Embora o Sporting Clube de Portugal esteja iniciando a terceira temporada sob o comando de Rui Borges, sendo apenas a segunda conduzida pelo treinador desde o primeiro dia de preparação, a atual representa algo diferente em Alvalade. Pela primeira vez desde a saída de Ruben Amorim, em dezembro de 2024, os Leões começam um novo ciclo com um elenco verdadeiramente moldado de acordo com as ideias do antigo técnico do Vitória de Guimarães.
Pois é, não se trata apenas de trocar algumas peças ou promover ajustes pontuais em uma estrutura que já existia. A movimentação realizada durante a atual janela de transferências mostra uma ruptura muito mais profunda com o passado recente. Entre despedidas importantes, investimentos elevados e a procura por características específicas no mercado, o clube de Alvalade decidiu mudar de direção. Agora, mais do que nunca, este Sporting terá a cara de Rui Borges.
A transformação fica evidente quando observamos a quantidade e, principalmente, a relevância dos jogadores que deixaram Alvalade. Geovany Quenda, Morten Hjulmand, Francisco Trincão, Alisson Santos e Hidemasa Morita estavam inseridos de diferentes maneiras na estrutura que conduziu os Leões nos últimos anos, mas todos seguiram novos caminhos nesta janela, lembrando que Ousmane Diomande e Pedro Gonçalves também estão de malas prontas.
Obviamente, algumas dessas despedidas mexeram diretamente com pilares técnicos da formação sportinguista, enquanto outras abriram espaço para uma reformulação pensada também em médio e longo prazo. Poucas vezes desde a saída de Ruben Amorim houve uma mudança tão abrupta na composição do plantel. Frederico Varandas não tentou simplesmente preservar uma base vencedora a qualquer custo. O presidente decidiu respaldar o atual comandante e iniciar uma reconstrução capaz de estabelecer uma identidade diferente em Alvalade.
Do outro lado dessa equação aparecem seis contratações que ajudam a explicar o tamanho da aposta realizada pela diretoria. Rodrigo Zalazar, Ibrahima Ba, Issa Doumbia, Sergi Altimira, Silas Andersen, Pedro Lima, Jessy Derry e Nestory Irankunda chegaram para formar o novo núcleo de um grupo consideravelmente renovado. O maior símbolo financeiro dessa operação é Zalazar, contratado junto ao Braga por 30 milhões de euros e transformado no reforço mais caro da história sportinguista. Mais do que os valores envolvidos, porém, chama atenção o perfil procurado no mercado. São atletas jovens, fortes fisicamente, capazes de atuar em alta intensidade e com margem considerável para evolução. O uruguaio, aos 26 anos, é justamente o mais velho entre as caras novas. Esse detalhe diz muito sobre aquilo que o Sporting pretende construir a partir de agora.
🟢⚪️ Rodrigo Zalazar has just signed his contract as new Sporting CP player on €30m deal from SC Braga.
— Fabrizio Romano (@FabrizioRomano) May 15, 2026
Official statement, imminent. pic.twitter.com/cmKpr2f6Ch
Existe também uma característica física difícil de ignorar neste processo de remodelação. Grande parte dos recém-chegados possui pelo menos 1,86 metro de altura, aspecto que demonstra uma busca evidente por potência, imposição nos duelos e capacidade para sustentar partidas mais agressivas. Rui Borges sempre gostou de equipes intensas, competitivas e capazes de recuperar rapidamente a posse depois de perdê-la.
Portanto, não parece coincidência que o departamento de futebol tenha escolhido jogadores compatíveis com essas exigências. O Sporting procura unir qualidade técnica a um nível físico elevado, algo fundamental para executar transições velozes sem comprometer a organização defensiva. Trata-se de uma construção bastante diferente daquela que marcou boa parte do período anterior. A mudança de modelo começa nas ideias, mas passa necessariamente pelas características de quem estará em campo.
Naturalmente, ainda existem sobreviventes importantes da gloriosa passagem de Ruben Amorim por Alvalade. Rui Silva permanece como referência no gol, enquanto Gonçalo Inácio, Eduardo Quaresma e Zeno Debast oferecem continuidade a um setor defensivo que conserva bastante qualidade. Maxi Araújo também segue como peça importante pelo lado esquerdo, assim como Geny Catamo mantém sua capacidade de desequilibrar pelos corredores ofensivos. Isso impede que a transformação seja encarada como uma destruição completa do trabalho anterior. Há elementos suficientes para preservar competitividade e experiência dentro do grupo. A diferença é que esses remanescentes passam agora a fazer parte de outra lógica coletiva. Em vez de Rui Borges adaptar suas ideias ao material herdado, serão os atletas que precisarão se inserir definitivamente no projeto do treinador de 45 anos de idade.
