas contra Bósnia e Catar, e chegou a existir a expectativa de que pudesse atuar alguns minutos diante da Suíça. Jesse Marsch chegou a mencionar essa possibilidade, mas acabou preservando o craque de 25 anos de idade. Contudo, o regresso acabou sendo reservado justamente no jogo mais importante do Canadá em todos os tempos.
Ainda não sabemos até onde o Canadá conseguirá chegar nesta Copa do Mundo de 2026. Os desafios tendem a aumentar a cada fase, e o caminho rumo às etapas finais será extremamente complicado. No entanto, independentemente do desfecho da campanha, uma certeza já existe: os Canucks escreveram a página mais importante da história do futebol canadense. Pela primeira vez, eles ultrapassaram a primeira fase de um Mundial e alcançaram as oitavas-de-final, transformando uma geração talentosa em verdadeiros heróis nacionais.