Após o empate com a Holanda, a Mannschaft caiu diante da Grécia por 1 a 0 em Augsburg e descobriu que intensidade exige organização, tempo e uma ideia coletiva.
A Alemanha esperava que a estreia de Jurgen Klopp em casa tivesse o som de um recomeço.
Em Augsburg, porém, a noite terminou com o silêncio de uma derrota por 1 a 0 para a Grécia.
Foi a primeira vitória grega na história do confronto e a primeira queda do treinador à frente da Mannschaft. Depois do empate por 1 a 1 com a Holanda, são dois jogos sem vencer nesta nova etapa sob o comando do ex-técnico do Liverpool. O placar não sentencia um projeto nascente, mas impede que a esperança seja confundida com desempenho.
A contratação carregava uma promessa que nenhum outro nome disponível parecia oferecer.
Jurgen Klopp é um dos técnicos alemães mais vitoriosos de sua geração e chegou cercado pela lembrança de seus grandes trabalhos em Dortmund e Liverpool. Desde que deixou o clube inglês, em 2024, afastara-se da rotina do banco, embora tenha exercido uma função de direção no futebol da Red Bull. A seleção da Alemanha o desejava como figura capaz de devolver energia a um escudo que já não intimida por simples memória. Por isso, cada partida sua nasce sob uma cobrança maior do que a tabela consegue mostrar.
A ferida aberta na Copa do Mundo de 2026 ainda explica parte dessa ansiedade. A Alemanha até superou a fase de grupos, mas caiu diante do Paraguai nos pênaltis, logo nos dezesseis avos-de-final. O tropeço encerrou a passagem de Julian Nagelsmann e prolongou uma sequência desconfortável: eliminações ainda na primeira fase em 2018 e 2022. Desde o tetracampeonato conquistado em 2014, a camisa continuou pesada enquanto as atuações se tornaram leves demais. Assim, chamar Jurgen Klopp foi uma resposta ambiciosa; transformá-la em futebol será um trabalho bem mais demorado.
Klopp é o novo selecionador da Alemanha. pic.twitter.com/iMiAYei4Se
— B24 (@B24PT) July 24, 2026
Seu ponto de partida parece ser o 4-2-3-1, desenho capaz de reunir amplitude pelos lados, um jogador entrelinhas e proteção com dois meio-campistas. No papel, a estrutura favorece ataques rápidos e oferece posições claras para pressionar após a perda da bola. Contra os gregos, Joshua Kimmich e Felix Nmecha formaram a dupla central, enquanto Karim Adeyemi e Kevin Schade ocuparam os corredores. Bambasé Conté começou atrás de Younes Ebnoutalib, escalado no lugar do lesionado Kai Havertz. Havia uma formação reconhecível; faltou fazer seus movimentos acontecerem no mesmo compasso.
A Grécia entendeu cedo como retirar oxigênio desse plano. Recuou suas linhas quando a Alemanha tinha a posse, estreitou os espaços internos e aguardou oportunidades para sair em velocidade. Sem campo livre às costas dos defensores, a verticalidade alemã precisaria nascer de circulação rápida, trocas de posição e passes precisos. Esses mecanismos apareceram de forma irregular, sobretudo antes do intervalo. A posse avançava, mas nem sempre deslocava quem estava do outro lado.
O futebol de Jurgen Klopp costuma ser descrito pelo volume do som: pressão, arrancada, choque, aceleração. Seu gegenpressing, porém, depende de distâncias curtas e de jogadores que saibam onde estarão os companheiros no instante seguinte. Recuperar a bola perto da área rival é consequência de uma equipe compacta, não apenas de correr mais. Em Augsburg, houve momentos de pressão alta e maior mobilidade, especialmente na segunda etapa. O problema foi converter essa energia em chances suficientemente claras e frequentes para romper o bloqueio.
