As palavras de Kento Shiogai, ainda durante a disputa da Copa do Mundo de 2026, soaram duras para muitos torcedores brasileiros. Ao afirmar que “a Seleção Brasileira não é mais a mesma de outros tempos”, o atacante japonês não desrespeitou a camisa pentacampeã do mundo. Pelo contrário. Apenas verbalizou uma realidade que, por mais dolorosa que seja, vem sendo confirmada dentro de campo. A eliminação para a Noruega nas oitavas-de-final apenas reforça aquilo que os resultados já vinham mostrando há algum tempo. A tradição continua intacta. O futebol apresentado, infelizmente, já não acompanha essa mesma grandeza.
Depois da Bélgica, em 2018, da Croácia, em 2022, agora foi a vez da Noruega colocar fim ao sonho tupiniquim. Há, porém, um detalhe que torna a situação ainda mais preocupante. Se nas duas últimas edições o Brasil ao menos alcançou as quartas-de-final, desta vez sequer conseguiu chegar entre as oito melhores seleções do planeta. Caiu nas oitavas diante de uma Noruega organizada, competitiva e talentosa, mas que, historicamente, jamais esteve no mesmo patamar da Seleção Brasileira. Será que o peso da camisa ainda intimida alguém? Ou esse argumento ficou preso no passado?
A verdade é que a eliminação não começou contra a Noruega. Ela nasceu muito antes, ainda no ciclo preparatório para esta Copa do Mundo. A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) conduziu um dos processos mais conturbados de sua história recente. Tite comunicou que deixaria o cargo antes da disputa do Mundial de 2022, mas mesmo assim a entidade atravessou meses sem definir um sucessor. O resultado foi uma sucessão de decisões improvisadas que atrasaram completamente a construção de um novo projeto esportivo para o Brasil.
🇧🇷📉 Histórico: Brasil fica sem o título mundial pela sexta edição consecutiva!
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🏆 O último título do pentacampeão foi conquistado em 2002.
📊 Sequência sem títulos do Brasil:
❌ 2006
❌ 2010
❌ 2014
❌ 2018
❌ 2022
❌ 2026 pic.twitter.com/soNG9bVjwW
Primeiro veio Ramon Menezes como treinador interino, experiência que rapidamente se mostrou insuficiente. Depois, Fernando Diniz recebeu a missão, mas permaneceu apenas seis partidas no comando do Brasil em função dos maus resultados. Como se não bastasse, a própria CBF passou por uma troca de presidente durante esse período com a saída de Ednaldo Rodrigues e a entrada de Samir Xaud, aumentando ainda mais a sensação de instabilidade. Somente depois de tantas mudanças Carlo Ancelotti assumiu a Seleção Brasileira, já herdado pela nova gestão da entidade, iniciando praticamente do zero um trabalho que exigia muito mais tempo.
É evidente que a contratação de Carlo Ancelotti há apenas um ano representou um enorme impacto positivo. Poucos treinadores no futebol mundial possuem um currículo comparável ao do italiano, multicampeão europeu e referência em gestão de grupos. Naturalmente, a torcida voltou a sonhar alto. Mas talvez tenha existido uma expectativa incompatível com a realidade. Deste modo, o Brasil passou a ser tratado novamente como favorito somente pelo peso das cinco estrelas estampadas no uniforme. No futebol moderno, porém, tradição não vence partidas. Organização, continuidade e desempenho continuam sendo os fatores decisivos.
Outro ponto que merece reflexão diz respeito ao próprio estilo de jogo de Carlo Ancelotti. Ao longo de toda a sua carreira, desde os tempos de Milan até os anos mais recentes no Real Madrid, suas equipes sempre se destacaram por uma defesa sólida, equilíbrio tático e transições rápidas. Nunca foi um treinador identificado com posse de bola agressiva, pressão constante ou uma abordagem ofensiva de grande volume. Talvez justamente aí exista um choque entre a identidade histórica do futebol brasileiro e a proposta apresentada pelo novo comandante.
Isso não significa, entretanto, que o trabalho deva ser interrompido. Muito pelo contrário. O Brasil já trocou treinadores demais nos últimos anos sem resolver seus problemas estruturais. A continuidade talvez seja justamente aquilo que faltou durante todo esse ciclo. Esta mais recente eliminação precisa gerar cobranças, evidentemente, mas também servir como ponto de partida para um projeto consistente. Afinal, quantas vezes a Seleção Brasileira recomeçou quase do zero em menos de quatro anos?
