O fim de Slot e o início da reconstrução: Liverpool entrega Anfield a Iraola

Arne Slot não é mais treinador do Liverpool. Quem seria capaz de imaginar que apenas um ano depois de conquistar a Premier League, o técnico holandês estaria deixando Anfield praticamente sem deixar saudades?

Pois é, o cenário encontrado ao final da temporada 2025-26 em Anfield é completamente diferente daquele que existia doze meses atrás. Se em seu ano de estreia Arne Slot foi celebrado como o homem que conseguiu substituir o lendário Jurgen Klopp sem traumas, agora ele deixa o clube inglês cercado por críticas, questionamentos e uma enorme sensação de oportunidade desperdiçada.

Os números ajudam a explicar por que a passagem de Arne Slot terminou de forma tão precoce. O Liverpool encerrou a Premier League apenas na quinta colocação, somando 60 pontos e dependendo da abertura do G-5 para garantir presença na próxima Champions League. Foram apenas 63 gols marcados, o pior ataque do clube em uma década, além de 53 gols sofridos, o maior número de tentos concedidos pelos Reds desde a criação da Premier League em 1992. Para completar, o time acumulou 20 derrotas ao longo da temporada, algo impensável para um clube que investiu quase meio bilhão de euros em reforços.

E o mais preocupante para a torcida é que o desempenho dentro de campo jamais correspondeu ao investimento realizado. O Liverpool trouxe nomes importantes como Florian Wirtz, Alexander Isak, Hugo Ekitiké, Jeremie Frimpong e Milos Kerkez com a expectativa de permanecer na disputa pelos principais títulos. Em vez disso, viu uma equipe irregular, sem identidade clara e incapaz de competir com os principais rivais ingleses. O resultado foi uma temporada decepcionante para um elenco montado para disputar a Premier League e a Champions League em alto nível.

https://twitter.com/premierleague/status/2059190306625540179?s=20

Ainda assim, seria injusto analisar a passagem de Arne Slot apenas pelos acontecimentos mais recentes. Seu primeiro ano no comando do Liverpool foi extremamente positivo. Herdando a difícil missão de substituir Jurgen Klopp após nove temporadas históricas, o ex-treinador do Feyenoord conseguiu manter a estrutura competitiva da equipe e conduzi-la à conquista da Premier League. Em um ambiente onde muitos esperavam uma queda brusca de rendimento, Slot mostrou personalidade e capacidade para administrar a transição.

Parte daquele sucesso aconteceu porque o treinador holandês conseguiu potencializar jogadores importantes do elenco. Cody Gakpo viveu sua melhor fase com a camisa vermelha, Alexis Mac Allister ganhou mais protagonismo no meio-campo e Dominik Szoboszlai tornou-se uma peça ainda mais relevante dentro da estrutura do time. Mas talvez o maior mérito de Arne Slot tenha sido enxergar em Ryan Gravenberch características para atuar como volante, função que transformou completamente o equilíbrio da equipe campeã da Premier League.

Também não se pode ignorar a influência de Mohamed Salah naquela conquista. O egípcio protagonizou um dos melhores anos de sua carreira em Anfield e foi decisivo para que o Liverpool mantivesse regularidade ao longo da campanha rumo ao título inglês, a julgar pelos 34 gols e 23 assistências em 52 jogos disputados. O problema é que, assim como aconteceu com Arne Slot, Salah também apresentou uma queda acentuada de rendimento na temporada 2025-26. O camisa 11 que havia sido o grande símbolo da conquista da Premier League simplesmente desapareceu em campo.

https://twitter.com/playmaker_PT/status/2059651058264109500?s=20

Mas se os resultados esportivos pesaram contra Arne Slot, suas declarações públicas contribuíram ainda mais para acelerar o desgaste da relação com o clube. Ao longo da temporada, o treinador colecionou entrevistas polêmicas nas quais criticou o estilo de jogo adotado por diversos adversários da Premier League. Em várias oportunidades, reclamou do excesso de força física, das bolas longas e da postura defensiva das equipes que enfrentavam o Liverpool.