Karim Adeyemi ofereceu a ameaça mais evidente quando encontrou espaço para disparar. Em uma transição após falta grega, chegou diante do gol e finalizou por cima; mais tarde, exigiu uma defesa de Konstantinos Tzolakis. Kevin Schade também conseguiu servir Ebnoutalib, mas a finalização do centroavante não encontrou o alvo. Essas jogadas mostraram que o talento individual ainda pode ferir um adversário organizado. Mostraram, igualmente, como o ataque dependia de instantes isolados para ganhar nitidez.
Depois do intervalo, a Alemanha se moveu melhor e encurralou a Grécia por alguns minutos.
Bambasé Conté parou no goleiro, Younes Ebnoutalib ficou perto de completar um cruzamento e Kimmich cobrou uma falta que exigiu grande intervenção. Seria injusto dizer que nada funcionou; a equipe produziu uma reação visível. Seria complacente, contudo, tratar uma sequência de oportunidades como prova de domínio sustentável. Quando a primeira onda não resolveu, os tetracampeões mundiais voltaram a procurar respostas sem a mesma clareza.
Klopp tentou mudar o quadro ao lançar Florian Wirtz e Jonathan Burkardt, formando uma dupla na frente. A alteração acrescentou presença na área e uma fonte diferente de criatividade por dentro. Também revelou o dilema de sua construção: aumentar o número de atacantes não garante melhores caminhos até eles. Aos 67 minutos, uma perda de bola alemã ofereceu a Fotis Ioannidis uma chance que poderia ter aberto o placar. Sete minutos depois, o chute de Dimitrios Kourbelis, desviado, transformou o risco recorrente em derrota concreta.
A Alemanha é derrotada em casa pela Grécia — o primeiro revés da era Jürgen Klopp. pic.twitter.com/SWIXcrMiLS
— Bundesliga Insider (@BundesInsider) September 27, 2026
A lição tática mais dura talvez esteja nessa convivência entre pressa ofensiva e proteção insuficiente. Quando as peças avançam sem coordenação, o espaço deixado para trás convida o adversário a atacar. Quando a circulação é lenta, a pressão posterior precisa começar de posições piores. Como transformar a eletricidade de Jurgen Klopp em uma corrente que atravesse o time inteiro, em vez de produzir apenas faíscas? A resposta passa menos por um gesto heroico e mais por repetição, ajustes de distância e confiança entre setores.
Também é preciso distinguir o que muda em relação à passagem de Julian Nagelsmann. O antecessor buscava soluções por meio de diferentes desenhos e combinações de jogadores; Jurgen Klopp tenta estabelecer uma identidade mais ligada à recuperação imediata e ao ataque vertical. A troca, entretanto, não apaga de uma semana para outra as dificuldades de ocupar a área, oferecer linhas de passe e defender transições. Foram cinco mudanças na equipe titular entre Holanda e Grécia, além de pouco tempo de treino para consolidar movimentos coletivos. A crítica ao rendimento é necessária; um veredito definitivo sobre o técnico, após duas partidas, seria apressado.
A trajetória da seleção alemã ensina que reconstruções no futebol não obedecem ao prestígio de quem as anuncia. A Alemanha que chegou ao título de 2014 foi fruto de anos de formação, escolhas institucionais e evolução coletiva. Evocar aquela conquista como obrigação imediata seria ignorar o processo que a tornou possível. Agora, depois de três Mundiais frustrantes, a Mannschaft precisa recuperar algo anterior às taças: uma maneira confiável de jogar. Jurgen Klopp oferece uma direção reconhecível, mas ainda precisa fazer com que onze jogadores caminhem nela juntos.
A derrota para a Grécia ficará registrada pela novidade amarga de um resultado que nunca havia ocorrido. Para os alemães, sua importância maior pode estar no aviso que acompanha a estatística. O treinador mais desejado pela torcida chegou, mas a camisa não voltou a vencer por causa de sua presença à beira do campo. Há trabalho na pressão, na criação contra linhas baixas e no equilíbrio após cada ataque interrompido. O recomeço prometido continua possível; por enquanto, Augsburg mostrou que ele terá de ser construído, e não anunciado.