O empate por 1 a 1 entre Portugal e República Democrática do Congo, logo na estreia da Copa do Mundo de 2026, talvez tenha sido o primeiro aviso de que alguma coisa não funcionava como deveria. Não necessariamente pelo resultado — afinal, Copas do Mundo são historicamente terrenos férteis para surpresas —, mas pela maneira como Portugal se apresentou.
A estratégia de Roberto Martínez de manter Portugal o máximo de tempo possível em Oeiras (Lisboa) antes de viajar para o Mundial não produziu os efeitos imaginados. Os lusitanos chegaram cercados por expectativas, carregando uma das gerações tecnicamente mais qualificadas de sua história recente, mas nunca conseguiram transformar tamanho talento individual em uma seleção verdadeiramente dominante. E quando uma equipe possui tantas peças e ainda assim parece menor do que a soma delas, inevitavelmente os olhos se voltam para quem está à beira do campo.
A goleada por 5 a 0 sobre o Uzbequistão na segunda rodada chegou a produzir uma momentânea sensação de normalidade. Cristiano Ronaldo marcou, Portugal venceu com autoridade e parecia finalmente ter encontrado o caminho dentro da competição. Mas o empate sem gols diante da Colômbia tratou de recolocar as dúvidas sobre a mesa. Mais preocupante do que o placar foi o desempenho português, inferior ao dos sul-americanos durante a maior parte da partida e novamente marcado por dificuldades para acelerar o jogo e transformar posse de bola em agressividade ofensiva. O resultado custou a liderança do grupo K e empurrou Portugal para um caminho muito mais complicado na fase eliminatória. Em uma Copa do Mundo, terminar em primeiro pode representar a distância entre uma estrada administrável e uma travessia repleta de obstáculos. Os portugueses escolheram involuntariamente a opção mais complicada.
Group K standings are set 🔒 #FIFAWorldCup
— FIFA World Cup (@FIFAWorldCup) June 28, 2026
Nas oitavas, diante da Croácia, a classificação veio, mas novamente sem convencer. Portugal precisou buscar a virada e encontrou o gol da vitória por 2 a 1 apenas nos acréscimos, em um lance cercado por enorme discussão envolvendo o VAR e a tecnologia utilizada para determinar o toque de um jogador croata na jogada decisiva. O chip da bola indicou um contato mínimo, aparentemente no cabelo do zagueiro adversário, e acabou favorecendo os portugueses. Gonçalo Ramos apareceu para decidir justamente em uma partida na qual Cristiano Ronaldo não permaneceu como referência absoluta do ataque. Os pupilos de Roberto Martínez avançavam, porém continuavam sem jogar como candidatos reais ao título. Contra oponentes capazes de controlar espaços e punir erros, sobreviver exclusivamente pelo talento individual dificilmente seria suficiente.
E não foi. A Espanha colocou fim à caminhada portuguesa e, embora a eliminação tenha ocorrido diante daquela que posteriormente seria campeã mundial, isso não tornou satisfatória a participação de Portugal. Existe uma diferença considerável entre perder para uma grande seleção depois de uma campanha consistente e utilizar a qualidade do adversário como justificativa para problemas apresentados desde a primeira rodada. Os portugueses deixaram o Mundial com a sensação de oportunidade desperdiçada. Roberto Martínez praticamente não teve tempo para reconstruir sua posição: depois do desembarque da delegação em território português, sua saída foi confirmada. Encerrava-se um ciclo que possuía jogadores suficientes para oferecer muito mais futebol do que efetivamente entregou.
É nesse cenário que Jorge Jesus assume talvez o trabalho mais simbólico de sua carreira. Aos portugueses, a figura dispensa apresentações. O treinador de 72 anos de idade chega carregando exatamente aquilo que sempre o acompanhou: personalidade, convicções táticas, polêmicas e controvérsias. Portugal não escolheu um treinador discreto para iniciar sua reconstrução. Escolheu alguém que gosta de protagonismo e que dificilmente se esconde atrás de discursos protocolares. Seu vínculo até 2030 oferece, entretanto, algo essencial para qualquer projeto de seleção: tempo. Quatro primaveras para testar, errar, corrigir, desenvolver jogadores e, principalmente, construir uma identidade.
Começa hoje um novo caminho. Bem-vindo à Seleção Nacional, Mister Jorge Jesus. 🇵🇹 #ViemosParaVencer pic.twitter.com/B9Re2bCuAa
— Portugal (@selecaoportugal) July 10, 2026
Talvez uma das principais lições deixadas pela Copa de 2026 esteja justamente na importância da continuidade. Entre as quatro semifinalistas, três chegaram ao torneio sustentadas por trabalhos longos: Lionel Scaloni com a Argentina, Luis de la Fuente com a Espanha e Didier Deschamps com a França. A Inglaterra de Thomas Tuchel foi a exceção a esse padrão. Evidentemente, quatro anos de trabalho não garantem títulos — futebol jamais ofereceu garantias dessa natureza —, mas permitem que uma seleção chegue ao Mundial sabendo exatamente aquilo que pretende fazer. Sistemas podem mudar, jogadores podem entrar e sair, circunstâncias obrigam treinadores a improvisar, porém uma identidade coletiva não nasce durante as poucas semanas de preparação para o torneio. Portugal parece ter entendido isso ao entregar a Jorge Jesus um ciclo completo.
