A classificação da Espanha às quartas-de-final da Copa do Mundo de 2026 após a vitória por 1 a 0 sobre Portugal representa muito mais do que a simples eliminação de um rival histórico. O duelo ibérico repetiu a decisão da última edição da Liga das Nações da UEFA, porém, desta vez, aconteceu de forma precoce no Mundial, consequência direta da campanha apenas regular de Portugal na primeira fase, como vice-líder de sua chave. A Espanha, por outro lado, confirmou seu favoritismo desde o início ao avançar como líder do Grupo H. Talvez esse cruzamento tenha ocorrido antes do esperado, mas serviu para evidenciar que, atualmente, espanhóis e portugueses vivem momentos bastante distintos dentro do cenário internacional.
Curiosamente, a caminhada espanhola na Copa do Mundo não começou da maneira que seus torcedores imaginavam. O empate sem gols diante de Cabo Verde foi encarado por muitos como um resultado ‘catastrófico’, principalmente pelo enorme favoritismo da Furia Roja contra uma seleção estreante em Mundiais. Afinal, como a Espanha, apontada entre as principais candidatas ao título, poderia passar noventa minutos sem balançar as redes? As críticas surgiram imediatamente, e a pressão sobre o técnico Luis de la Fuente aumentou de forma significativa. Felizmente para os atuais campeões europeus, aquele tropeço acabaria servindo como ponto de partida para uma transformação importante.
Mérito de Luis de la Fuente, que soube identificar rapidamente os problemas apresentados na estreia e não teve receio de alterar a estrutura da equipe. A resposta apareceu já na rodada seguinte, quando a seleção espanhola atropelou a Arábia Saudita por 4 a 0, iniciando uma sequência de atuações muito mais convincentes. O crescimento coletivo não aconteceu por acaso. Houve mudanças pontuais, mas extremamente inteligentes, capazes de transformar uma Espanha previsível em um conjunto muito mais agressivo, criativo e equilibrado. Não é justamente isso que se espera de um treinador em uma competição tão curta quanto a Copa do Mundo?
Spain finish as Group H winners! 🔝#FIFAWorldCup
— FIFA World Cup (@FIFAWorldCup) June 27, 2026
Uma das principais alterações foi a entrada de Pedro Porro na lateral direita no lugar de Marcos Llorente. A mudança tornou o corredor direito muito mais ofensivo, oferecendo amplitude e profundidade para que Lamine Yamal pudesse explorar ainda mais os espaços entre a defesa e o meio-campo adversários. O jogador do Tottenham passou a participar constantemente das jogadas ofensivas, criando superioridade numérica e oferecendo alternativas de passe durante praticamente toda a partida. O resultado foi uma Espanha muito mais vertical quando necessário, sem abrir mão da tradicional posse de bola que sempre caracterizou sua identidade.
Pelo lado esquerdo, outra mudança se mostrou igualmente decisiva. Álex Baena assumiu a vaga anteriormente ocupada por Ferran Torres aberto pelo setor e passou a oferecer características completamente diferentes ao sistema ofensivo. Embora não possua a velocidade de Nico Williams ou mesmo de outros pontas tradicionais, Baena entrega inteligência, qualidade no passe, visão de jogo e enorme capacidade de associação. Sua sintonia com Marc Cucurella permitiu que a Espanha mantivesse equilíbrio ofensivo pelos dois lados do campo, tornando a circulação de bola muito mais eficiente. Nem sempre velocidade é a principal arma de um ataque; muitas vezes, a inteligência faz ainda mais diferença.
Outra decisão extremamente importante de Luis de la Fuente foi sacar Fabián Ruiz e promover a entrada de Pedri ao lado de Dani Olmo no setor central, deixando Rodri um pouco mais recuado para exercer sua função de organizador e protetor da defesa. A movimentação dos dois meias permitiu que a Espanha ganhasse enorme dinamismo entre as linhas, tanto na criação quanto na recomposição defensiva. Os meias do Barcelona participam intensamente da construção das jogadas, pressionam sem a bola e ajudam a recuperar a posse rapidamente após cada perda.
Toda essa engrenagem ofensiva também só funciona porque existe uma base defensiva extremamente sólida. A dupla formada por Aymeric Laporte e Pau Cubarsí, protegida por Rodri, ainda não sofreu um único gol nos cinco jogos disputados pela Espanha nesta Copa do Mundo de 2026. Esse dado, por si só, demonstra o equilíbrio da Furia Roja. Não se trata apenas de um time que encanta com a bola nos pés, mas também de uma equipe disciplinada sem ela. E em torneios de tiro curto, onde qualquer erro pode representar a eliminação, uma defesa praticamente intransponível costuma ser um diferencial enorme na corrida pelo título.
🔎 A Espanha atingiu a maior sequência sem sofrer gols da história da Copa do Mundo FIFA! 🔐🔐
— Sofascore Brasil (@SofascoreBR) July 6, 2026
⚔️ 6 jogos
🚥 4V – 2E – 0D (!)
📊 77.8% aproveitamento (!)
