Depois de uma temporada marcada por conflitos e instabilidade, o Olympique goleia o Strasbourg no Vélodrome e recupera a esperança.
A caminhada do Olympique de Marseille em busca do fim da hegemonia parisiense começou de maneira praticamente perfeita no Stade Vélodrome. Diante de uma torcida que passou os últimos meses entre a frustração e a desconfiança, a equipe comandada por Bruno Génésio goleou o Strasbourg por 4 a 0. O resultado representou muito mais do que três pontos conquistados na abertura da Ligue 1. Houve uma demonstração de força coletiva, um reencontro com a própria identidade e, sobretudo, a sensação de que o turbulento capítulo anterior finalmente ficou para trás. Dezesseis anos depois do último título francês, alcançado na temporada 2009-10, a esperança volta a circular pelas arquibancadas marselhesas. Seria essa atuação apenas uma empolgação passageira ou o primeiro sinal de uma candidatura verdadeiramente capaz de ameaçar o Paris Saint-Germain?
Não se pode compreender a importância dessa estreia sem recordar o caos vivido pelo clube durante a campanha passada. O quinto lugar na tabela garantiu somente uma vaga na Europa League, recompensa pequena diante das expectativas criadas no início daquele valioso projeto. Resultados irregulares, problemas internos e sucessivas turbulências impediram a formação de uma equipe confiável. A derrota por 5 a 0 para o Paris Saint-Germain, em pleno Le Classique, simbolizou o esgotamento de uma relação que já apresentava rachaduras profundas. Roberto De Zerbi deixou o cargo em fevereiro, pouco depois daquele golpe esportivo e emocional, encerrando sua passagem por meio de um acordo com a diretoria. O italiano havia conduzido o time ao segundo lugar no ano anterior, mas saiu incapaz de recuperar um vestiário que parecia ter perdido a conexão com suas ideias.
Habib Beye chegou posteriormente com a difícil missão de reorganizar uma estrutura abalada e salvar o que ainda restava da temporada. Antigo jogador da instituição, ele carregava identificação com as arquibancadas, conhecimento do ambiente e uma imagem inicialmente agregadora. Nada disso, entretanto, foi suficiente para neutralizar os conflitos de ego, as cobranças públicas e os desentendimentos entre diferentes setores. Sua passagem durou pouco mais de quatro meses, período no qual algumas decisões aumentaram a distância entre a comissão técnica e determinadas lideranças. As manifestações ríspidas dos torcedores, somadas às divergências expostas nos bastidores administrativos, deixaram a atmosfera ainda mais pesada. Quando o ciclo terminou, a necessidade de uma reconstrução já não era somente esportiva, mas também emocional, disciplinar e institucional.

A profunda reformulação realizada durante o mercado surgiu como consequência direta daquele diagnóstico. Gerónimo Rulli seguiu para o Manchester City, enquanto Pau López também encerrou definitivamente sua trajetória no sul da França. Mason Greenwood foi negociado com o Fenerbahçe por 39 milhões de euros, valor importante para o reequilíbrio financeiro e a montagem do novo grupo. Pierre-Emerick Aubameyang, um dos nomes mais experientes do elenco, partiu depois de um período marcado por gols, liderança e desgaste coletivo. Jordan Veretout e Valentin Rongier igualmente deixaram a estrutura dentro de um processo destinado a renovar o meio-campo. Mais do que trocar jogadores, a diretoria procurou eliminar resquícios das antigas crises e abrir espaço para uma hierarquia diferente.
As reposições foram pensadas para oferecer criatividade, intensidade e maior flexibilidade ao trabalho de Bruno Génésio. Amine Gouiri assumiu o protagonismo ofensivo e passou a ser tratado como principal referência para a construção dos gols. Ángel Gomes trouxe visão privilegiada, capacidade associativa e inteligência para encontrar espaços entre as linhas adversárias. Himad Abdelli acrescentou consistência física, condução vertical e qualidade técnica a uma região anteriormente desequilibrada. Na defesa, Naief Aguerd ampliou as possibilidades, enquanto Derek Cornelius permaneceu como alternativa para um setor que precisava recuperar segurança. Jeffrey de Lange herdou a titularidade no gol e mostrou serenidade para participar da saída curta desde os primeiros minutos.
