O fim da Scaloneta: a última dança de Messi e o encerramento de uma era na Argentina

As lágrimas de Lionel Messi após a derrota por 1 a 0 para a Espanha na final da Copa do Mundo de 2026 diziam muito mais do que qualquer discurso. Depois, Lionel Scaloni também não conseguiu conter o choro durante a entrevista coletiva. Naquele momento, antes mesmo das explicações formais, todos já compreendiam o significado daquela cena. Não era apenas a dor provocada por um vice-campeonato mundial. Era o encerramento de uma história construída durante quase oito anos, marcada por conquistas, reconstrução e pertencimento. A Espanha ficou com a taça, mas o apito final também decretou o término simbólico da Scaloneta.

A saída de Lionel Scaloni provavelmente ocorrerá em dezembro de 2026, quando termina o contrato do treinador, o que significa que a decisão disputada em solo norte-americano representou o verdadeiro ponto final de sua trajetória. A despedida também coincide com a última participação de Lionel Messi em uma Copa do Mundo. De uma só vez, a Argentina perde o comandante que reorganizou a seleção e o craque que, durante duas décadas, personificou os sonhos de todo um país. O futuro inevitavelmente chegará, como sempre acontece no futebol. Entretanto, algumas partidas não terminam no instante em que o árbitro apita. Elas permanecem na memória, nas arquibancadas e nas lágrimas de quem percebe que não viverá novamente aquela mesma história.

Lionel Scaloni encerrará seu trabalho como responsável por um dos ciclos mais vitoriosos da história argentina. Em 104 partidas, conquistou 76 vitórias, acumulou 18 empates e sofreu somente 10 derrotas. Sob seu comando, a Albiceleste levantou duas Copas América, venceu a Finalíssima, conquistou o Mundial de 2022 e chegou à decisão novamente em 2026. Os números são expressivos, mas ainda insuficientes para explicar a dimensão de sua passagem. A Scaloneta não foi apenas uma coleção de resultados. Tornou-se um sentimento coletivo, uma seleção na qual jogadores, comissão técnica e torcida pareciam caminhar na mesma direção, sem vaidades capazes de romper a harmonia construída.

Quando assumiu interinamente após o fracasso argentino na Copa do Mundo de 2018, Lionel Scaloni foi recebido com enorme desconfiança. Ele não possuía experiência como treinador principal e parecia representar uma solução provisória para uma seleção mergulhada em dúvidas. Até Diego Maradona chegou a declarar que o jovem comandante não conseguiria sequer ‘organizar o trânsito em Buenos Aires’. O tempo, porém, ofereceu uma resposta contundente. O técnico de 48 anos de idade, desacreditado, não apenas colocou ordem no caminho, como conduziu a Argentina por uma estrada repleta de títulos. Às vezes, o futebol escolhe seus protagonistas antes que o mundo consiga perceber a razão.

Seu maior mérito talvez tenha sido compreender algo que os antecessores demoraram a enxergar: a Argentina não precisava de dez peças observando Lionel Messi atuar. Necessitava de uma equipe disposta a correr, pressionar, combater e criar condições para que ele pudesse decidir. Lionel Scaloni não retirou o protagonismo do camisa 10; retirou de seus ombros a obrigação de carregar sozinho um país inteiro. A chamada ‘Messi-dependência’ não terminou porque o jogador do Inter Miami deixou de ser decisivo, mas porque ao seu redor surgiu uma engrenagem coletiva. Enquanto o gênio pensava o jogo, companheiros jovens, intensos e solidários sustentavam o funcionamento da Albiceleste.

A gestão humana foi tão importante quanto qualquer desenho tático. Lionel Scaloni eliminou vaidades, conquistou a confiança do elenco e transformou jogadores contestados em figuras fundamentais. Atletas considerados apenas operários passaram a atuar como leões quando vestiam a camisa argentina. Cristian Romero, Enzo Fernández, Leandro Paredes, Rodrigo De Paul, Alexis Mac Allister, Lautaro Martínez e Julián Álvarez representam uma geração que cresceu ao lado de Lionel Messi, sem se esconder diante de sua grandeza. O treinador da Argentina criou um ambiente no qual os mais jovens podiam assumir responsabilidades e os veteranos não precisavam defender seus territórios. Em uma seleção historicamente marcada por conflitos, esse equilíbrio talvez tenha sido uma de suas maiores conquistas.

A virada emocional começou na Copa América de 2021. A vitória diante do Brasil, em pleno Maracanã, com o gol de Ángel Di María, encerrou um jejum de 28 anos sem títulos importantes. Aquela noite retirou das costas argentinas um peso que parecia atravessar diferentes gerações. Lionel Messi finalmente conquistava uma taça com a seleção principal, enquanto Lionel Scaloni encontrava a confirmação de que seu projeto poderia alcançar horizontes ainda maiores. A conquista continental representou o combustível necessário para a campanha histórica no Catar, onde a Argentina voltaria ao topo do mundo em 2022.