O novo treinador, como seria previsível, não demorou para anunciar suas intenções. Falou em uma seleção mais vertical, intensa, dinâmica e agressiva, além de sinalizar que pretende abandonar o 4-3-3 que marcou boa parte da estrutura anterior. A justificativa é interessante: em vez de encaixar jogadores obrigatoriamente dentro de um desenho previamente estabelecido, Jorge Jesus pretende construir o modelo de acordo com as características daqueles que possui. Talvez esteja exatamente aí o maior desafio do português. Porque poucas seleções possuem simultaneamente jogadores como Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Vitinha, João Neves, João Félix, Pedro Neto e Rafael Leão. Colocar nomes em uma escalação é relativamente simples. Encontrar equilíbrio entre eles, distribuir espaços, definir alturas no campo e garantir proteção defensiva sem retirar criatividade da equipe é outra história totalmente diferente.
Jorge Jesus também afirmou que Portugal jogará “o dobro” daquilo que jogava anteriormente. É uma frase excelente para manchetes, mas praticamente inútil para medir futebol. Afinal, o dobro de 0,1 continua sendo apenas 0,2. O ex-treinador do Al-Nassr conhece suficientemente bem o peso das próprias palavras e já fez promessas semelhantes em outros momentos da carreira, inclusive no Benfica, sem que necessariamente o campo confirmasse aquilo que havia sido anunciado diante dos microfones. A seleção portuguesa não precisa ganhar entrevistas coletivas. Precisa ganhar jogos importantes. O discurso sobre intensidade, verticalidade e dinamismo é sedutor, mas somente terá significado quando essas ideias aparecerem organizadas dentro das quatro linhas. Até lá, são intenções — e intenções nunca levantaram troféus.
Roberto Martínez no comando de Portugal:
— Sofascore Brasil (@SofascoreBR) July 6, 2026
⚔️ 45 jogos
🚥 32V – 6E – 7D (!)
📊 75.6% aproveitamento (!)
⚽️ 110 gols (!)
🚫 36 gols sofridos (!)
🥅 163 grandes chances (3.6 /j!)
👟 7.1 finalizações p/ marcar gol (!)
⚠️ 11.9 finalizações p/ sofrer gol (!)
⏳ 63.9% posse de bola
🏆 1… pic.twitter.com/U4U5sqGR05
Nenhum assunto, entretanto, despertou tanta atenção em sua apresentação quanto Cristiano Ronaldo. Aos 41 anos durante a Copa de 2026, o maior jogador da história portuguesa apresentou limitações que não existiam em seus melhores anos. Isso não diminui absolutamente nada do que construiu, mas o futebol possui uma característica particularmente cruel: ele não negocia com o calendário. O corpo muda, a velocidade diminui e aquilo que antes era automático passa a exigir administração. Roberto Martínez insistiu excessivamente na presença do camisa 7 durante o Mundial e, em determinados momentos, Portugal pareceu obrigado a adaptar sua dinâmica coletiva para acomodar seu maior símbolo. Curiosamente, quando Gonçalo Ramos recebeu sua oportunidade contra a Croácia, foi justamente ele quem marcou o gol da vitória por 2 a 1.
Jorge Jesus conhece essa realidade melhor do que praticamente qualquer outro treinador disponível. Trabalhou recentemente com Cristiano Ronaldo no Al-Nassr e o substituiu em 18 oportunidades na última temporada, normalmente durante a parte final das partidas. Sua resposta sobre o futuro do atacante na seleção foi cuidadosamente construída: jogará quem merecer jogar. Não anunciou o fim de Ronaldo, tampouco lhe ofereceu cadeira cativa. Considerando a renovação contratual de CR7 por mais um ano em seu clube, é possível imaginar Cristiano ainda presente nas próximas convocações e até começando partidas como titular. Mas também parece razoável prever algo que durante muito tempo soaria quase sacrílego em Portugal: o craque português sendo substituído quando as necessidades coletivas exigirem. Administrar essa transição será um dos primeiros grandes testes políticos do sucessor de Roberto Martínez.
E talvez Portugal nem precise da revolução geracional que normalmente acompanha o encerramento de uma Copa. Segundo o próprio Jesus destacou, apenas seis integrantes do grupo português no Mundial ultrapassavam os 30 anos, sendo dois deles goleiros reservas e outro justamente Cristiano Ronaldo. Isso significa que o núcleo competitivo desta seleção pode atravessar basicamente todo este novo ciclo. Portugal não precisa demolir uma casa para construir outra. Precisa reorganizar os cômodos. Vitinha e João Neves estarão ainda mais maduros em 2030; jogadores que hoje começam a disputar espaço chegarão no auge físico; e outros talentos inevitavelmente surgirão até lá. O problema português nunca pareceu ser ausência de matéria-prima. Foi encontrar a arquitetura adequada para utilizá-la.
