Três anos e meio depois de escrever um dos capítulos mais marcantes da história das Copas do Mundo ao alcançar uma inédita semifinal no Catar, a seleção marroquina voltou aos holofotes cercada por expectativas. A campanha de 2022 deixou de ser encarada como um acontecimento isolado para se transformar em um novo parâmetro para os Leões do Atlas, que desembarcaram na América do Norte carregando o peso de provar que pertenciam definitivamente ao primeiro escalão do futebol mundial. Nem mesmo o vice-campeonato da Copa Africana de Nações ou as importantes baixas de Nayef Aguerd e Abde Ezzalzouli, ambos lesionados às vésperas da competição, diminuíram a confiança em torno de Marrocos.
A mudança no comando técnico, inclusive, também despertava dúvidas. Walid Regragui havia se tornado um símbolo nacional após conduzir o país ao histórico quarto lugar em 2022, mas a federação apostou em Mohamed Ouahbi em março devido ao vice na Copa Africana de Nações. A troca parecia arriscada diante da proximidade do Mundial, principalmente porque o novo treinador havia dirigido a seleção principal em apenas quatro partidas. Ainda assim, sua chegada representava uma continuidade de um projeto muito maior do que simplesmente trocar um comandante.
A escolha de Mohamed Ouahbi fazia ainda mais sentido quando se observava o trabalho desenvolvido nas categorias de base. Foi ele quem conduziu a seleção marroquina sub-20 ao primeiro título mundial de sua história em 2025, derrotando justamente a Argentina na decisão. Mais do que uma conquista memorável, aquele triunfo serviu como um recado de que o crescimento do futebol de Marrocos estava sendo construído sobre alicerces sólidos. Afinal, quantas seleções conseguem transformar títulos nas categorias inferiores em talentos prontos para a formação principal?
Alguns desses jovens talentos, inclusive, já assumiram protagonismo nesta Copa do Mundo. O maior exemplo foi Ayyoub Bouaddi, meio-campista que impressionou pela personalidade, inteligência e capacidade técnica durante todo o torneio. Dono de uma maturidade incomum para sua idade, o jogador do Lille rapidamente se consolidou como um dos grandes destaques da competição e dificilmente passará despercebido pelos principais clubes da Europa. Seu desempenho reforça que o futuro da seleção africana parece estar em excelentes mãos.
🇲🇦 O MARROCOS É CAMPEÃO DA COPA DO MUNDO SUB20!
— Ponta de Lança (@pontalancapdl) October 20, 2025
Com a estrela de Zabiri, os Leões do Atlas vencem a Argentina por 2-0.
Um dos países que mais aposta no futebol é coroado pelo seu projeto.
DIMA MAGHRIB!pic.twitter.com/q1lOwdBZYI
Dentro de campo, a caminhada de Marrocos na Copa de 2026 começou justamente diante de um adversário que carregava enorme simbolismo. Logo na estreia, os Leões do Atlas enfrentaram o Brasil e mostraram que continuavam extremamente competitivos. Abriram o placar, criaram dificuldades durante praticamente toda a partida e saíram de campo com um empate por 1 a 1 que, muito mais do que um ponto conquistado, transmitiu uma mensagem ao restante do torneio: enfrentá-los continuava sendo uma tarefa extremamente desconfortável.
A classificação foi construída com autoridade. Depois da igualdade diante dos brasileiros, vieram vitórias importantes sobre Escócia (1×0) e Haiti (4×2), resultados suficientes para garantir a segunda colocação do Grupo C com a mesma pontuação do líder, Brasil. Não foi uma campanha espetacular em números, mas bastante consistente em desempenho. A impressão transmitida era a de uma seleção segura, competitiva e preparada para enfrentar qualquer desafio nas fases eliminatórias.
O primeiro grande teste de fogo surgiu logo nos 16 avos-de-final frente a poderosa Holanda. Em um confronto extremamente equilibrado, o empate por 1 a 1 persistiu durante o tempo regulamentar e também na prorrogação. Foi somente nas cobranças de pênaltis que os marroquinos voltaram a demonstrar toda sua frieza emocional para eliminar uma das seleções mais tradicionais do continente europeu, com méritos do grande goleiro Yassine Bounou. Era mais uma demonstração de maturidade competitiva.
Se contra os neerlandeses houve sofrimento, diante do anfitrião Canadá a superioridade foi incontestável. A vitória por 3 a 0 talvez tenha representado a atuação mais convincente da campanha. A equipe controlou completamente as ações, soube administrar a pressão de enfrentar o país-sede e confirmou sua classificação sem oferecer oportunidades para qualquer reação adversária. Era um futebol que mesclava organização, intensidade e qualidade técnica.