Ainda existe uma questão importante envolvendo Leonardo Balerdi, titular frequente na passagem de Roberto De Zerbi e uma das figuras mais reconhecidas do grupo. O zagueiro convive com problemas físicos, motivo pelo qual não participou da rodada inaugural contra o Strasbourg. Sua permanência pode ser valiosa, desde que o argentino consiga recuperar a condição necessária para assimilar os novos mecanismos. Experiência, agressividade nos duelos e facilidade para progredir com a bola são atributos úteis a qualquer sistema propositivo. Ao mesmo tempo, a concorrência aumentou, impedindo que o status construído anteriormente assegure uma vaga automática entre os onze. Bruno Génésio precisará reintegrá-lo sem comprometer o equilíbrio demonstrado por uma retaguarda que iniciou o campeonato sem sofrer gols.
A primeira formação do novo treinador apresentou um desenho móvel, interpretado inicialmente como um 4-1-2-3, embora assumisse diferentes configurações durante a posse. Timothy Weah apareceu improvisado na lateral direita, usou a braçadeira de capitão e avançou como ala sempre que o contexto permitia. CJ Egan-Riley, Geoffrey Kondogbia e Emerson Palmieri completaram a linha defensiva diante da ausência de peças consideradas originalmente titulares. Pierre-Emile Hojbjerg protegeu a entrada da área, orientou a circulação e ofereceu sustentação às movimentações realizadas à sua frente. Ángel Gomes e Himad Abdelli ocuparam zonas interiores, aproximando criação, intensidade e chegada ao último terço. Essa versatilidade tornou difícil definir posições rígidas, porque cada atleta interpretava o espaço conforme o desenvolvimento da jogada.
𝗟'𝗢𝗹𝘆𝗺𝗽𝗶𝗾𝘂𝗲 𝗱𝗲 𝗠𝗮𝗿𝘀𝗲𝗶𝗹𝗹𝗲 𝗮𝗻𝗻𝗼𝗻𝗰𝗲 𝗹𝗮 𝗻𝗼𝗺𝗶𝗻𝗮𝘁𝗶𝗼𝗻 𝗱𝗲 𝗕𝗿𝘂𝗻𝗼 𝗚𝗲𝗻𝗲𝘀𝗶𝗼 𝗲𝗻 𝘁𝗮𝗻𝘁 𝗾𝘂'𝗲𝗻𝘁𝗿𝗮𝗶̂𝗻𝗲𝘂𝗿 𝗱𝗲 𝗹'𝗲́𝗾𝘂𝗶𝗽𝗲 𝗽𝗿𝗲𝗺𝗶𝗲̀𝗿𝗲 🔵⚪️
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Na frente, Amine Harit partiu nominalmente pela direita, porém teve liberdade para flutuar por toda a faixa central. Igor Paixão garantiu velocidade, profundidade e capacidade de desequilíbrio no corredor oposto. Amine Gouiri permaneceu como referência, mas abandonou constantemente a área para tabelar e arrastar os zagueiros do Strasbourg. Sua movimentação como falso nove abriu caminhos para as infiltrações dos companheiros e evitou que o ataque ficasse previsível. Sem um centroavante estático, o trio alternou funções, trocou posicionamentos e confundiu as referências de marcação. Quando Timothy Weah avançava, Ángel Gomes também podia se aproximar daquele lado, formando superioridades que sustentavam a pressão territorial.
