Fim da era Conte: Napoli aposta em Allegri e levanta dúvidas para o futuro

A saída de Antonio Conte do Napoli marca o fim de um ciclo que durou exatamente dois anos. Um período relativamente longo se levarmos em consideração a personalidade intensa do treinador italiano e a atmosfera igualmente apaixonada que cerca o futebol napolitano.

E embora a passagem de Antonio Conte termine sem títulos em sua segunda temporada pelo clube da Campânia, o saldo geral não pode ser considerado negativo. Afinal, foi sob seu comando que os Azzurri conquistaram o quarto Scudetto de sua história em 2025, recolocando o Napoli novamente no topo do futebol italiano dois anos após a histórica campanha liderada por Luciano Spalletti.

Justamente por causa desse título, a expectativa para a temporada 2025-26 era enorme. A diretoria investiu pesado no elenco, desembolsando 147,5 milhões de euros em reforços, valor que representou o segundo maior investimento da Serie A no período. A intenção era clara: transformar o Napoli em um candidato real não apenas ao bicampeonato italiano, mas também em uma equipe mais competitiva no cenário continental. O problema é que a resposta dentro de campo esteve muito distante das expectativas criadas ao redor do clube.

O Napoli jamais conseguiu estabelecer uma perseguição consistente à campeã Inter ao longo da temporada. Os nove pontos que separaram as duas equipes na classificação final refletem uma diferença que, em muitos momentos, pareceu até maior dentro das quatro linhas. Faltou regularidade, faltou consistência e, principalmente, faltou a capacidade de responder nos momentos decisivos do campeonato. Os Azzurri oscilaram demais durante a temporada e nunca transmitiram a sensação de que realmente brigariam pelo Scudetto até as rodadas finais.

Naturalmente, esse desempenho acabou gerando frustração entre os torcedores. Depois do Scudetto conquistado no ano passado e dos elevados investimentos realizados pela diretoria, a expectativa mínima era que o Napoli permanecesse entre os protagonistas da disputa. No entanto, o clube passou boa parte da temporada correndo atrás dos concorrentes sem conseguir reduzir a distância para os líderes. A sensação de estagnação esportiva tornou-se cada vez mais evidente conforme os meses avançavam.

Ao mesmo tempo, os bastidores também começaram a se deteriorar. Antonio Conte nunca foi conhecido por ser um treinador fácil de administrar e, ao longo da temporada, os relatos de atritos internos tornaram-se cada vez mais frequentes. O relacionamento com a diretoria sofreu desgaste, o diálogo com setores do departamento de futebol ficou mais complicado e até alguns jogadores importantes passaram a demonstrar divergências em relação ao treinador. Um cenário que costuma ser perigoso em qualquer clube de elite.

Entre os nomes envolvidos nessas divergências aparecem Kevin De Bruyne, contratado para elevar o patamar técnico da equipe, que teve seu nome ligado a episódios de tensão interna. O mesmo aconteceu com Romelu Lukaku e Frank Anguissa, duas peças fundamentais na conquista do quarto Scudetto napolitano. Quando os conflitos começam a atingir lideranças do vestiário, a permanência de um treinador passa a ficar naturalmente ameaçada. Aliás, Antonio Conte sabe disso como poucos.

As próprias entrevistas concedidas por Antonio Conte ao longo da temporada já deixavam evidente seu crescente grau de insatisfação. O treinador frequentemente criticava a gestão física do elenco e demonstrava preocupação com a quantidade de lesões sofridas pelo Napoli. De fato, os Azzurri conviveram com diversos problemas médicos e raramente conseguiram entrar em campo com a equipe considerada ideal. Ainda assim, essa justificativa não foi suficiente para amenizar as cobranças sobre os resultados obtidos.

Outro fator que pesou contra Antonio Conte foi o desempenho dos reforços contratados a seu pedido. Jogadores como Sam Beukema, Lorenzo Lucca e Noa Lang chegaram cercados por expectativas, mas não conseguiram entregar um rendimento compatível com os valores investidos. Em um cenário de forte investimento financeiro, é natural que a diretoria espere resultados proporcionais. Consequentemente, a pressão recai de forma inevitável sobre quem participou diretamente das decisões de mercado.

Mas talvez o maior fracasso da temporada tenha ocorrido na Champions League. E, nesse aspecto, a campanha do Napoli acabou reforçando uma crítica histórica que acompanha Antonio Conte ao longo da carreira. Mais uma vez suas equipes encontraram enormes dificuldades para competir no principal torneio do futebol europeu. Para se ter uma ideia, os Azurri sequer foram capazes de terminar a fase de liga entre os vinte e quatro melhores colocados da competição para garantir presença nos playoffs, encerrando sua participação de forma precoce e decepcionante.

Diante desse contexto, a saída de Antonio Conte acabou sendo encarada por muitos como um desfecho natural. O que surpreendeu foi a rapidez com que a diretoria encontrou seu substituto. Pouco tempo após a confirmação da saída do treinador campeão italiano, o Napoli anunciou Massimiliano Allegri como novo comandante. Uma decisão que chamou atenção imediatamente não apenas pelo nome escolhido, mas principalmente pelo contraste entre os perfis dos dois treinadores.

Os trabalhos mais recentes de Massimiliano Allegri não servem exatamente como credencial para gerar entusiasmo. Sua segunda passagem pela Juventus esteve longe do brilho apresentado em sua primeira experiência no clube e sua recente trajetória pelo Milan também terminou cercada por questionamentos. Os Rossoneri ficaram fora da zona de classificação para a Champions League e encerraram a Serie A apenas na quinta colocação, performance considerada abaixo das expectativas para os torcedores milanistas.

Entretanto, mais importante do que os resultados recentes é a diferença de filosofia entre os dois treinadores. Antonio Conte construiu sua carreira apostando em equipes agressivas, intensas e com postura dominante. Seus times normalmente procuram controlar o jogo através da pressão, da ocupação ofensiva dos espaços e da imposição física. Já Massimiliano Allegri historicamente segue uma linha muito mais pragmática, priorizando equilíbrio defensivo, organização tática e uma abordagem frequentemente mais reativa.

É justamente nesse ponto que surgem as maiores dúvidas sobre o futuro do Napoli. A troca de Antonio Conte por Massimiliano Allegri não representa uma simples troca de treinador, mas sim uma mudança completa de conceito futebolístico. Em vez de buscar alguém capaz de dar continuidade ao trabalho já desenvolvido, a diretoria optou por iniciar um novo projeto baseado em princípios praticamente opostos aos do antecessor. Isso inevitavelmente exigirá tempo, adaptações e talvez até mudanças significativas no grupo de atletas.

Por essa razão, a temporada 2026-27 começa cercada por incertezas para os napolitanos. O Napoli possui um elenco talentoso, recursos financeiros importantes e uma torcida apaixonada, mas também carrega dúvidas consideráveis sobre o rumo esportivo escolhido pela diretoria. O sucesso ou fracasso da aposta em Massimiliano Allegri dependerá da capacidade do treinador de convencer o elenco de suas ideias e de apresentar rapidamente resultados. Caso contrário, os Azzurri correrão o risco de transformar uma troca de técnicos em um passo atrás exatamente no momento em que deveriam consolidar sua posição entre as principais potências do futebol italiano.

Deixar um comentário

Menu