Porto começa como terminou: campeão, sólido e à frente dos rivais na corrida pelo bi português

A temporada 2026-27 começou exatamente como a anterior terminou para o Porto: com uma vitória por 1 a 0 e a sensação de que algumas coisas simplesmente se recusam a mudar no Estádio do Dragão. Se a última rodada da Liga Portugal passada terminou com o triunfo pelo placar mínimo sobre o Santa Clara, o primeiro compromisso oficial do novo calendário repetiu o roteiro. Diante do Torreense, os comandados de Francesco Farioli venceram novamente pelo mesmo resultado, porém desta vez com gol de Victor Froholdt, e levantaram a Supertaça de Portugal. Entre o encerramento de uma campanha vitoriosa e o nascimento de outra, os Dragões atravessaram o verão sem perder aquilo que talvez tenha sido sua maior virtude: a capacidade de ganhar sem precisar encantar.

Dias depois, diante do Alverca, veio a primeira demonstração de que a fórmula permanece funcionando também na Liga Portugal. O triunfo por 2 a 0 foi construído durante a etapa inicial, quando André Silva e Gabri Veiga converteram duas cobranças de pênalti e entregaram aos Dragões exatamente o cenário em que essa equipe mais gosta de atuar. Com uma vantagem confortável, o Porto diminuiu os riscos, administrou espaços e passou a controlar o ritmo da partida através da posse de bola. O adversário ainda conseguiu aumentar a pressão no segundo tempo, criou dificuldades e obrigou Diogo Costa a trabalhar, mas não encontrou o gol. Outra vitória, outra baliza intacta e mais uma atuação que carregou impressões bastante familiares.

Não se trata de coincidência. A defesa foi o grande alicerce da conquista portuguesa na última temporada e continua sendo o ponto mais confiável do trabalho desenvolvido por Francesco Farioli. Em 34 rodadas da edição 2025-26 da Liga Portugal, os Dragões sofreram míseros 18 gols e terminaram nada menos que 21 partidas sem serem vazados. São números que ajudam a dimensionar uma estrutura extremamente difícil de desmontar. A equipe não se defende somente quando recua ou fecha espaços diante da própria área. Também utiliza a bola como mecanismo de proteção, alongando suas posses, diminuindo a oportunidade de transições oferecidas aos oponentes e escolhendo cuidadosamente os momentos de acelerar. É um Porto que compreendeu que dominar o jogo também significa controlar aquilo que o rival pode fazer nele.

Nesse mecanismo, Diogo Costa continua sendo uma espécie de seguro contra os raros momentos em que o sistema falha. Ele foi um dos destaques contra o Alverca e manteve o excelente nível apresentado com a seleção portuguesa na Copa do Mundo de 2026. Sua importância, entretanto, vai muito além das defesas. A tranquilidade para participar da construção, a leitura dos espaços às costas da última linha e a personalidade nos momentos de maior pressão transformam o camisa 99 em parte fundamental da identidade portista. Todo grande time precisa de um grande goleiro, mesmo quando o sistema defensivo consegue limitar consideravelmente o trabalho para protegê-lo durante os 90 minutos. E poucas equipes em Portugal possuem uma garantia tão valiosa no gol.

À frente de Diogo Costa, a continuidade também prevaleceu. A compra em definitivo de Jakub Kiwior permitiu ao Porto preservar a parceria do polonês com seu compatriota Jan Bednarek, mantendo intacto o coração de uma defesa que funcionou em altíssimo nível durante a campanha passada. Em um setor no qual entrosamento, posicionamento e comunicação valem tanto quanto qualidade individual, conservar a dupla titular representa quase uma contratação. Os dois já conhecem os mecanismos de Francesco Farioli, sabem quando avançar, quando proteger a profundidade e de que maneira coordenar a linha defensiva. Se o título português foi construído sobre fundações extremamente resistentes, os Dragões tomaram uma decisão bastante lógica para tentar conquistá-lo novamente: em vez de reconstruirem a casa, preservaram seus pilares.