Essa abundância, paradoxalmente, pode representar a maior dificuldade de Jorge Jesus. Bernardo Silva gosta de participar da construção. Bruno Fernandes precisa encontrar zonas onde possa acelerar e arriscar. Vitinha tornou-se um dos grandes organizadores do futebol europeu. João Neves acrescenta mobilidade, pressão e força na marcação. João Félix oferece características completamente diferentes quando recebe liberdade entre linhas. Como acomodar todos sem transformar o meio-campo português em uma coleção de jogadores tecnicamente semelhantes disputando os mesmos espaços? A possível ruptura com o 4-3-3 abre alternativas interessantes, seja com maior densidade central, dois atacantes ou estruturas híbridas que mudem de acordo com cada fase do jogo. Mas abandonar um desenho é muito mais simples do que estabelecer outro.
A estreia oficial de Jorge Jesus como selecionador nacional vai ser em Alvalade, a 24 de setembro, contra Gales. pic.twitter.com/Wbo5a9fwrm
— B24 (@B24PT) July 8, 2026
Algumas peças podem ganhar particularmente com essa mudança. Matheus Fernandes aparece como um nome interessante justamente porque oferece características que podem complementar a enorme quantidade de talento técnico disponível no meio-campo. Alberto Costa, lateral do Porto, também surge como alternativa importante em uma seleção que precisará acrescentar intensidade aos corredores. A força física de ambos, combinada com capacidade competitiva e dinamismo, oferece ferramentas valiosas para um treinador que historicamente exige equipes agressivas sem a bola. Nem sempre uma seleção recheada de jogadores sofisticados precisa de outro protagonista. Algumas vezes precisa daquele que recupera a bola para que a estrela dos artistas possa começar a brilhar.
E existem ainda aqueles que representam o Portugal que poderá chegar a 2030 completamente transformado. Rodrigo Mora e Geovany Quenda já pedem passagem e deveriam, no mínimo, fazer parte do processo de construção do próximo ciclo. Não significa entregar titularidade por decreto nem acelerar etapas apenas porque são novatos. Significa aproximá-los gradualmente da seleção principal, permitir que entendam o ambiente internacional e descobrir até onde podem chegar, sobretudo porque quatro anos representam uma eternidade na carreira de um jogador dessa idade. O jovem que hoje aparece como alternativa pode desembarcar na próxima Copa como referência. Uma renovação inteligente não acontece quando todos os veteranos desaparecem simultaneamente, mas sim no instante em que uma geração aprende com a anterior antes de assumir definitivamente seu lugar.
Jogadores da Seleção 🇵🇹 Portuguesa que estiveram no Mundial 2026 que já foram orientados por Jorge Jesus, o novo selecionador nacional:
— Playmaker (@playmaker_PT) July 10, 2026
➡ Rúben Neves
➡ Bruno Fernandes
➡ João Felix
➡ Cristiano Ronaldo
➡ João Cancelo
➡ Gonçalo Ramos
➡ Gonçalo Guedes
➡ Rafael Leão
➡… pic.twitter.com/wuzZtgNKdM
Portugal chega, portanto, a uma encruzilhada curiosa. Não precisa começar novamente do zero porque possui jogadores, estrutura e talento suficientes para permanecer entre as principais seleções do planeta. Precisa descobrir aquilo que deseja ser. Durante séculos, a história portuguesa foi marcada por homens que olharam para além do horizonte sem saber exatamente o que encontrariam depois dele. Há algo simbolicamente parecido neste momento lusitano: o território conhecido já não basta, mas ninguém sabe ainda onde terminará a próxima travessia. Jorge Jesus recebeu o mapa, os instrumentos e uma tripulação extraordinariamente talentosa. Sua obrigação será encontrar uma direção.
A Copa do Mundo de 2030 ainda parece distante, mas projetos realmente vencedores começam quando os estádios do Mundial anterior ainda estão sendo desmontados. Portugal fez corretamente aquilo que poderia fazer imediatamente: encerrou um ciclo inconsistente e entregou ao novo treinador tempo suficiente para construir outro. Se Jorge Jesus é o homem certo, somente os próximos anos responderão. Sua personalidade produzirá manchetes, Cristiano Ronaldo continuará alimentando debates e cada convocação inevitavelmente provocará discussões em um país que possui talento demais para aceitar pouco.
Seja como for, a grande pergunta portuguesa daqui até 2030 seja muito mais simples: finalmente veremos uma seleção capaz de jogar o futebol que seus jogadores sugerem ser possível? Depois da última Copa marcada pela frustração, Portugal já conhece o tamanho de seu potencial. Agora terá quatro anos para descobrir o que fazer com ele.