Campeão da Championship, o Coventry está de volta à Premier League após 25 anos

O futebol inglês costuma ser vendido ao mundo através dos gigantes. Old Trafford, Anfield, Emirates Stadium, Etihad, Stamford Bridge. Os holofotes quase sempre apontam para os mesmos lugares, para os mesmos clubes e para as mesmas camisas milionárias.

No entanto, o retorno do Coventry City à Premier League após 25 anos mostra que a alma do futebol inglês continua viva muito além da elite tradicional. Porque poucas histórias recentes na Europa carregam tanto sofrimento, resistência e reconstrução quanto a do clube celeste das Midlands. Campeões da Championship League na temporada 2025-26 sob o comando de Frank Lampard, os Sky Blues encerram um verdadeiro calvário que parecia interminável para uma torcida acostumada a sobreviver muito mais do que propriamente sonhar. Um retorno que transcende o acesso. Trata-se da recuperação da dignidade de um time que durante anos pareceu esquecido dentro da própria Inglaterra.

Quando o Coventry foi rebaixado da Premier League em maio de 2001, muitos acreditavam que o clube retornaria rapidamente à elite. Afinal, tratava-se de uma equipe tradicional, que havia permanecido por impressionantes 34 anos consecutivos na primeira divisão inglesa antes daquela queda. Todavia, o que veio depois transformou-se em uma espiral de dor. O clube mergulhou em problemas financeiros, instabilidade administrativa, crises esportivas e sucessivos rebaixamentos.

Pois é, o Coventry não apenas caiu para a League One, a terceira divisão inglesa, como chegou ao fundo do poço ao disputar a League Two na temporada 2017-18. Para uma torcida que havia convivido durante décadas com o mais alto nível do futebol inglês, vê-lo na quarta divisão parecia quase uma humilhação impossível de imaginar. Os Sky Blues deixaram de lutar por permanências heroicas na Premier League para lutar simplesmente pela própria sobrevivência.

Isso explica porque o acesso conquistado agora tenha um peso emocional tão gigantesco para a cidade. Porque durante muitos anos o Coventry City viveu sem rumo, sem estabilidade e, em determinados momentos, quase sem identidade. Houve temporadas em que o time parecia condenado a definhar lentamente longe dos grandes palcos ingleses. O sentimento de abandono era enorme. A torcida via adversários históricos se reorganizando enquanto os Sky Blues continuavam presos em crises administrativas e esportivas. Não existia perspectiva clara de retorno. Apenas resistência e sobrevivência. E talvez seja por este motivo que os pupilos de Frank Lampard representem tão bem o futebol inglês de verdade, aquele que existe longe dos bilhões da Premier League, sustentado apenas pela paixão quase irracional de torcedores que jamais abandonam o clube, mesmo quando tudo parece perdido.

A primeira grande virada emocional dessa reconstrução aconteceu em 2017. Naquele ano, o Coventry venceu o EFL Trophy diante do Oxford United no Wembley Stadium. Pode parecer apenas um torneio secundário para quem observa de fora, mas para os Sky Blues aquela conquista representou muito mais do que um troféu. Cerca de 43 mil torcedores celestes tomaram Wembley naquele dia. Era como se a torcida estivesse desesperadamente tentando reencontrar o orgulho perdido ao longo dos anos. E encontrou. Porque aquela conquista serviu quase como um reencontro entre clube e arquibancada. Um pacto silencioso de reconstrução.

O Coventry ainda estava distante da elite, distante até mesmo da Championship, mas pela primeira vez em muitos anos parecia existir novamente esperança em West Midlands. Os resultados começaram a aparecer pouco tempo depois. Um ano após a conquista do EFL Trophy, o Coventry garantiu o acesso à League One. Em seguida, veio o retorno à Championship League na temporada pandêmica de 2019-20. E ali começou uma nova etapa da reconstrução. O clube voltou a frequentar um ambiente competitivo mais próximo da Premier League e começou lentamente a recuperar sua credibilidade esportiva.

Ainda assim, o caminho continuou cruel. O Coventry chegou duas vezes aos playoffs de acesso e caiu de maneira dolorosa em ambos. Primeiro na final contra o Luton Town em 2023, derrotado nos pênaltis. Depois, já sob o comando de Frank Lampard, sofreu um golpe devastador ao levar um gol do Sunderland aos 122 minutos na temporada passada. O acesso parecia sempre escapar quando estava perto demais.

Em contrapartida, aquelas derrotas acabaram sendo fundamentais para amadurecer emocionalmente o clube, tendo em vista que grandes reconstruções raramente acontecem sem cicatrizes profundas no caminho. O Coventry precisou aprender a lidar com a frustração antes de finalmente conquistar a glória. E nesse processo, uma figura foi absolutamente fundamental: Mark Robbins.

O antecessor de Frank Lampard tornou-se o símbolo da reconstrução esportiva dos Sky Blues. Foi ele quem devolveu competitividade ao clube. Foi ele quem conduziu a equipe de volta às divisões superiores. E foi ele também quem devolveu orgulho à torcida em meio ao caos. Mark Robbins não recolocou apenas o Coventry no mapa do futebol inglês. Ele preparou o terreno para que os Sky Blues pudessem sonhar novamente com a Premier League depois de décadas de sofrimento.