Essa filosofia explica boa parte da atuação do clube no mercado. Ao contrário de promover uma revolução depois do título, a diretoria priorizou a manutenção da equipe campeã de portuguesa. Inbeom Hwang, contratado junto ao Feyenoord, e André Silva representam até aqui as principais adições, enquanto Eirik Granaas, Mame Niang e João Afonso aparecem como movimentos de menor impacto imediato. Existe inteligência nessa escolha. Um time que funciona não precisa necessariamente ser desmontado apenas porque uma nova temporada começou. Enquanto Benfica e Sporting atravessam processos de reformulação, o Porto manteve mecanismos conhecidos, uma base consolidada e jogadores completamente adaptados às ideias do treinador. Em uma corrida longa, começar vários passos à frente dos principais concorrentes representa uma vantagem considerável.

Mas toda virtude, quando levada ao extremo, pode produzir seu próprio problema. A continuidade que fortalece o Porto também o torna previsível. Depois de uma temporada inteira observando o 4-3-3 de Francesco Farioli, ninguém em Portugal precisa mais descobrir como os Dragões pretendem jogar. Os adversários conhecem sua saída de bola, sabem da tentativa frequente de construir uma vantagem cedo e entendem o comportamento da equipe quando consegue abrir o marcador. O Porto acelera para ferir e, depois de encontrar o gol, desacelera para controlar. Passa a circular a bola, diminuir o ritmo e obrigar o rival a persegui-la. Saber tudo isso obviamente não significa conseguir impedir sua execução. Todavia, quanto mais tempo um modelo permanece exposto, maior se torna a quantidade de respostas desenvolvidas contra ele.

É justamente por isso que o mercado ainda precisa entregar novas ferramentas a Francesco Farioli. André Silva chega como solução importante para um ataque que aguarda o retorno de Samu somente entre novembro e dezembro, mas seria arriscado considerar o setor completamente resolvido. Outro ponta de lança acrescentaria profundidade ao elenco e, principalmente, ofereceria características diferentes para determinadas circunstâncias. Existem partidas em que controlar não será suficiente, especialmente diante de adversários fechados ou em noites europeias nas quais o Porto precisará buscar um resultado. Nessas ocasiões, alternativas deixam de ser luxo e passam a ser necessidade. Ter mais jogadores não significa simplesmente preencher o banco de reservas, mas oferecer ao treinador italiano maneiras diferentes de solucionar problemas que inevitavelmente surgirão ao longo do calendário.

A prioridade, no entanto, deveria estar na ponta direita. Borja Sainz vem ocupando o setor e possui qualidade suficiente para cumprir a função, inclusive pela capacidade de contribuir tanto ofensivamente quanto durante a recomposição. O problema é que o espanhol atua naturalmente pelo lado esquerdo, onde seus movimentos são mais espontâneos e suas principais virtudes encontram terreno adequado para aparecer. A contratação de uma peça para o setor permitiria equilibrar o ataque, ampliar as possibilidades no um contra um e devolver ao ex-atleta do Norwich seu habitat natural. Para uma equipe que precisa se tornar menos previsível, acrescentar ameaça por outro corredor seria um avanço importante.

Também existe uma lacuna na lateral esquerda. Francisco Moura oferece segurança quando está disponível, porém sua ausência reduz consideravelmente as alternativas de Francesco Farioli. Zaidu Sanusi não parece capaz de entregar a mesma consistência, acima de tudo para um Porto que deseja competir em diferentes frentes durante toda a temporada. Buscar outro jogador para a posição deveria, portanto, fazer parte das prioridades antes do fechamento da janela. Não apenas para substituir o titular quando necessário, mas também para permitir variações de características dependendo do adversário. Calendários extensos castigam elencos desequilibrados, e aquilo que parece apenas uma pequena deficiência em agosto pode transformar-se em um problema enorme quando chegarem os meses decisivos das competições.

