O gigante despertou: o Deportivo La Coruña está novamente entre os grandes

Oito anos depois, o clube galego retorna à elite com um mercado ambicioso, cinco pontos em três rodadas e a esperança de reconstruir o caminho do inesquecível Súper Dépor.

Durante oito anos, o Estádio de Riazor pareceu guardar dentro de suas arquibancadas o eco de um passado distante. O Deportivo La Coruña, campeão espanhol, protagonista europeu e símbolo de uma Galícia orgulhosa, precisou atravessar divisões inferiores antes de reencontrar a elite. Nesse período, viveu duas quedas, dificuldades econômicas, sucessivas trocas no comando técnico e a dolorosa sensação de ter desaparecido do mapa principal do futebol. A vitória por 2 a 0 sobre o Valladolid, ainda sob a chuva, confirmou o acesso na penúltima rodada da Segunda Divisão e encerrou uma ausência iniciada com o rebaixamento de 2018. Mais do que subir, porém, o Dépor regressou para recuperar uma identidade que jamais deixou de existir na memória de sua gente.

A travessia foi longa porque o abismo revelou-se muito mais profundo do que inicialmente se imaginava.
Depois de deixar a divisão de elite espanhola, o clube ainda caiu para a terceira categoria em 2020, permanecendo três temporadas fora do futebol profissional organizado pela LaLiga. Somente em 2024 ocorreu o primeiro movimento concreto de reconstrução, com o título da Primera Federación e a consequente volta ao segundo escalão. Após um campeonato de consolidação, a chegada de Antonio Hidalgo em 2025 ofereceu ao projeto aquilo que faltara durante tanto tempo: continuidade, equilíbrio e uma ideia reconhecível. Oito anos separaram a despedida amarga da reaparição, mas Riazor nunca permitiu que a história fosse confundida com esquecimento.

Antonio Hidalgo compreendeu rapidamente que não seria necessário reinventar toda a equipe, e sim estabelecer uma estrutura capaz de proteger o talento já existente. Seu ponto de partida foi um conjunto compacto, disciplinado e consciente dos espaços, recuperando de certa maneira a antiga receita de “ordem e talento” eternizada por Arsenio Iglesias. A movimentação de Mario Soriano para uma faixa mais recuada do meio-campo melhorou a circulação, facilitou a saída e deu sustentação aos avanços dos jogadores mais criativos. Yeremay Hernández e David Mella passaram a receber liberdade para acelerar pelos corredores, enquanto os demais componentes compensavam esses movimentos por dentro. A campanha do acesso, construída também durante uma série de doze rodadas sem perder, nasceu dessa combinação entre prudência, sacrifício e ousadia controlada.

O retorno à La Liga começou com dois empates por 1 a 1, diante de Elche e Málaga, antes da vitória por 3 a 1 sobre o Valencia. Cinco pontos em nove possíveis representam um começo bastante positivo para uma agremiação que ainda precisa readaptar-se ao ritmo da primeira prateleira espanhola. Na estreia, o adversário ilicitano controlou maior parcela da posse, mas os anfitriões encontraram o gol em uma ligação direta de Lorenzo Amatucci para Pierre-Emerick Aubameyang. Leo Román precisou realizar intervenções importantes, e o empate de Marc Aguado, aos 76 minutos, expôs a dificuldade corunhesa para conservar intensidade depois do intervalo. Ainda assim, aquela noite no Riazor mostrou que o recém-promovido poderia sofrer, resistir e atacar sem perder sua personalidade.

A visita à La Rosaleda repetiu algumas virtudes, além de apresentar limitações semelhantes às observadas na abertura do campeonato. Luismi Cruz rompeu a marcação com um passe vertical, Pierre-Emerick Aubameyang demonstrou enorme categoria na definição e colocou os visitantes novamente em vantagem. O Málaga respondeu em cobrança de pênalti de Chupe, passou a controlar o segundo tempo e impediu que o Dépor encontrasse as transições utilizadas durante a etapa inicial. Quando não consegue recuperar a bola em zonas intermediárias, os pupilos de Antonio Hidalgo ainda recuam excessivamente e ficam distante do próprio atacante. Todavia, ponto conquistado fora de casa teve valor e deixou evidente a necessidade de oferecer mais alternativas à construção sob pressão.

