Manchester City volta ao mundo real após o fim da era Pep Guardiola

O Manchester City está de volta ao mundo real. Depois de dez anos habitando uma estratosfera particular, distante das limitações dos meros mortais, os Citizens precisam reaprender a conviver com a incerteza. A saída de Pep Guardiola encerra não apenas uma passagem vitoriosa, mas uma das eras mais dominantes da história do futebol inglês. Assim como acontece na vida, porém, o futebol também é formado por ciclos, despedidas e inevitáveis recomeços. Até mesmo os impérios mais poderosos encontram o momento em que precisam virar a página. E, a partir de agora, caberá a Enzo Maresca tentar escrever o primeiro capítulo depois de Guardiola.

Não existe exagero quando se afirma que Pep Guardiola transformou completamente a dimensão esportiva do Manchester City. Em dez temporadas, o técnico catalão conquistou nada menos do que 20 títulos, construindo uma coleção que alterou definitivamente o lugar ocupado pelo clube no futebol mundial. Foram seis troféus da Premier League em dez participações, uma taxa de sucesso que traduz a dimensão de sua superioridade. O auge doméstico chegou com o inédito tetracampeonato consecutivo, alcançado em 2024 e jamais registrado anteriormente na história da competição. Guardiola não se limitou a ganhar campeonatos, porque mudou os parâmetros pelos quais um time dominante passou a ser avaliado na Inglaterra. Durante uma década, vencer deixou de ser uma possibilidade para se transformar em uma realidade no Etihad Stadium.

A obra-prima dessa trajetória foi produzida em 2023, quando o Manchester City conquistou a histórica tríplice coroa. O título inédito da Champions League retirou do clube o último peso que ainda permanecia sobre seus ombros. Até aquele momento, o City já dominava o futebol inglês, mas ainda buscava uma consagração continental que justificasse todo o investimento realizado ao longo dos anos. Pep Guardiola entregou esse título e, com ele, colocou definitivamente os Citizens na galeria dos grandes campeões europeus, um feito que não representou somente mais uma taça dentro de uma sala já bastante preenchida. Através dele veio a confirmação de que o projeto iniciado anos antes havia alcançado sua forma mais próxima da perfeição.

Sob o comando do catalão, o Manchester City ganhou um novo status, uma identidade própria e uma maneira muito particular de compreender o jogo. A posse de bola deixou de ser apenas um recurso técnico e passou a funcionar como instrumento de controle territorial, físico e emocional das partidas. Durante anos, os adversários foram obrigados a correr atrás da bola enquanto o City ditava o ritmo, ocupava os espaços e reduzia o campo disponível. Os Citizens não venciam somente pela qualidade individual de seus jogadores, mas pela clareza de movimentos repetidos quase mecanicamente. Cada passe, cada aproximação e cada posicionamento pareciam fazer parte de uma engrenagem cuidadosamente projetada.

Entretanto, o último sotaque futebolístico de Pep Guardiola em Manchester já começou a soar diferente daquele ouvido no início do trabalho. Nas duas temporadas finais, o treinador procurou tornar o City mais vertical, intenso e preparado para atacar os espaços com maior velocidade. A mudança surgiu como resposta à evolução do futebol europeu, cada vez mais baseado na combatividade, nas transições rápidas e na ocupação agressiva do campo. O jogo excessivamente horizontal já não era funcional contra adversários fisicamente mais fortes e taticamente preparados. Guardiola percebeu a transformação e tentou adaptar sua equipe a esse novo cenário antes de encerrar sua passagem. Até em sua despedida, portanto, o técnico de 55 anos de idade demonstrou a inquietação característica dos treinadores que jamais se acomodam diante das próprias convicções.

Os resultados das dez temporadas ajudam a compreender o tamanho da regularidade construída durante essa era. As piores colocações do Manchester City na Premier League foram dois terceiros lugares, algo impressionante na liga mais competitiva do planeta. Mesmo quando não alcançou sua melhor versão, a equipe permaneceu próxima das primeiras posições e quase nunca deixou de disputar o título. Na última temporada, o vice-campeonato mostrou que o declínio esportivo esteve muito distante de representar um desmoronamento. O City não atravessou um processo de ruptura, não correu riscos maiores e continuou lutando por conquistas até os momentos decisivos. Pep Guardiola deixa o clube ainda competitivo, mas também consciente de que a estabilidade produzida durante sua gestão será quase impossível de reproduzir.

Parte das dificuldades recentes esteve relacionada à prolongada ausência de Rodri, uma das peças mais importantes de toda a estrutura coletiva. Sem o espanhol, o Manchester City perdeu controle, proteção defensiva e capacidade para organizar o jogo a partir da região central. Agora, Enzo Maresca poderá enfrentar um problema ainda maior, porque o Real Madrid trabalha para contratar o volante que já manifestou publicamente o desejo de realizar o sonho de defender o clube merengue, deixando seu futuro no Etihad Stadium cercado de dúvidas. Nico González aparece como uma alternativa dentro do elenco, embora ainda não exista segurança de que esteja preparado para assumir tamanha responsabilidade. Substituir o camisa16 não significaria apenas encontrar outro meio-campista, mas reconstruir o ponto de equilíbrio de todo o sistema.