Quatro anos depois, a Albiceleste chegou ao Mundial de 2026 mais experiente, porém menos vigorosa fisicamente. Lionel Scaloni convocou 17 campeões da edição anterior, preservando a base responsável pela glória no Catar. O entrosamento continuava presente, assim como a capacidade de interpretar os diferentes momentos de uma partida. Todavia, o tempo também havia deixado suas marcas. As pernas já não respondiam com a mesma intensidade, as transições eram menos agressivas e determinados jogos exigiam um esforço cada vez maior. A Argentina não dominava os adversários como antes, mas ainda possuía a precisão fria de quem conhecia profundamente os caminhos de uma competição eliminatória.

Na fase de grupos, as vitórias sobre Argélia, Áustria e Jordânia construíram uma classificação tranquila. Já nas eliminatórias surgiram os maiores desafios. A Albiceleste superou prorrogações desgastantes contra Cabo Verde e Suíça, além de protagonizar uma reviravolta extraordinária diante do Egito, após estar perdendo por 2 a 0 até os 35 minutos da etapa final. Na semifinal, despachou a poderosa Inglaterra por 2 a 1, novamente de virada, em um confronto carregado de tensão esportiva e memória histórica. A caminhada terminou diante da Espanha, com um gol de Ferran Torres aos 106 minutos da prorrogação. A Argentina perdeu a final, mas caiu de pé.

O duelo contra os ingleses inevitavelmente despertou lembranças das Ilhas Malvinas, território cuja soberania continua sendo reivindicada pela Argentina desde o conflito militar de 1982. É necessário cuidado para não transformar uma guerra, marcada por mortes e feridas ainda abertas, em simples metáfora futebolística. Ainda assim, é impossível ignorar o peso emocional que confrontos contra a Inglaterra possuem para os argentinos. Desde os gols de Diego Maradona em 1986 até a semifinal de 2026, esses encontros ultrapassam frequentemente as quatro linhas. O futebol não apaga a história, mas oferece ao povo uma linguagem própria para expressar orgulho, resistência e identidade.

Essa característica também apareceu durante toda a campanha argentina. A Scaloneta avançou muito mais pelo brio, pela dedicação e pela capacidade de sofrer do que por um futebol vistoso ou envolvente. Houve momentos de qualidade técnica, naturalmente, mas a principal virtude esteve na recusa em aceitar a derrota. Os tricampeões mundiais pareciam encontrar energia justamente quando suas forças estavam próximas do limite. Seria isso uma deficiência disfarçada de heroísmo ou a maior demonstração de grandeza daquele grupo? Talvez as duas coisas. Afinal, uma seleção campeã não vive apenas de beleza. Em determinadas partidas, sobreviver é uma forma legítima de jogar.

No centro de tudo permanecia Lionel Messi, vivendo sua última dança em Copas do Mundo. Aos 39 anos, ele já não possuía a explosão física de outros tempos, mas compensava qualquer limitação com inteligência, posicionamento e precisão cirúrgica. Contra a Áustria, tornou-se o maior artilheiro da história dos Mundiais ao alcançar seu 17º gol e superar Miroslav Klose. Ao final da competição, somava oito tentos na edição de 2026 e 21 em sua trajetória. Também distribuiu quatro assistências, incluindo dois passes decisivos na semifinal contra a Inglaterra. Messi não corria para acompanhar o jogo; fazia a partida caminhar de acordo com seus pensamentos.

Mesmo com o vice-campeonato, Lionel Messi encerrou o torneio liderando estatísticas importantes. Foram 24 dribles certos, oito grandes oportunidades criadas e 26 passes decisivos. Os dados confirmam aquilo que os olhos já percebiam: o capitão da Argentina continuava sendo capaz de alterar o destino de uma partida sem precisar tocar constantemente na bola. Bastava um movimento, uma pausa ou um lance improvável para mudar a direção dos acontecimentos. Assistir Messi em 2026 foi contemplar a essência mais pura do futebol. Um gênio em sua etapa final, administrando cada esforço e transformando experiência em vantagem diante de adversários mais jovens.

A Scaloneta termina deixando um padrão quase impossível de ser reproduzido. Lionel Scaloni alcançou 15 partidas no comando da Argentina em Copas e entregou ao país muito mais do que troféus. Devolveu aos ‘hinchas’ o prazer de acompanhar sua seleção, reconstruiu a conexão entre o elenco e as arquibancadas e criou um ambiente de paz em torno de Lionel Messi. Durante anos, qualquer derrota argentina parecia desencadear uma crise nacional. Com esse grupo, até os momentos difíceis foram enfrentados com união. A Albiceleste voltou a reconhecer-se dentro de campo, não somente pela técnica, mas pela coragem, solidariedade e lealdade entre seus jogadores.

Agora começa o capítulo mais incerto. Supostamente, outro treinador ocupará o banco de reservas, novos atletas surgirão e Lionel Messi deixará um vazio que não poderá ser preenchido por meio de comparações. A próxima geração não deve tentar imitar exatamente aquilo que já terminou, pois nenhuma grande era se repete com os mesmos rostos, sentimentos e circunstâncias. Contudo, o peso da herança será inevitável. Como reconstruir uma seleção que se acostumou a vencer? Como substituir o técnico que reorganizou o vestiário e o jogador que mudou a história do país? O futuro argentino será capaz de edificar sua própria identidade ou viverá eternamente à procura de uma nova Scaloneta?

A ver!

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