O treinador austríaco reencontra um clube diferente, recupera a verticalidade ofensiva, mas já descobre que nenhum voo será sustentável enquanto a defesa continuar exposta.
O retorno de Adi Hütter ao Eintracht Frankfurt não deve ser confundido com uma simples viagem sentimental ao passado. Cinco anos depois de sua saída, o austríaco reaparece no Deutsche Bank Park como resposta a uma crise de identidade que ultrapassou resultados e alcançou a maneira de jogar. A diretoria entendeu que a equipe havia perdido agressividade, velocidade e coragem para atacar os espaços. Mais do que contratar um velho conhecido, o clube procurou alguém capaz de reconhecer os códigos históricos das Águias. Há reencontros que servem para recordar; este, contudo, foi planejado para reconstruir.
Entre 2018 e 2021, Adi Hütter comandou uma das versões mais intensas e sedutoras do Frankfurt neste século. Naquele período, o time pressionava com ferocidade, recuperava a bola em zonas adiantadas e transformava cada transição em ameaça imediata. A campanha até as semifinais da Europa League de 2019 conferiu projeção internacional a uma obra que já encantava dentro da Alemanha. Sébastien Haller, Luka Jovic e Ante Rebic formaram a célebre “Manada de Búfalos”, um trio cuja potência parecia empurrar o campo inteiro em direção à baliza adversária. Não era um futebol interessado em pedir licença: avançava, ocupava e golpeava.
A despedida rumo ao Borussia Monchengladbach, em 2021, também ofereceu uma lição importante sobre os limites de qualquer convicção tática. Os mecanismos de pressão e aceleração que funcionavam em Hessen encontraram resistência num elenco acostumado a controlar partidas de maneira mais paciente. Faltou sintonia entre a ideia do treinador, as características disponíveis e o tempo necessário para aproximar esses dois mundos. O resultado foi uma temporada marcada por oscilações, desequilíbrio e excessiva vulnerabilidade sem a bola. Um modelo, por mais moderno que pareça, nunca existe sozinho: depende das peças que lhe dão vida.

Sua experiência posterior no Monaco acrescentou novas camadas a esse repertório. Na França, o técnico austríaco demonstrou maior flexibilidade para alternar ataques rápidos com períodos de posse mais elaborada, sobretudo por dentro. O vice-campeonato nacional alcançado no Principado evidenciou uma versão menos rígida e mais consciente dos diferentes momentos de uma partida. A intensidade continuou presente, porém deixou de ser a única resposta disponível diante de qualquer problema. Adi Hütter regressa, portanto, não como uma fotografia preservada de 2019, mas como um profissional remodelado pelas próprias cicatrizes.
O Eintracht Frankfurt que ele reencontra também não é o mesmo que ficou para trás. A campanha anterior terminou na oitava colocação, fora das competições europeias, e atravessou dois comandos permanentes, primeiro com Dino Toppmöller e depois com Albert Riera. Durante boa parte desse ciclo, a posse tornou-se burocrática, previsível e incapaz de ferir linhas bem organizadas. Circulava-se a bola, mas raramente o adversário era obrigado a correr em direção ao próprio gol. Quando um clube troca sua pulsação por um roteiro mecânico, até o domínio territorial pode virar uma forma elegante de estagnação.
A escolha por Adi Hütter representa, nesse sentido, uma tentativa calculada de reconectar o presente à natureza competitiva das Águias. A proposta passa por defender para a frente, encurtar o campo e acelerar assim que surge uma fresta entre os setores rivais. Verticalidade não significa simplesmente lançar de qualquer maneira, mas identificar o instante exato em que a defesa contrária ainda está desarrumada. Esse princípio devolveu urgência a um conjunto que frequentemente parecia contemplativo na temporada passada. O Frankfurt voltou a jogar como quem deseja chegar a algum lugar, embora ainda não saiba percorrer o caminho sem tropeçar.
As três primeiras rodadas da Bundesliga resumem perfeitamente essa contradição. O empate por 3 a 3 diante do Union Berlin, a goleada sofrida por 4 a 1 contra o Augsburg e a vitória por 3 a 1 sobre o Mainz deixaram a equipe com quatro pontos, na nona posição. Foram sete gols marcados e oito sofridos, números que revelam força para produzir e enorme dificuldade para se proteger. O ataque já figura entre os mais produtivos deste início, enquanto a retaguarda aparece entre as mais vazadas. Há fogo suficiente para iluminar a campanha, mas também para incendiar a própria casa.
