Arsenal deixa de perseguir e assume o posto de time a ser batido na Premier League

Após três vice-campeonatos consecutivos e a conquista inglesa na última temporada, os Gunners abrem 2026/27 com autoridade ao vencer o Manchester City por 3 a 0 na Supercopa.

Durante mais de duas décadas, o Arsenal iniciou cada temporada tentando reencontrar um passado que parecia cada vez mais distante. Desde a histórica conquista invicta da Premier League em 2004, sob o comando de Arsène Wenger, o clube londrino não carregava de maneira tão evidente o rótulo de equipe a ser batida no futebol inglês. Quase sempre perseguidor, algumas vezes competitivo e em tantas outras apenas nostálgico, o gigante do norte de Londres finalmente mudou de posição. Agora, são seus adversários que procuram alcançá-lo. A vitória por 3 a 0 sobre o Manchester City, na Supercopa da Inglaterra, não criou essa condição, mas apresentou a confirmação mais contundente de uma nova realidade.

Antes de chegar ao título da Premier League, o Arsenal precisou atravessar três dolorosos vice-campeonatos consecutivos. Cada frustração colocou em dúvida a capacidade de Mikel Arteta e de seus jogadores de suportarem a pressão dos momentos decisivos. Entretanto, aquele sofrimento também fortaleceu um grupo que aprendeu a competir enquanto acumulava cicatrizes. Na temporada passada, os Gunners enfim romperam a barreira, conquistaram o campeonato e ainda sobraram diante dos principais concorrentes. Não foi um triunfo circunstancial, decidido por um tropeço alheio na última rodada, mas a consolidação de um projeto que amadureceu até assumir o controle da Inglaterra.

As diferenças na classificação ajudam a dimensionar a superioridade construída pelo campeão. Considerando somente os integrantes do chamado Big Six, o Arsenal terminou a edição anterior sete pontos à frente do vice-campeão Manchester City. A vantagem aumentou para 14 em relação ao Manchester United, chegou a 25 sobre o Liverpool e alcançou impressionantes 33 diante do Chelsea. Já o Tottenham, eterno rival e vizinho, ficou 44 pontos atrás dos Gunners. Números tão expressivos não representam apenas uma fotografia da tabela: mostram o abismo existente entre um trabalho consolidado e diversos projetos ainda tentando encontrar direção.

A primeira demonstração da nova temporada ocorreu justamente diante do adversário que mais ameaçou a ascensão londrina nos últimos anos. Em Cardiff, Arsenal e Manchester City disputaram a Supercopa da Inglaterra no compromisso inaugural de ambos em 2026-27. Esperava-se uma decisão equilibrada, naturalmente marcada pelo ritmo ainda incompleto do começo de campanha. O que se viu, porém, foi um campeão seguro de suas forças, organizado com a bola e extremamente confortável sem ela. O placar de 3 a 0 traduziu com precisão a diferença apresentada dentro de campo, sem qualquer necessidade de exagero para tornar o resultado mais impactante.

A construção da conquista começou praticamente junto com o apito inicial. Riccardo Calafiori marcou logo no primeiro minuto e desmontou qualquer estratégia mais cautelosa preparada pelo Manchester City. Aos 28, Kai Havertz ampliou a vantagem, oferecendo ao Arsenal a tranquilidade necessária para controlar o restante da final. Martin Odegaard apareceu no primeiro lance do segundo tempo e deu números definitivos ao triunfo. Três gols distribuídos por momentos fundamentais, capazes de impedir qualquer reação do adversário. Os Gunners atacaram cedo, feriram novamente antes do intervalo e encerraram a discussão assim que retornaram dos vestiários.

A atuação coletiva também teve personagens importantes em diferentes setores. David Raya voltou a transmitir confiança no gol, enquanto Ben White e Riccardo Calafiori ofereceram segurança defensiva, intensidade e participação ofensiva pelas laterais. Miles Lewis-Skelly mostrou personalidade no meio-campo e confirmou que sua juventude não impede a compreensão dos movimentos exigidos pelo sistema. Kai Havertz, além do gol, contribuiu para ocupar espaços e conectar a linha central aos homens de frente. Em uma equipe tão bem treinada, cada jogador parece conhecer não apenas sua função, mas também o instante exato de abandonar a posição original para criar uma vantagem.

Entre tantas boas apresentações, Martin Odegaard voltou a ocupar o centro do espetáculo. O norueguês recupera o futebol que já havia demonstrado durante a Copa do Mundo de 2026 e começa a nova campanha em alto nível. Sua qualidade técnica nunca esteve em discussão, mas a retomada da influência sobre os acontecimentos torna o Arsenal ainda mais difícil de enfrentar. Ele organiza, acelera, aproxima companheiros e encontra espaços que permanecem invisíveis para a maioria. Quando o capitão está confiante, a engrenagem londrina ganha delicadeza sem perder intensidade, como se a força do conjunto pudesse finalmente caminhar ao lado da imaginação.