A primeira vitória surgiu contra o Valencia, diante de 29.077 espectadores, em uma partida carregada de simbolismo. Dois gols em apenas cinco minutos permitiram que os galegos controlassem emocionalmente o confronto, mesmo após uma falha na saída devolver o oponente à disputa. Mario Soriano conduziu uma transição desde o campo defensivo, Pierre-Emerick Aubameyang atacou o espaço e finalizou com a segurança de quem parece não sentir o peso da idade. Na etapa complementar, o bloco baixou alguns metros, entregou a posse aos valencianos e procurou explorar o terreno deixado nas costas da defesa. O triunfo por 3 a 1 encerrou uma espera de oito anos por uma vitória na elite e manteve o Deportivo La Corunã invicto após três compromissos.

Pierre-Emerick Aubameyang transformou-se imediatamente no rosto mais conhecido dessa reconstrução e marcou uma vez em cada rodada disputada. Contratado junto ao Olympique de Marseille por aproximadamente 1,5 milhão de euros, o gabonês assinou vínculo até junho de 2028 depois de registrar dez gols e seis assistências na última Ligue 1. Sua presença fornece profundidade, experiência e uma qualidade de finalização que pode converter poucas oportunidades em pontos preciosos. O camisa 7 não funciona apenas como referência fixa, pois também busca as costas dos zagueiros, abre diagonais e oferece uma rota direta quando a saída curta fica bloqueada. Em uma equipe preparada para transitar rapidamente, ter um atacante capaz de escolher o movimento certo vale quase tanto quanto dominar a bola.

O mercado promovido pela direção esportiva foi muito além de uma contratação midiática e alcançou dez reforços para o elenco principal. Leo Román, Teun Gijselhart, Bright Ede, Lorenzo Amatucci e Jonathan Asp Jensen formaram o primeiro grupo, composto sobretudo por atletas jovens e valorizáveis. Depois vieram Pierre-Emerick Aubameyang, Angeliño e Adama Traoré, acrescentando experiência internacional, velocidade e capacidade para decidir partidas.
No último dia da janela, os empréstimos de Marc Casadó e José María Giménez completaram uma operação próxima dos 25 milhões de euros em investimentos diretos. Em vez de preparar uma simples sobrevivência, o Deportivo montou um plantel que combina desenvolvimento futuro com rendimento imediato.

Leo Román custou cerca de nove milhões de euros e já demonstrou, contra o Elche, por que recebeu um investimento tão significativo. Bright Ede amplia as opções para a zaga, embora o erro cometido diante do Valencia lembre que seu amadurecimento exigirá alguma paciência.
Lorenzo Amatucci oferece posicionamento, intensidade e precisão nos passes longos, enquanto Teun Gijselhart representa uma alternativa dinâmica para diferentes funções no setor central. Jonathan Asp Jensen, formado no universo do Bayern de Munique, possui criatividade suficiente para trabalhar entre linhas e aproximar o ataque dos meio-campistas. São apostas que não foram pensadas apenas para a temporada 2026-27, mas para conceder ao projeto um horizonte técnico mais amplo.

Angeliño carrega um significado particularmente especial porque retorna ao clube no qual iniciou seu caminho antes de construir carreira internacional. O lateral chega cedido pela Roma após acumular experiências em Manchester City, PSV, RB Leipzig, Galatasaray, Bundesliga, Serie A e competições continentais. Com sua qualidade no cruzamento e facilidade para ocupar o campo ofensivo, ele pode transformar o corredor esquerdo em uma fonte constante de amplitude. No lado oposto, Adama Traoré acrescenta força, aceleração e uma capacidade incomum de superar marcadores em situações individuais. A utilização simultânea dos dois exige coberturas cuidadosas, mas também permite ao treinador Antonio Hidalgo alongar adversários que defendem com linhas muito estreitas.