E os primeiros sinais oferecidos durante a pré-temporada são bastante interessantes. A goleada por 4 a 1 diante do Nottingham Forest mostrou uma equipe agressiva, vertical e muito disposta a acelerar as jogadas sempre que encontrava espaço para avançar. Mais importante do que o próprio resultado foi perceber como algumas das novas peças parecem compreender rapidamente aquilo que o técnico português exige. Issa Doumbia, por exemplo, chamou atenção atuando pelo setor esquerdo e formando uma parceria extremamente dinâmica com Maxi Araújo. Sua capacidade de recomposição oferece segurança quando a posse é perdida, enquanto a velocidade para chegar à frente acrescenta profundidade ao ataque. É exatamente o tipo de característica necessária para sustentar um sistema baseado em intensidade. Entre os reforços contratados, pode se transformar em uma das grandes surpresas da temporada.
Issa Doumbia, reforço do 🦁 Sporting:
— Playmaker (@playmaker_PT) June 2, 2026
➡ Internacional Sub 21 – esteve no último Europeu do escalão
➡ Esta época foi campeão da Serie B 🇮🇹 , pelo Venezia
➡ 38 jogos, 10 golos, 5 assistências esta temporada
➡ Fez 24 jogos na 🇮🇹 Serie A, em 2024/25
➡ 5.º 🇮🇹 no Sporting, depois… pic.twitter.com/nRDkZhVO7B
Essa disposição também deixa evidente que o famoso 3-4-2-1 utilizado durante a era Amorim pertence definitivamente ao passado. Rui Borges trabalha atualmente em um 4-2-3-1 muito mais identificado com aquilo que construiu ao longo da carreira, oferecendo funções bastante diferentes aos jogadores. Gonçalo Inácio e Eduardo Quaresma formam uma dupla de zaga tecnicamente segura, com capacidade para iniciar as jogadas desde trás e sustentar uma linha defensiva posicionada mais à frente. No meio, Sergi Altimira e Silas Andersen demonstraram boa complementaridade como volantes durante os compromissos preparatórios. Um oferece controle e qualidade na circulação, enquanto o outro acrescenta presença física, cobertura e intensidade. Essa nova organização permite que o Sporting pressione com mais jogadores em zonas avançadas. Ao mesmo tempo, exige concentração absoluta quando a primeira linha de marcação é superada.
Talvez nenhuma contratação represente tanto essa nova fase quanto Rodrigo Zalazar. O uruguaio recebeu a responsabilidade de ocupar uma faixa do gramado anteriormente associada a Francisco Trincão e, pelo que apresentou até aqui, possui qualidade suficiente para assumir tamanho protagonismo. Atuando centralizado atrás do atacante, mas com liberdade para flutuar entre os espaços, o meia vem se transformando no cérebro ofensivo do Sporting. Contra o Nottingham Forest, as duas assistências distribuídas durante a goleada mostraram exatamente aquilo que ele pode oferecer. O camisa 17 enxerga passes verticais com rapidez, aproxima-se dos homens de frente e consegue acelerar uma jogada sem necessariamente aumentar o número de toques na bola. É uma característica extremamente compatível com a proposta de Rui Borges. Por 30 milhões de euros, naturalmente, a cobrança será proporcional ao investimento.
Nas laterais aparece outro ponto fundamental para compreender o desenho pretendido por Rui Borges. Georgios Vagiannidis pela direita e Maxi Araújo pelo lado oposto possuem liberdade para avançar de forma constante, praticamente transformando os corredores em plataformas ofensivas. A presença de Geny Catamo em uma faixa e Issa Doumbia na outra cria dobradinhas capazes de aumentar a amplitude sem retirar jogadores da região central.
Dessa maneira, o Sporting consegue atacar por fora enquanto mantém opções entre as linhas para receber próximo da área. São movimentos que favorecem justamente as transições rápidas e objetivas tão valorizadas por Rui Borges. Não existe grande interesse em circular a posse indefinidamente apenas para controlar territorialmente um adversário. A ideia principal é identificar o espaço e chegar ao gol com o menor desperdício possível.