Christos Tzolis, por sua vez, apresentou uma estreia capaz de alimentar enorme expectativa. Contratado depois de se destacar pelo Club Brugge, o grego chegou credenciado pelas 29 assistências distribuídas na última temporada. Em sua primeira decisão vestindo a camisa do Arsenal, participou diretamente de dois gols e demonstrou entrosamento imediato com os novos companheiros. Sua presença pelo lado esquerdo pode oferecer o equilíbrio que Mikel Arteta buscava para o ataque, já tão perigoso pela direita com Bukayo Saka. Não se trata somente de acrescentar outro ponta, mas de impedir que todo o sistema ofensivo dependa da inspiração de um único corredor.

Se o Arsenal já possuía o melhor elenco do futebol inglês — e possivelmente um dos mais completos da Europa —, a contratação de Bruno Guimarães elevou ainda mais o patamar técnico do plantel. O brasileiro tem condições de formar, ao lado de Declan Rice e Martin Odegaard, um dos trios de meio-campo mais qualificados do mundo. São jogadores capazes de oferecer combate, criatividade, intensidade, condução e leitura dos espaços sem comprometer o equilíbrio. Quantos adversários da Premier League possuem recursos suficientes para controlar essa formação durante 90 minutos? A resposta poderá explicar por que os atuais campeões começam a competição alguns passos à frente.

O mercado, aliás, talvez ainda não esteja encerrado para o clube londrino. A provável saída de Gabriel Martinelli pode levar a diretoria a buscar outro jogador de velocidade para as pontas, mantendo duas alternativas de alto nível em cada posição. Gabriel Jesus, ausente até mesmo do banco de reservas na Supercopa, parece claramente fora dos planos de Mikel Arteta. Essas situações precisam ser resolvidas para evitar ruídos ao longo da campanha, sobretudo quando o calendário se tornar mais pesado. Ainda assim, é revelador que as principais dúvidas do Arsenal estejam relacionadas ao acabamento de um grupo fortíssimo, e não à necessidade urgente de reconstruí-lo.

A estabilidade também separa os Gunners de quase todos os candidatos ao título. Chelsea e Liverpool iniciam trabalhos com Xabi Alonso e Andoni Iraola, respectivamente, enquanto o Manchester City começa uma nova era sob a direção de Enzo Maresca. Tottenham e Manchester United possuem treinadores que assumiram seus cargos na segunda metade da temporada passada, em circunstâncias absolutamente adversas. Somente agora esses profissionais poderão conduzir uma preparação completa e estabelecer suas ideias desde o primeiro dia. Enquanto os rivais ainda aprendem novos caminhos, Mikel Arteta lidera um Arsenal que conhece cada curva da estrada.

Nesse cenário de mudanças, o Aston Villa surge como um postulante que merece atenção. A longevidade de Unai Emery representa uma vantagem importante em uma liga marcada por transições técnicas e reformulações profundas. O Villa apresenta identidade, mecanismos estabelecidos e maior familiaridade com as exigências do treinador. Ainda existe, contudo, uma distância considerável para o Arsenal em termos de profundidade, qualidade individual e repertório coletivo. O clube de Birmingham pode incomodar, tirar pontos dos favoritos e permanecer nas primeiras posições, todavia, precisará superar seus próprios limites para sustentar uma disputa até as últimas rodadas.

Talvez o aspecto mais preocupante para os concorrentes seja a maneira como o Arsenal iniciou esta temporada. Mesmo durante a campanha do título, muitas vitórias foram construídas por meio das bolas paradas e de uma solidez defensiva impressionante. Em Cardiff, no entanto, os Gunners também exibiram fluidez, criatividade e capacidade para dominar o adversário com naturalidade. A defesa continua firme, porém agora parece amparada por um ataque mais equilibrado e imprevisível. Se os londrinos conservarem suas antigas virtudes enquanto ampliam as possibilidades ofensivas, a perseguição dos demais poderá se transformar em uma corrida contra algo praticamente inalcançável.

O Arsenal entra, portanto, como franco favorito ao bicampeonato da Premier League, feito que não consegue desde a década de 1930. A Supercopa não garante o título nacional, tampouco permite decretar o destino de uma competição antes mesmo de seu início. Em contrapartida, determinadas atuações funcionam como mensagens, e a vitória sobre o Manchester City soou como um aviso bastante claro.

Depois de passar anos tentando recuperar a grandeza perdida, os Gunners voltaram ao ponto mais alto e parecem preparados para permanecer ali. Pela primeira vez em muito tempo, o Arsenal não olha para os rivais procurando referências: é toda a Inglaterra que o observa de baixo pra cima.

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