Com a bola, o desenho de Hütter frequentemente assume a lógica de um 4-2-2-2, estrutura que concentra jogadores por dentro e aproxima os homens mais criativos da área. Em vez de isolar um centroavante entre os zagueiros ou prender pontas junto às laterais, o sistema procura estabelecer superioridade no corredor central. Os dois meias interiores ocupam os meio-espaços, oferecem linhas curtas de passe e ficam preparados para reagir imediatamente após uma perda. Essa densidade permite tabelas rápidas, segundas bolas e ataques conduzidos em poucos toques. O objetivo não é bordar ao redor da defesa, mas encontrar a costura e atravessá-la.
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Jonathan Burkardt exerce papel fundamental nessa engrenagem por causa de sua mobilidade. O atacante se desloca para os lados, ataca o ponto cego dos marcadores e abre clareiras para quem chega de trás. Suas arrancadas entre lateral e zagueiro obrigam a última linha a tomar decisões desconfortáveis em velocidade elevada. Se o defensor acompanha o movimento, libera uma faixa central; caso permaneça, concede profundidade ao camisa que acelera. Burkardt não atua apenas onde a jogada termina, porque muitas vezes é o percurso dele que permite ao lance começar.
Younes Ebnoutalib oferece características complementares e tornou essa parceria uma das principais esperanças do novo projeto. Mais forte no contato, capaz de proteger a bola e perigoso pelo alto, ele funciona como referência para os avanços verticais. Seu trabalho de costas sustenta a progressão dos companheiros, fixa os zagueiros e cria tempo para a aproximação do bloco ofensivo. O hat-trick no empate com o Union Berlin foi a demonstração mais ruidosa de seu potencial, ainda que o resultado tenha diminuído o brilho da atuação individual. Ao lado de Jonathan Burkardt, forma uma dupla na qual movimento e presença física podem se alimentar mutuamente.
A vitória por 3 a 1 em Mainz mostrou que o repertório não depende exclusivamente dos dois atacantes. Can Uzun marcou duas vezes, Jonathan Burkardt fez o outro gol e o Eintracht Frankfurt conseguiu traduzir intensidade em maior controle competitivo. Foi uma resposta necessária depois do colapso em casa diante do Augsburg, quando a equipe saiu em vantagem e retornou do intervalo irreconhecível, perdendo por 4 a 1. Ainda assim, o tento sofrido no fim impediu que a primeira aparição realmente convincente terminasse com a baliza intacta. Seria apenas um detalhe estatístico ou mais um sinal de que a ferida continua aberta?
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O maior risco do modelo aparece justamente quando a pressão inicial é superada. Como muitos jogadores avançam para fechar opções de passe, qualquer atraso no bote pode deixar metros preciosos às costas dos volantes. Os laterais sobem, os meias estreitam e os defensores passam a controlar espaços largos em situações de igualdade numérica. Nessas circunstâncias, uma simples inversão ou condução bem executada transforma organização agressiva em corrida desesperada. O problema não está necessariamente na ousadia, mas na falta de coordenação entre quem persegue, quem oferece cobertura e quem protege a entrada da área.
Deste modo, Adi Hütter precisa encontrar equilíbrio sem retirar a eletricidade que tornou o time novamente interessante. Recuar de maneira indiscriminada destruiria exatamente o elemento que sua contratação pretendia restaurar; insistir sem correções, por outro lado, converteria cada partida numa aposta perigosa. A solução passa por melhorar distâncias, controlar rebotes e escolher com mais inteligência os momentos de pressionar em bloco. Também será indispensável amadurecer uma linha defensiva inexperiente, evitando que entusiasmo seja confundido com precipitação. Coragem tática não consiste em atacar o tempo inteiro, mas em reconhecer quando o jogo exige respirar.
Nesse processo, a estabilidade institucional terá peso semelhante ao trabalho realizado no gramado. Os ruídos envolvendo o diretor esportivo Markus Krösche e possíveis divergências internas sobre contratações, perfis desejados ou prazos para a montagem do elenco precisam ser contidos antes que alcancem o vestiário. Adi Hütter necessita de reforços compatíveis com sua proposta, ao passo que a direção deve impedir que necessidades pontuais comprometam o planejamento financeiro. Caso os resultados oscilem, qualquer desacordo mal administrado ganhará proporções muito maiores do que possui agora. Um clube que busca reencontrar a identidade não pode permitir que duas visões de futuro puxem o projeto em sentidos opostos.
Isto posto, o primeiro balanço oferece esperança e advertência na mesma medida. O Eintracht Frankfurt recuperou impulso, presença ofensiva e prazer em atacar, atributos que haviam desaparecido no labirinto da temporada anterior. Se conseguir proteger melhor a faixa diante dos zagueiros e diminuir os espaços concedidos depois das perdas, terá qualidade suficiente para disputar uma vaga europeia. Se a hemorragia continuar, nem mesmo uma produção elevada de gols será capaz de sustentar o voo durante 34 rodadas. Adi Hütter já devolveu às Águias a vontade de abrir as asas; agora precisa ensiná-las a atravessar a tempestade sem despencar.