Eis o novo emblema do Sporting 🦁 pic.twitter.com/TaRzdvGe82
— B24 (@B24PT) July 1, 2026
A referência ofensiva também será determinante para saber até onde este projeto poderá chegar. Luis Suárez apresentou excelente rendimento durante boa parte da temporada passada, especialmente até março, quando acumulou gols e se tornou decisivo dentro da área. Posteriormente, porém, sofreu uma queda bastante acentuada de produção, algo que deixou dúvidas para a sequência do trabalho. O atacante ainda não participou desta fase inicial de preparação devido às férias concedidas após a participação aquém na Copa do Mundo, mas retorna agora para novamente ocupar posição de destaque. Enquanto isso, Fotis Ioannidis mostrou que pode ser muito mais do que uma simples alternativa no banco de reservas. O grego possui força para atuar como referência, consegue segurar os defensores e oferece presença importante nas proximidades da meta adversária. Uma disputa saudável entre os dois poderá elevar consideravelmente o nível do setor.
Toda essa revolução parece ter começado antes mesmo da abertura oficial do mercado. O vice-campeonato português já havia deixado a sensação de que mudanças seriam necessárias. No entanto, a derrota diante do modesto Torreense na final da Taça de Portugal tornou o diagnóstico ainda mais contundente. Aquele resultado funcionou quase como uma confirmação de que preservar a mesma estrutura não seria suficiente para recolocar o Sporting no caminho desejado. Frederico Varandas percebeu que era necessário mexer profundamente no grupo e, principalmente, oferecer à Rui Borges condições para trabalhar com jogadores escolhidos para suas ideias. O mercado realizado desde então não deixa muitas dúvidas sobre isso, visto que o técnico sportinguista recebeu respaldo para reformular a própria equipe.
Essa confiança também aumenta consideravelmente a responsabilidade do técnico. Rui Borges gosta de verticalidade, intensidade na reação à perda e estabelece regras rigorosas para evitar desperdícios de posse em regiões críticas do campo. Seus times procuram acelerar quando existe oportunidade, pressionam imediatamente depois de um erro e utilizam bastante a capacidade ofensiva dos laterais para ganhar terreno. Há ainda uma cultura interna baseada em exigência, competitividade e resiliência, características que sempre acompanharam os seus trabalhos anteriores. Tudo isso pode tornar o Sporting extremamente desconfortável para adversários que tentam sair jogando desde a defesa. Quando a pressão encaixa, o rival dispõe de poucos segundos para decidir o que fazer. É justamente nesse caos controlado que os Leões deverão crescer.

Mas a nova temporada também servirá para responder questões que permaneceram abertas durante os primeiros anos de Rui Borges em Alvalade. Uma das principais dificuldades encontradas esteve nos confrontos diante de blocos baixos, especialmente quando os oponentes fechavam os espaços interiores e acumulavam jogadores na zona intermediária. Nessas circunstâncias, faltou por vezes um plano alternativo capaz de modificar o ritmo sem abandonar completamente os princípios do modelo. Circular por fora não bastava, enquanto tentar acelerar por dentro encontrava uma concentração enorme de defensores. Com jogadores diferentes e maior variedade de características, será interessante observar se esse problema finalmente encontrará solução. A chegada de Rodrigo Zalazar pode contribuir pela criatividade entre linhas, assim como os avanços dos laterais oferecem amplitude constante. Esse talvez seja o grande teste tático deste Sporting renovado.
Outro aspecto constantemente debatido esteve relacionado ao timing das substituições. Rui Borges recebeu críticas em diferentes momentos por demorar a modificar partidas que claramente pediam soluções novas ou por não conseguir gerar o impacto esperado através das alterações feitas durante os 90 minutos. Agora, com um elenco mais compatível com suas preferências, essa justificativa desaparecerá. O banco oferecerá alternativas capazes de mudar as condições dos jogos sem desmontar completamente a estrutura do Sporting, ao passo que a própria concorrência interna tende a elevar o nível dos titulares. Será necessário reconhecer rapidamente quando determinado caminho deixa de funcionar e encontrar respostas, corrigir problemas, antes do apito final. Nesse sentido, a temporada 2026-27 representa igualmente uma prova de maturidade para o treinador.
O Sporting chega, portanto, a uma temporada que pode significar muito mais do que simplesmente uma tentativa de recuperar o título português. Trata-se da consolidação de um projeto iniciado após uma das eras mais marcantes da história recente do clube alviverde e que somente agora parece completamente independente dela. As primeiras apresentações sugerem uma formação fisicamente poderosa, veloz nas transições, agressiva sem a bola e tecnicamente capaz de produzir futebol de qualidade.
Evidentemente, amistosos de pré-temporada não entregam respostas definitivas, e desafios muito maiores aparecerão quando os jogos oficiais começarem. Ainda assim, existe uma sensação clara de renovação em Alvalade. Pela primeira vez, será possível avaliar Rui Borges sem a permanente sombra do sistema deixado por seu antecessor. A era Ruben Amorim acabou definitivamente: a partir de agora, este Sporting pertence ao seu atual treinador.