Nas últimas 3 Copas, a cena se repetiu 3 vezes: todos europeus, todos sem título mundial. Qual dessas eliminações mais te machucou?#copadomundo #brasil pic.twitter.com/rrWZAUer56
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Dentro de campo, o roteiro da partida foi cruel. O Brasil criou oportunidades suficientes para construir uma vantagem ainda no primeiro tempo. No geral, finalizou 14 vezes contra apenas 9 da Noruega. Produziu um índice de gols esperados de 2,61 contra 1,05 dos europeus. O goleiro Orjan Nyland realizou cinco grandescdefesas, duas a mais do que Alisson. Os números mostram que oportunidades existiram. O problema foi a incapacidade de convertê-las.
No perimeiro tempo, Bruno Guimarães desperdiçou uma cobrança de pênalti que poderia mudar completamente o rumo da partida. Já na etapa final, Endrick também ficou frente a frente com o goleiro e desperdiçou outra chance clara. Contra seleções competitivas, erros desse tamanho costumam ser fatais. Ainda mais quando do outro lado está um atacante como Erling Haaland. O camisa nove precisou de poucas oportunidades para decidir. Depois de uma primeira chance desperdiçada por centímetros, marcou de cabeça e posteriormente fechou a vitória por 2 a 1, visto que Neymar descontou de pênalti, quando era tarde demais.
Menos toques na bola para marcar um gol na Copa do Mundo 2026:
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14 – 🇳🇴 Erling Haaland
15 – 🇳🇱 Brian Brobbey
15 – 🇩🇪 Deniz Undav
• Jogadores com pelo menos 3 gols marcados. pic.twitter.com/mUF57x6rxl
Carlo Ancelotti também precisa assumir sua parcela de responsabilidade. A lesão de Lucas Paquetá contra o Japão desmontou o equilíbrio do meio-campo brasileiro, mas a solução encontrada acabou aumentando ainda mais os problemas. Gabriel Martinelli passou a aberto pela esquerda, alterando completamente a estrutura do Brasil e transformando o sistema ofensivo praticamente em um 4-2-4. Casemiro e Bruno Guimarães ficaram excessivamente expostos, enquanto o setor de criação desapareceu. Talvez a alternativa mais lógica fosse utilizar Neymar centralizado na função originalmente desempenhada pelo meia do Flamengo, preservando o funcionamento coletivo dos pentacampeões mundiais.
Enquanto isso, do outro lado, Stale Solbakken mostrou enorme capacidade de leitura da partida. Depois de um primeiro tempo em que sua equipe escapou da eliminação, promoveu alterações que mudaram completamente o jogo. Oscar Bobb e Andreas Schjelderup deram nova dinâmica ao ataque norueguês. Não por acaso, foi justamente Schjelderup quem participou diretamente das duas assistências para os gols de Erling Haaland. Ambas nasceram pelo lado direito da defesa brasileira, setor ocupado por Danilo, outro jogador cuja utilização certamente será motivo de muitas discussões após o encerramento da competição.
Erling Haaland's brace sends Norway to the quarter-finals! 👊#FIFAWorldCup
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O sentimento que permanece é de frustração, mas também de oportunidade para reconstrução. O Brasil chega a impressionantes vinte e oito anos sem conquistar uma Copa do Mundo, o maior intervalo de sua história sem levantar o principal troféu do futebol. Contudo, qualidade individual não falta. Vinícius Júnior, Rodrygo, Estevão, Bruno Guimarães, Gabriel Magalhães, Endrick, Rayan e outros atletas formam uma base suficientemente forte para pensar em 2030. O desafio será oferecer estabilidade, corrigir carências históricas — especialmente nas laterais — e, acima de tudo, construir uma identidade coletiva capaz de transformar talento em desempenho.
A Noruega merece todos os méritos pela classificação. É uma seleção nórdica cada vez mais organizada, conta com jogadores de nível internacional e soube aproveitar as oportunidades que teve. De qualquer maneira, é impossível ignorar que o Brasil possuía elenco suficiente para avançar às quartas-de-final. A eliminação não pode ser resumida aos noventa minutos disputados em New Jersey. Ela é consequência direta de um ciclo inteiro marcado por improvisos administrativos, mudanças constantes e falta de planejamento.
O Mundial terminou precocemente para o Brasil, porém a principal pergunta permanece no ar: o futebol brasileiro finalmente aprendeu a lição ou continuará acreditando que apenas cinco estrelas no peito são suficientes para vencer uma Copa do Mundo?