Marc Casadó talvez seja a peça que mais pode modificar o funcionamento coletivo ao longo da temporada. O meio-campista cedido pelo Barcelona está acostumado a receber sob pressão, orientar o corpo antes do domínio e encontrar passes progressivos em espaços reduzidos. Ao lado de Lorenzo Amatucci, Diego Villares ou Mario Soriano, ele oferece condições para que o Dépor controle melhor a posse sem abandonar a verticalidade construída durante o acesso. Sua leitura também facilita a proteção aos laterais, especialmente quando Angeliño ou Adama Traoré avançarem ao mesmo tempo. Se encontrar regularidade, o jovem catalão poderá representar a ponte entre a segurança exigida por Antonio Hidalgo e a ambição sugerida pelo mercado.

José María Giménez acrescenta à defesa uma autoridade que poucos recém-promovidos conseguem contratar. O uruguaio desembarcou por empréstimo do Atlético de Madrid, com opção de compra, depois de disputar 270 partidas na La Liga e 69 na Champions League.
Sua agressividade nas antecipações, o domínio pelo alto e a familiaridade com blocos compactos encaixam perfeitamente nas exigências do novo treinador. Mais importante será sua capacidade de orientar companheiros ainda inexperientes, diminuindo os erros individuais observados nas rodadas inaugurais. Numa campanha em que numerosos jogos serão decididos por margens mínimas, um defensor acostumado a conviver com pressão pode alterar completamente o destino da equipe.

A provável evolução tática passa por variações entre o 4-4-2, utilizado para proteger os corredores e acelerar transições, e uma estrutura próxima do 4-2-3-1 com bola. Marc Casadó pode iniciar a construção entre os centrais, Mario Soriano avançar alguns metros e Yeremay receber em condições favoráveis para o duelo individual. Pierre-Emerick Aubameyang continuará atacando a profundidade, enquanto Angeliño dará largura pela esquerda e permitirá que o ponta correspondente ocupe regiões interiores. Entretanto, o Deportivo La Coruña precisará aprender a descansar com a posse, evitando transformar todo compromisso em uma sequência desgastante de perseguições e contra-ataques. Como preservar a coragem ofensiva sem ultrapassar aquilo que a organização defensiva consegue suportar?

Essa pergunta conduz diretamente ao passado, porque o verdadeiro Súper Dépor também nasceu do encontro entre fantasia e equilíbrio. O título espanhol de 1999-00, único da instituição, teve Djalminha oferecendo imaginação, Mauro Silva protegendo o centro e Roy Makaay definindo as jogadas. Fran, Donato, Naybet, Flávio Conceição, Víctor Sánchez e Jacques Songo’o ajudaram a construir um campeão que terminou acima de Barcelona, Valencia e Real Madrid. Nonato, outro brasileiro querido pela torcida, havia defendido o clube entre 1988 e 1990, mas não integrava aquele elenco vencedor da virada do século. Depois vieram a Copa do Rei de 2002, o chamado “Centenariazo”, e a inesquecível goleada por 4 a 0 sobre o Milan na Champions League de 2004.

Seria injusto cobrar da formação atual a repetição imediata de uma época que pertence aos capítulos mais improváveis do futebol europeu. A prioridade declarada por Fernando Soriano, diretor esportivo, continua sendo a permanência, apesar da qualidade dos nomes apresentados e da empolgação externa. No entanto, certos escudos não conseguem voltar discretamente, porque carregam histórias grandes demais para ocupar apenas um canto da paisagem. O Deportivo passou anos longe dos refletores, reencontrou o caminho e agora surge acompanhado por uma torcida que nunca aceitou abandonar sua casa. Talvez ainda não seja o nascimento de outro Súper Dépor, mas já é a confirmação de que aquele gigante adormecido voltou a respirar diante do mar da Galícia.

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