Alemanha volta a fracassar e paga caro pelos erros de Julian Nagelsmann

A derrota da Alemanha por 2 a 1, de virada, para o Equador na última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026 já servia como um claro prenúncio do que poderia acontecer na fase de 16 avos-de-final. Apesar da classificação, a atuação alemã levantou diversos sinais de alerta que acabaram se confirmando dias depois. Diante do Paraguai, a Mannschaft voltou a repetir os mesmos problemas apresentados ao longo do torneio e acabou eliminada nos pênaltis, encerrando de forma melancólica mais um ciclo frustrante em sua história recente.

É verdade que a Alemanha conseguiu quebrar a sequência de eliminações ainda na fase de grupos, registrada nas Copas do Mundo de 2018 e 2022. No entanto, pouco adiantou superar essa barreira se a despedida aconteceu logo na primeira fase eliminatória. A queda frente a seleção paraguaia representa, sem qualquer exagero, a primeira grande decepção da Copa do Mundo de 2026. Afinal, poucos imaginavam que os tetracampeões mundiais, considerados um dos favoritos ao título, cairiam tão precocemente diante de um adversário tecnicamente inferior.

Dentro de campo, o roteiro foi exatamente aquele que se esperava. O Paraguai adotou uma postura extremamente cautelosa, jogando com uma linha de cinco defensores, quatro homens no meio-campo e um bloco extremamente baixo, praticamente abdicando da posse de bola. A estratégia era clara: defender com disciplina e explorar os contra-ataques em velocidade, principalmente pelos lados com Julio Enciso e Miguel Almirón. Foi uma atuação extremamente organizada dos sul-americanos, que executaram seu plano de jogo com enorme eficiência.

Se o Paraguai fez exatamente aquilo que se esperava, a Alemanha também repetiu os mesmos erros que já vinham sendo observados desde a fase de grupos. Por isso, grande parte da responsabilidade por essa eliminação recai sobre Julian Nagelsmann. O jovem treinador de 38 anos de idade mostrou enorme dificuldade para encontrar soluções diante de oponentes fechados e, mais uma vez, morreu abraçado com convicções que há muito tempo já não davam resultados para a seleção alemã.

A principal delas atende pelo nome de Leroy Sané. Há alguns anos o atacante demonstra pela Alemanha o mesmo futebol aquém apresentado em clubes, mas ainda assim segue recebendo inúmeras oportunidades. Contra o Paraguai, sua atuação foi novamente decepcionante. O atacante do Galatasaray tentou cinco dribles durante toda a partida e não acertou absolutamente nenhum, tornando-se um jogador previsível, facilmente marcado e incapaz de gerar qualquer desequilíbrio diante da sólida defesa paraguaia. Ao seu lado, Florian Wirtz também encontrou enormes dificuldades para produzir e criar jogadas.

Outro equívoco marcante de Julian Nagelsmann foi a utilização de Joshua Kimmich durante praticamente toda a Copa do Mundo como lateral-direito. Além de não convocar um lateral de origem para a posição, o treinador da Alemanha abriu mão justamente da principal qualidade de um dos jogadores mais inteligentes da Mannschaft: sua capacidade de controlar o jogo pelo centro do campo. Somente no duelo com o Paraguai, Kimmich voltou ao meio, mas já encontrou um cenário completamente desfavorável, tornando-se apenas um distribuidor de toques de lado, sem conseguir romper a retranca adversária com infiltrações ou passes verticais.

Nem mesmo Jamal Musiala conseguiu mudar o panorama da partida. Acionado na segunda etapa, o camisa 10 pouco conseguiu produzir diante da excelente organização defensiva do Paraguai. Sem criatividade pelo centro, sem velocidade pelos lados e sem movimentação suficiente entre as linhas, a Alemanha foi perdendo alternativas ofensivas e demonstrando enorme dificuldade para criar oportunidades claras de gol. Mais uma vez, ficou evidente a ausência de um plano B por parte de Julian Nagelsmann.