A Marrocos tornou-se na primeira seleção africana de sempre a alcançar os quartos de final de um Campeonato do Mundo por duas ocasiões. 👏🔥
— Playmaker (@playmaker_PT) July 4, 2026
📊 Seleções africanas que chegaram aos quartos de final do Mundial:
🇨🇲 1990 — Camarões
🇸🇳 2002 — Senegal
🇬🇭 2010 — Gana
🇲🇦 2022 — Marrocos… pic.twitter.com/ymm5nVJeFO
No entanto, o destino reservava novamente um velho conhecido. Assim como ocorrera na semifinal da Copa do Mundo de 2022, o caminho cruzou outra vez com a França. O retrospecto histórico já não favorecia os africanos e, desta vez, a história voltou a se repetir. Os franceses venceram pela quinta vez em sete confrontos entre as duas seleções e eliminaram novamente os Leões do Atlas, encerrando uma campanha que merecia reconhecimento muito maior do que a simples posição final.
Mesmo com a eliminação, talvez a maior diferença em relação ao Mundial anterior tenha sido a transformação da identidade ofensiva dos marroquinos. Se em 2022 o mundo conheceu um Marrocos praticamente intransponível defensivamente, em 2026 foi possível observar um conjunto muito mais confortável com a posse de bola, capaz de construir jogadas, acelerar pelos corredores e controlar diferentes momentos das partidas sem abrir mão da tradicional consistência defensiva.
Boa parte dessa evolução passou pelo lado direito do campo. Achraf Hakimi, considerado por muitos o melhor lateral-direito do futebol mundial na atualidade, encontrou em Brahim Díaz um parceiro ideal para explorar aquele setor. A movimentação constante da dupla, somada à aproximação de Ayyoub Bouaddi pelo interior do campo, criou uma das combinações ofensivas mais interessantes desta Copa do Mundo. Poucas seleções conseguiram neutralizar esse corredor durante o torneio.
شكرًا لكم يا أسود، فخورون بكم ❤️
— Équipe du Maroc (@EnMaroc) July 10, 2026
Thank you for everything Lions, We are always proud of you. 🦁#DimaMaghrib 🇲🇦 #FIFAWorldCup pic.twitter.com/UJt50bxFRo
Outra decisão que merece elogios foi a utilização de Ismael Saibari como um falso camisa 9. Embora tenha origem como ponta-esquerda, Mohamed Ouahbi enxergou características que permitiram ao jogador atuar de maneira muito mais móvel do que um centroavante tradicional. Em vez de permanecer fixo entre os zagueiros, o novo atacante do Bayern de Munique recuava, participava da construção, abria espaços para infiltrações e favorecia constantes triangulações ofensivas. Uma mudança simples na teoria, mas extremamente eficiente na prática.
Também chamou atenção a capacidade de Mohamed Ouahbi de adaptar rapidamente seu modelo de jogo. Nos amistosos e compromissos anteriores ao Mundial, o treinador de 49 anos de idade havia utilizado frequentemente uma estrutura com três defensores, priorizando o 3-2-4-1. Entretanto, ao perceber as exigências da Copa do Mundo, implementou ao 4-2-3-1, fortaleceu o meio-campo e encontrou um equilíbrio muito maior entre proteção defensiva e criatividade ofensiva. Demonstrou flexibilidade sem abrir mão da identidade construída ao longo dos últimos anos.
O sétimo lugar certamente não traduz por completo a qualidade apresentada durante a Copa do Mundo. Eliminada justamente por aquela que muitos consideram a principal favorita ao título, a seleção africana deixa o torneio com a sensação de que continua encurtando a distância para as grandes potências tradicionais. Mais importante do que a colocação final foi a confirmação de que o desempenho de 2022 definitivamente não foi obra do acaso.
Se França, Espanha, Inglaterra e Argentina foram as seleções que dominaram as manchetes por alcançarem as semifinais, talvez nenhuma outra equipe tenha deixado uma perspectiva de futuro tão animadora quanto Marrocos. Há uma geração jovem extremamente talentosa, um trabalho consistente nas categorias de base, um treinador que mostrou capacidade de adaptação e uma identidade de jogo cada vez mais consolidada. Os Leões do Atlas já deixaram de ser uma surpresa. Hoje, representam uma potência emergente do futebol mundial, e tudo indica que o capítulo mais brilhante dessa história ainda está por ser escrito.