Nesse cenário, a provável transferência de Rodrigo Mora para a Roma representa uma perda esportiva considerável, mas pode abrir uma oportunidade financeira importante. Poucos jogadores de sua geração surgiram recentemente no futebol português carregando tamanho potencial, e abrir mão de uma promessa dessa dimensão naturalmente deixa marcas. Seja como for, grandes vendas fazem parte da realidade econômica dos clubes portugueses, e o verdadeiro julgamento sobre uma negociação desse porte começa depois que o dinheiro entra no caixa. Caso se confirme, a saída permitirá ao Porto atacar definitivamente suas principais necessidades, trazendo duas ou três peças capazes de contribuir imediatamente o fortalecimento do plantel portista. Vender um talento é doloroso, mas negociá-lo e não reinvestir adequadamente seria muito mais difícil de justificar.

Existe ainda um elemento que torna essa necessidade de profundidade especialmente importante: a Champions League. O Porto não enfrentará somente o calendário doméstico nesta temporada, e a competição europeia exigirá muito mais física, técnica e taticamente de um grupo que encontrará adversários capazes de desafiar sua maior qualidade. Na Liga Portugal, muitas vezes será possível abrir vantagem e administrá-la. Na Europa, haverá noites em que serão os Dragões obrigados a correr atrás da bola, sobreviver sem ela ou transformar completamente seu comportamento durante uma partida. É nesse ambiente que um elenco com alternativas se torna indispensável. O torneio continental não costuma perdoar equipes que possuem apenas uma maneira de jogar, por melhor que essa maneira funcione dentro das próprias fronteiras.

Deste modo, o desafio de Francesco Farioli não está em abandonar aquilo que construiu, mas em acrescentar novas camadas a uma estrutura vencedora. O 4-3-3 continuará sendo o ponto de partida, a posse permanecerá como instrumento de controle e a solidez defensiva dificilmente deixará de representar a principal identidade dos Dragões. Evoluir não significa negar essas virtudes, porém oferecer uma segunda resposta quando a primeira não funcionar. Um ponta-direita, outra opção para o comando do ataque e um lateral-esquerdo poderiam entregar exatamente essa liberdade. O Porto não precisa de uma revolução. Precisa somente evitar que sua estabilidade se transforme em imobilidade, permitindo com que o técnico portista tenha recursos suficientes para surpreender adversários que passaram meses estudando cada detalhe de sua engrenagem.

Por enquanto, ninguém em Portugal parece começar a temporada em condições melhores. Benfica e Sporting ainda procuram reorganizar peças e construir novas dinâmicas, enquanto o Porto simplesmente retomou o caminho de onde havia parado. Já conquistou a Supertaça, estreou com vitória na Liga, ainda não sofreu gols e preservou toda a espinha dorsal responsável pelo título anterior. Isso transforma os atuais campeões portugueses em francos favoritos ao bicampeonato, ainda que favoritismo algum atravesse sozinho nove meses de competição. A grande vantagem dos Dragões está no ponto de partida: enquanto seus principais rivais ainda precisam descobrir exatamente aquilo que podem ser, Francesco Farioli já sabe perfeitamente aquilo que sua equipe é.

Às margens do Douro, em contrapartida, permanecer nunca significou necessariamente ficar parado. O rio que atravessa o Porto continua no mesmo lugar enquanto suas águas estão sempre seguindo adiante, e talvez exista aí uma boa metáfora para aquilo que os Dragões precisam fazer nesta temporada. Preservar a identidade, mas renovar as possibilidades. Manter a defesa, o controle, a organização e a frieza de uma equipe que aprendeu a ganhar, acrescentando ao mesmo tempo as peças capazes de torná-la menos decifrável.

A taça levantada logo no primeiro compromisso mostra que a máquina continua funcionando. As próximas movimentações no mercado dirão se ela pode ficar ainda mais poderosa. Porque, entre defender o trono em Portugal e voltar a encarar as grandes noites da Champions League, o Porto precisará ser mais do que o ótimo time da temporada passada: precisará encontrar maneiras de ser uma versão ainda melhor de si mesmo.

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