A liberdade concedida ao meio-campista inglês foi um dos aspectos mais interessantes da proposta marselhesa. Ángel Gomes atuou como um camisa 10 clássico na sensibilidade, mas moderno pela quantidade de movimentos executados longe da bola. Em determinados momentos, recuou para ajudar na organização; em outros, surgiu entre setores para receber já orientado em direção ao gol. Essa mobilidade conectou Pierre-Emile Hojbjerg, Himad Abdelli, Amine Harit e Amine Gouiri, reduzindo a distância entre os diferentes corredores. A assistência para o primeiro tento resumiu sua inteligência: aproximação no instante correto, leitura rápida e passe preciso para o atacante finalizar. Em vez de prender seu principal articulador a uma faixa específica, Bruno Génésio construiu um contexto no qual o talento pudesse escolher o melhor caminho.
O Olympique de Marseille controlou as ações desde o começo, embora tenha precisado esperar até o segundo tempo para transformar superioridade em vantagem. Menos de um minuto após o intervalo, Igor Paixão acelerou pela esquerda, encontrou Gomes e participou da jogada concluída por Amine Gouiri aos 46. A expulsão de Samir El-Mourabet aos 59, depois de uma intervenção do VAR, aumentou ainda mais a diferença entre os times. Pouco depois, Guéla Doué derrubou o brasileiro dentro da área, permitindo ao atacante argelino converter o pênalti aos 68. O placar de 2 a 0 não diminuiu o ritmo dos anfitriões, que continuaram pressionando e procurando novas oportunidades. Essa fome competitiva talvez tenha sido a resposta mais clara de uma formação frequentemente acusada de fragilidade mental no passado recente.
L'@OM_Officiel premier leader de la saison 🥇 pic.twitter.com/F5LmDLRlQO
— Ligue 1 McDonald's (@Ligue1) August 23, 2026
Vale ressaltar ainda, que Bruno Génésio também encontrou no banco a profundidade necessária para manter a intensidade até os últimos instantes. Keyliane Abdallah, jovem de apenas 20 anos, entrou na etapa final e marcou o terceiro gol aos 89 minutos. O lance premiou não somente uma promessa da base, mas a disposição coletiva de atacar mesmo quando o confronto já estava decidido. Pierre-Emile Hojbjerg completou a goleada aos 96, aproveitando uma sobra na entrada da área para finalizar com precisão. A atuação do dinamarquês reuniu liderança, controle do ritmo, imposição nos duelos e presença ofensiva. Ao transformar um triunfo confortável em resultado categórico, os reservas mostraram que a renovação ampliou as opções disponíveis para o decorrer da temporada composta pela Europa League.
Outro avanço visível apareceu na pressão pós-perda, executada com agressividade e boa coordenação ao redor da bola. Sempre que o Strasbourg recuperava a posse, dois ou três jogadores fechavam rapidamente as alternativas próximas e dificultavam a transição. Essa abordagem ofensiva não se limitava à aceleração dos pontas, pois começava na maneira como o conjunto reagia após cada passe interceptado. Pierre-Emile Hojbjerg oferecia cobertura, os laterais encurtavam o campo e os meias impediam que o rival respirasse. Ainda será necessário observar esse comportamento contra oponentes tecnicamente superiores, capazes de escapar da primeira perseguição e explorar áreas desguarnecidas. Porém, como cartão de visitas, o novo modelo apresentou organização suficiente para alimentar uma esperança que parecia esquecida.
A goleada colocou provisoriamente o Olympique na liderança e, principalmente, restabeleceu a paz com sua apaixonada torcida. O Vélodrome voltou a vibrar com um futebol corajoso, vertical e comprometido, características indispensáveis para quem pretende competir na parte mais alta da Ligue 1. Naturalmente, uma única rodada não apaga as crises anteriores nem transforma automaticamente os Les Phocéens em concorrente direto do poderoso PSG. A disputa simultânea da Europa League exigirá administração física, maturidade emocional e soluções para os desfalques que inevitavelmente surgirão. Todavia, Bruno Génésio ofereceu uma direção clara a um projeto que havia perdido completamente o rumo durante os últimos meses.
Pois é, dezesseis anos depois da conquista de Didier Deschamps, Marselha finalmente pode voltar a sonhar com o título francês — resta descobrir se esse renascimento terá força para sobreviver ao peso da temporada.