Ao mesmo tempo, outra transformação decisiva acontecia fora das quatro linhas. A chegada do empresário Doug King mudou completamente o cenário estrutural do Coventry. Durante anos, o time conviveu com problemas envolvendo o estádio, sem possuir efetivamente sua própria casa. A relação instável com o Coventry Building Society Arena tornou-se um símbolo da fragilidade institucional. Mas tudo mudou quando o atual mandatário assumiu o controle do clube em janeiro de 2023 e resolveu adquirir o “novo lar”. A partir daquele momento, o Coventry finalmente voltou a sentir que tinha novamente uma casa. E o simbolismo foi imediato. Logo na primeira partida os Sky Blues golearam o Queens Park Rangers por 7 a 1.

Pouco tempo depois, veio outra decisão que inicialmente gerou dúvidas, mas acabaria mudando a história recente do clube. A saída do popular Mark Robbins abriu espaço para a chegada de Frank Lampard em novembro de 2024. E naquele momento havia muito ceticismo em torno do ex-meio-campista inglês. Lampard estava desempregado havia 18 meses e carregava trabalhos instáveis no Chelsea e no Everton. No Derby County, havia mostrado potencial ao levar o clube aos playoffs da Championship. Em Stamford Bridge, alternou bons momentos com enorme pressão. Em Merseyside, conseguiu evitar o rebaixamento em uma temporada, mas acabou demitido na seguinte com a equipe afundada na zona da degola. E depois disso, ainda retornou brevemente aos Blues como interino em um período bastante turbulento.

Só que o Coventry ofereceu algo que Frank Lampard jamais teve nos grandes clubes da Premier League: estabilidade. Longe dos holofotes sufocantes da elite inglesa, ele encontrou um ambiente ideal para trabalhar a longo prazo. E isso fez toda diferença. Quando assumiu o clube, os Sky Blues ocupavam apenas a 17ª colocação da Championship League, somente dois pontos acima da zona de rebaixamento. O elenco parecia sem confiança, sem identidade e sem direção.

Ainda assim, o jovem treinador de 47 anos reorganizou a equipe de maneira impressionante. O Coventry cresceu de forma consistente na reta final daquela temporada e terminou em quinto lugar, alcançando novamente os playoffs. A eliminação dolorosa para o Sunderland machucou profundamente, mas também deixou um aprendizado importante para um plantel que ainda precisava amadurecer mentalmente.

Na atual temporada, finalmente tudo encaixou. O Coventry transformou dor acumulada em maturidade competitiva. A equipe começou a engrenar especialmente a partir do mês de fevereiro, depois de uma vitória decisiva sobre o Middlesbrough. A partir dali, uma sequência de seis vitórias consecutivas a colocou na liderança isolada da Championship League. Pela primeira vez em muitos anos, os Sky Blues pareciam um clube completamente seguro de si. Não eram apenas combativos, tinham identidade. Algo que talvez nunca tivesse existido de forma tão clara desde o rebaixamento de 2001. Frank Lampard conseguiu construir um time intenso, organizado, emocionalmente forte e extremamente confortável sem a bola, deixando de ser somente um sobrevivente para tornar-se um verdadeiro protagonista.

E parte importante dessa transformação aconteceu através da evolução individual dos jogadores. Frank Lampard conseguiu elevar o nível técnico de atletas que antes pareciam subestimados dentro da Championship League. Ephron Mason-Clark cresceu muito de rendimento. Brandon Thomas-Asante tornou-se peça importante dentro do sistema ofensivo. O lado direito da equipe passou a funcionar de maneira extremamente agressiva com Milan van Ewijk e o japonês Tatsuhiro Sakamoto, uma das grandes armas ofensivas do time durante a campanha do título. Além disso, a chegada de Frank Onyeka em janeiro trouxe ainda mais força física e intensidade ao lado do volante Matt Grimes no meio-campo, enquanto o goleiro Carl Rushworth, emprestado pelo Brighton, ofereceu segurança decisiva em momentos chaves da campanha.

Mas talvez nenhum jogador simbolize tanto a ambição recente do Coventry quanto Haji Wright. Contratado em 2023 por 7,7 milhões de libras — valor recorde da história do clube — o atacante norte-americano chegou cercado de expectativas e conseguiu corresponder plenamente. Artilheiro do time na Championship League com 17 gols e presença constante nas convocações da seleção dos Estados Unidos, Wright transformou-se em referência ofensiva absoluta da equipe. Pela primeira vez em décadas, os Sky Blues pareciam agir novamente como um clube que acreditava pertencer à Premier League.

E agora, 25 anos depois, a cidade finalmente voltará a respirar Premier League. Uma geração inteira de torcedores cresceu sem ver o clube disputá-la. Muitos sequer tinham memória daquele Coventry dos anos 90 que sobrevivia temporada após temporada na primeira divisão. Durante décadas, restaram apenas lembranças, frustrações e uma espera interminável. Entretanto, o futebol possui uma capacidade rara de devolver esperança justamente quando ela parece mais distante. Os Sky Blues caíram até a quarta divisão, viveram crises institucionais, perderam finais dolorosas e quase desapareceram do mapa. Contudo, resistiram e estão novamente no mais alto escalão inglês.

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