⚽ 9 gols (!)
🚫 0 gols sofridos (!)
🧤 6 jogos sem sofrer gol (!)
🥅 18 grandes chances (!)
🔓 5 grandes chances cedidas (!)… pic.twitter.com/qLUpJPUTj7
Se a organização coletiva da Espanha impressiona, o funcionamento de seu ataque merece um destaque especial. Mikel Oyarzabal é frequentemente definido como um falso 9, mas essa classificação não traduz exatamente o que ele representa dentro da equipe. Trata-se de um centroavante de origem, porém com enorme mobilidade para sair da área, participar da construção das jogadas e abrir espaços para a infiltração dos companheiros. Ao recuar alguns metros, cria superioridade numérica no meio-campo e aproxima jogadores como Pedri, Dani Olmo, Álex Baena e Lamine Yamal. É exatamente essa constante movimentação que torna o sistema ofensivo espanhol tão difícil de ser marcado.
Essa característica também ajuda a explicar outro aspecto marcante da Espanha na atualidade. Diferentemente de outras seleções que exploram cruzamentos e bolas aéreas, os pupilos de Luis de la Fuente raramente dependem desse recurso para marcar seus gols. O antigo estilo representado por Álvaro Morata, mais fixo entre os zagueiros e esperando a bola dentro da área, deu lugar a um ataque muito mais móvel e associativo. A Furia Roja prefere desmontar as linhas defensivas por meio da troca rápida de passes, triangulações e aproximações constantes. É um futebol construído pela inteligência coletiva muito mais do que pela força física ou pelo jogo direto.
Contra Portugal, esse modelo voltou a funcionar praticamente durante toda a partida. A Espanha controlou boa parte das ações, administrou a posse de bola e foi quem mais levou perigo ao gol adversário. Os números confirmam aquilo que o jogo mostrou: 55% de posse de bola, quinze finalizações contra dez dos portugueses e três grandes oportunidades criadas, enquanto Portugal produziu apenas uma chance realmente clara. Em nenhum momento a sensação foi de que os espanhóis estivessem sendo dominados. Pelo contrário. Mesmo enfrentando um rival de enorme tradição, eles sempre pareceram mais próximos da vitória..
Outro aspecto que merece elogios é a profundidade do elenco espanhol. Em partidas equilibradas, muitas vezes os reservas acabam decidindo o resultado, e foi exatamente isso que ocorreu. Luis de la Fuente promoveu a entrada de Mikel Merino aos quarenta minutos da etapa final e, poucos tempo antes, também havia colocado Ferran Torres em campo. Já nos acréscimos, Ferran encontrou um excelente passe para Merino, que apareceu no momento certo para balançar as redes e garantir a classificação da Espanha. Não deixa de ser um retrato da força coletiva desta seleção: até quem começa no banco consegue manter o mesmo nível de jogo.
Espanha aumenta para 35 jogos a série invicta, está a dois de igualar o recorde mundial: Itália (37). pic.twitter.com/TLphOR9SBw
— Playmaker (@playmaker_PT) July 6, 2026
A Espanha também precisou superar um obstáculo importante durante esta Copa do Mundo. A lesão de Nico Williams retirou da equipe um dos nomes mais importantes do plantel e desmontou uma dupla de pontas que prometia ser uma das grandes atrações da Copa de 2026 com Lamine Yamal. Durante algum tempo, a ausência do camisa 17 foi sentida, especialmente pela dificuldade de encontrar alguém com características semelhantes. No entanto, Álex Baena conseguiu preencher essa lacuna à sua maneira. Em vez da velocidade e do drible curto do jogador do Athletic Bilbao, passou a oferecer criatividade, qualidade no passe e inteligência para acelerar ou cadenciar o jogo conforme a necessidade.
Naturalmente, são jogadores diferentes. Nico Williams desequilibra pela potência física e pela capacidade de atacar os espaços em velocidade. Álex Baena, por sua vez, pensa o jogo de outra forma, participa mais da construção e aproxima os companheiros com passes precisos e movimentação constante. Não existe uma substituição idêntica, mas existe adaptação. E talvez esse seja um dos maiores méritos de Luis de la Fuente ao longo desta Copa do Mundo: encontrar soluções sem descaracterizar o modelo de jogo da Espanha. Poucas seleções conseguem perder uma peça tão importante e, ainda assim, manter um desempenho tão consistente.
Com a classificação assegurada, a Espanha confirma aquilo que muitos já apontavam antes mesmo do início do Mundial: trata-se de uma das principais candidatas ao título. A evolução apresentada desde o empate contra Cabo Verde demonstra uma seleção que cresceu durante a competição, corrigiu seus problemas e chega às quartas-de-final vivendo seu melhor momento. Agora, o desafio será diante da Bélgica, outro adversário de enorme qualidade técnica.
Logo, restam apenas três partidas para que a Furia Roja alcance o tão sonhado bicampeonato mundial. Pela qualidade do futebol apresentado até aqui, quem será capaz de impedir esse objetivo?