O problema é que esse cenário nunca foi novidade para ninguém. Pep Guardiola enfrentou exatamente o mesmo tipo de dificuldade durante os anos de domínio do Manchester City. Jurgen Klopp também precisou lidar constantemente com adversários fechados e apostando em transições rápidas. Quando um clube se torna uma potência, é natural que os rivais adaptem suas estratégias. Ao transformar esse contexto em motivo recorrente de reclamação, Arne Slot acabou dando pífias justificativas para a má temporada dos Reds.

Internamente, a situação também se deteriorou. O relacionamento entre o Arne Slot e Mohamed Salah tornou-se cada vez mais complicado ao longo da temporada. Os atritos entre ambos passaram a ser comentados nos bastidores e contribuíram para o desgaste do ambiente dentro do vestiário. Quando os resultados deixaram de aparecer, a perda de apoio interno tornou-se inevitável. Nem mesmo Anfield, tradicionalmente paciente com seus treinadores, deixou de manifestar insatisfação através de raras, mas significativas, vaias.

https://twitter.com/LFC/status/2060684395443528077?s=20

Agora o Liverpool inicia mais uma reconstrução. E ela não será simples. Além da troca no comando técnico, o clube perdeu peças importantes do elenco. Ibrahima Konaté deixou Anfield após uma negociação contratual mal conduzida pela diretoria. A saída do francês representa um enorme problema para um setor que já apresentava fragilidades. Hoje, Virgil van Dijk e Joe Gomez aparecem como as únicas opções experientes para a defesa, enquanto Giovanni Leoni retorna de uma grave lesão sem qualquer garantia de que conseguirá atuar em alto nível imediatamente.

A lateral-esquerda também se tornou uma preocupação. Andrew Robertson encerrou sua trajetória no clube ao transferir-se ao Tottenham, deixando uma lacuna importante no setor. Milos Kerkez surge como a única opção, e não pode carregar sozinho a responsabilidade de ocupar uma posição tão importante. O Liverpool precisará voltar ao mercado para reforçar uma defesa que já sofreu demais na última temporada e que perdeu profundidade em quase todas as suas funções.

O meio-campo também necessita de ajustes. Alexis Mac Allister teve uma temporada abaixo das expectativas, enquanto Curtis Jones continua parecendo mais útil como alternativa durante as partidas do que como titular absoluto. Ryan Gravenberch e Dominik Szoboszlai permanecem como peças fundamentais, mas é evidente que o plantel precisa ganhar novas soluções criativas. Além disso, a saída de Mohamed Salah torna necessária a contratação de um jogador capaz de atuar aberto pela direita, oferecendo velocidade, profundidade e capacidade de decisão.

É justamente nesse contexto que surge Andoni Iraola. Após conduzir o Bournemouth à melhor temporada de sua história, terminando a Premier League na sexta colocação, o treinador espanhol aparece como principal candidato para suceder Arne Slot em Anfield, obviamente, cercado por expectativas elevadas depois de transformar o Bournemouth em uma equipe agressiva, intensa e absolutamente competitiva. Seu trabalho chamou atenção pela organização tática, pela capacidade de potencializar jovens jogadores e pela coragem para enfrentar adversários teoricamente superiores. Não por acaso, nomes como Rayan já começam a ser associados ao Liverpool.

Muitos torcedores questionam por que o Liverpool não avançou por Xabi Alonso quando o treinador espanhol esteve disponível no mercado. A resposta talvez esteja justamente no perfil procurado pela diretoria. Enquanto Alonso apresenta características mais próximas de um futebol baseado em controle e construção paciente, Andoni Iraola se aproxima mais da intensidade que marcou a ‘era Jurgen Klopp’.

Portanto, caberá à Andoni Iraola liderar uma profunda reconstrução em Anfield. Um novo capítulo começa no Liverpool. E depois de uma temporada tão decepcionante, os torcedores esperam que as esperanças voltem a ser maiores do que as cicatrizes deixadas pelo último ano.

Deixar um comentário

Menu