O mercado também revela que Maresca receberá um elenco em processo de reformulação. O Manchester City investiu 135 milhões de euros na contratação de Elliot Anderson, trazido do Nottingham Forest para fortalecer o meio-campo. Por outro lado, as despedidas de Nathan Aké, Bernardo Silva e John Stones retiraram experiência, liderança e conhecimento profundo do modelo construído por Pep Guardiola. Até o momento, portanto, são três saídas importantes diante de apenas uma grande chegada. Naturalmente, novas contratações deverão acontecer antes do fechamento da janela — vide o interesse em Malo Gusto —, especialmente porque o grupo ainda apresenta lacunas evidentes. O desenho definitivo do novo City somente poderá ser analisado quando o treinador italiano conhecer todas as peças que terá à disposição.

A escolha de Enzo Maresca não representa uma ruptura completa com o passado, mas uma tentativa de preservar parte da herança deixada por Pep Guardiola. O novo técnico do Manchester City conhece os métodos do antecessor, trabalhou dentro da estrutura do clube e compreende os princípios que sustentaram o sucesso do time. Além disso, apresentou credenciais importantes ao recolocar o Leicester na Premier League em 2024, conduzindo os Foxes novamente à elite inglesa. Posteriormente, realizou um bom trabalho no Chelsea e conquistou o Mundial de Clubes no ano passado. Sua trajetória indica um treinador preparado, estudioso e familiarizado com ambientes de grande pressão. O problema é que nenhuma preparação parece suficiente quando se substitui um dos maiores técnicos da história.

Taticamente, é possível imaginar um Manchester City novamente mais horizontal sob o liderança de Enzo Maresca. Ao contrário da verticalidade procurada por Pep Guardiola nos últimos anos, o italiano costuma valorizar ataques mais pacientes, aproximações curtas e longas sequências de posse. Essa mudança exigirá adaptações importantes de jogadores que se beneficiaram da aceleração recente do time. Antoine Semenyo e Jérémy Doku, por exemplo, são pontas agudos, explosivos e principalmente perigosos quando encontram espaços para avançar em velocidade. Um jogo excessivamente controlado poderá reduzir os metros disponíveis para que ambos explorem suas melhores características. Maresca terá de encontrar um equilíbrio entre suas convicções e as qualidades naturais dos jogadores presentes no plantel.

Ainda é cedo, no entanto, para definir com precisão como será o novo Manchester City. A pré-temporada está apenas começando, o mercado continua aberto e diversas movimentações ainda modificarão profundamente a composição da equipe. Enzo Maresca precisará observar os jogadores, testar funções e compreender quais conceitos podem ser implementados imediatamente. Também terá de identificar quais ideias de Pep Guardiola merecem ser preservadas e quais precisam ser abandonadas para que o novo trabalho tenha identidade própria. Tentar copiar o antigo treinador seria provavelmente o caminho mais rápido para o fracasso. O discípulo somente conseguirá sobreviver à sombra do mestre quando demonstrar coragem para seguir uma direção que também lhe pertença.

A história mostra como pode ser doloroso substituir treinadores que se transformaram em símbolos de seus clubes. Unai Emery encontrou enormes dificuldades ao assumir o Arsenal depois das mais de duas décadas de Arsène Wenger à beira do campo. David Moyes praticamente não teve tempo para respirar ao ocupar o lugar deixado por Alex Ferguson no Manchester United. Até mesmo Arne Slot, apesar da extraordinária conquista da Premier League em seu primeiro ano no Liverpool, sofreu na temporada seguinte e deixou o clube diante da queda acentuada de rendimento. O sucessor de uma lenda nunca é avaliado apenas pelo próprio trabalho, porque também precisa enfrentar diariamente a memória do antecessor. Cada derrota faz o passado parecer ainda mais brilhante, enquanto cada vitória é tratada como simples continuidade de uma herança recebida.

Por isso, exigir que a próxima década do Manchester City sejam iguais aos dez anteriores seria uma crueldade com Enzo Maresca e uma incompreensão sobre o tamanho do que foi construído. A obra de Pep Guardiola pertence ao território dos acontecimentos extraordinários, daqueles que dificilmente se repetem em uma mesma geração. Foram títulos, recordes, revoluções táticas e uma regularidade incompatível com a natureza imprevisível do futebol. O City continuará rico, poderoso e competitivo, mas voltará a conviver com dúvidas que durante muito tempo pareciam pertencer somente aos seus adversários. Diante disso, Maresca terá a árdua missão de proteger o presente sem se tornar prisioneiro do passado.

Bem-vindo novamente à realidade, Manchester City!

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