Sem conseguir penetrar na área adversária através de tabelas, infiltrações ou jogadas individuais, a Alemanha apelou para os cruzamentos como último recurso. Após sofrer o primeiro gol, viu o Paraguai se fechar ainda mais e praticamente “estacionar um ônibus à frente da própria área”. Restou aos comandados de Julian Nagelsmann levantar bolas na área repetidamente. Foram incríveis 55 cruzamentos ao longo da partida, um número impressionante que evidencia o desespero dos alemães.

Segundo dados da Opta Analyst, trata-se do maior número de cruzamentos realizados por uma seleção em uma partida eliminatória de Copa do Mundo desde que esse tipo de estatística passou a ser registrado, em 1966. Ou seja, em aproximadamente seis décadas de levantamentos, nenhuma outra seleção recorreu tanto a esse expediente quanto os alemães mediante os paraguaios. O dado resume perfeitamente a falta de criatividade ofensiva da Alemanha.

Os erros de Julian Nagelsmann, porém, não se limitaram às escolhas táticas. Além da insistência em Kimmich improvisado na lateral-direita e da confiança excessiva em Leroy Sané, o ex-treinador do Bayern de Munique demorou para alterar a equipe mesmo quando o jogo claramente pedia mudanças, depois da tentativa frustrada de armá-la no 4-4-2 com Deniz Undav fazendo uma dupla de ataque com Kai Havertz na fase ofensiva, uma mudança que nada acrescentou. No intervalo, ainda lançou Leon Goretzka em campo, outro jogador que, atualmente, já não demonstra nível suficiente para defender a seleção alemã.

O episódio mais simbólico aconteceu justamente na disputa por pênaltis. Experiente, Leon Goretzka foi chamado por Joshua Kimmich para assumir uma das cobranças, mas recusou a responsabilidade. Coube então a Jonathan Tah assumir a penalidade, demonstrando personalidade em um momento de enorme pressão. O zagueiro do bayern de Munique acabou desperdiçando sua cobrança e a Alemanha confirmou sua eliminação. Antes disso, Tah já havia marcado, na prorrogação, aquele que seria o gol da classificação alemã. Na minha avaliação, porém, a arbitragem anulou equivocadamente o lance, já que Waldemar Anton não interfere de forma suficiente na ação do goleiro Orlando Gil, o grande destaques da partida.

A eliminação também produziu cenas marcantes. Manuel Neuer, que inclusive defendeu uma cobrança de pênalti e manteve viva a esperança alemã até os instantes finais, deixou o gramado com os olhos marejados. Foi impossível não sentir que mais uma geração talentosa viu um ciclo importante terminar de maneira extremamente frustrante. Pela terceira Copa do Mundo consecutiva, a Alemanha ficou muito abaixo das expectativas e voltou para casa antes do que imaginava.

Apesar da enorme decepção, a seleção alemã possui material humano suficiente para voltar a brigar entre as melhores do mundo. Florian Wirtz e Jamal Musiala seguem sendo jogadores de enorme talento, enquanto Kai Havertz ainda pode disputar outra Copa do Mundo em alto nível. Jonathan Tah fez um excelente torneio, Nico Schlotterbeck realizava uma grande campanha antes da lesão, Nathaniel Brown surgiu como ótima opção para a lateral esquerda e Felix Nmecha mostrou ser um jogador bastante útil. Qualidade individual não falta.

O que parece faltar à Alemanha é justamente um treinador capaz de potencializar essa geração. Na minha opinião, Pep Guardiola seria o nome ideal para assumir esse projeto. O espanhol conhece profundamente o futebol alemão após sua passagem de três temporadas pelo Bayern de Munique, fala o idioma, aprecia a cultura local e acaba de encerrar um ciclo histórico de dez temporadas no Manchester City.

Portanto, a suposta chegada de Pep Guardiola representaria um enorme salto de qualidade para uma seleção que necessita urgentemente de novas ideias. Já Julian Nagelsmann demonstrou, ao longo desta Copa do Mundo, ser incapaz de liderar o projeto da Alemanha rumo ao protagonismo internacional, transformando a tetracampeã mundial na primeira grande decepção da Copa do Mundo de 2026.

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