Se a primeira temporada de Arne Slot em Anfield foi um conto de fadas simbolizado pela conquista da Premier League, a segunda se transformou num verdadeiro pesadelo mediante a enorme crise que assola o Liverpool.
Apesar dos mais de 300 milhões de euros investidos nas contratações de Alexander Isak, Florian Wirtz, Hugo Ekitiké, Milos Kerkez, Jeremie Frimpong e Giovanni Leoni, os Reds encerraram a 15ª rodada da Premier League na DÉCIMA posição da tabela somando 23 pontos, isto é, treze a menos em comparação a este meio estágio da temporada anterior. Para se ter uma ideia, as seis derrotas sofridas pelo Liverpool na atual edição do campeonato já equivalem a dois reveses a mais do que em toda a campanha de 38 rodadas rumo ao 20º título inglês.
Não à toa, a demissão de Arne Slot passou a ser discutida pela opinião pública à medida que o abismo do Liverpool aumenta a cada partida, sendo a última delas diante do Leeds United, na qual os atuais campeões ingleses sofreram o gol do empate em 3 a 3 nos acréscimos, lembrando que eles chegaram a abrir uma confortável vantagem de dois gols no placar, e passaram novamente a frente do marcador nos dez minutos finais do jogo.
It's tighter at the top after Matchweek 15 🤏 pic.twitter.com/T5ZP8yxkry
— Premier League (@premierleague) December 9, 2025
No entanto, como se a crise em campo não bastasse, Mohamed Salah tratou de incendiar a situação fora das quatro linhas após o empate no Elland Road, quando decidiu ir à zona mista soltar o verbo contra o técnico Arne Slot, fazendo isso logo para o primeiro repórter que ele viu, o que sinaliza que o camisa 11 concedeu a entrevista de forma totalmente lúcida, sem o calor do momento que, por vezes, leva qualquer jogador a falar de maneira impensada. Confira:
Estou muito decepcionado. Fiz muita coisa pelo Liverpool! Não sei por que fico no banco. Sinto como se o clube estivesse me jogando aos leões. Alguém não me quer no Liverpool. Eu tinha um bom relacionamento com o técnico. De repente não temos uma relação. Vamos ver o que acontece. Na minha cabeça, vou aproveitar, mesmo quando não jogar. Em Anfield, vou dizer adeus à torcida e ir para a Copa Africana. Não sei o que acontecerá enquanto eu estiver lá. Não é aceitável para mim. Não sei por que estou no banco de reservas. Não entendo por que estou nessa situação. Não acho que sou o problema. Fiz muito por este clube. Não preciso brigar todos os dias pela posição porque eu mereço”.
Mohamed Salah, atacante do Liverpool
Vale ressaltar que isso não é novidade em relação a Mohamed Salah, tendo em vista que em abril do ano passado ele soltou o famoso: “prefiro ficar quieto, porque se eu falar tudo vai pegar fogo”. Contudo, o motivo daquela fala em Londres após a partida contra o West Ham é exatamente o mesmo da entrevista em Leeds, ou seja, a irritação por ficar no banco de reservas, o que o fez inclusive entrar em rota de colisão com o antigo treinador Jurgen Klopp.
Logo, por mais calado e com histórico de conceder pouquíssimas entrevistas, a realidade é que o Mohamed Salah costuma polemizar nas vezes em que procura a imprensa sempre para falar de si, dos seus próprios interesses, afinal quem não se lembra da longa novela envolvendo a sua renovação contratual na última temporada, marcada pelo enorme desgaste do incendiário atacante do Liverpool junto ao clube?

Desta vez, a razão da revolta de Mohamed Salah é a titularidade perdida, já que segundo ele é inadmissível Arne Slot sacá-lo da equipe por conta da sua trajetória no Liverpool, o que significa que o atacante de 33 anos de idade justifica a sua permanência em campo através dos 420 jogos, 250 gols e nove títulos conquistados defendendo as cores dos Reds, e não por intermédio do seu desempenho que, nitidamente, caiu desde o começo do ano.
Obviamente, a idolatria de Mohamed Salah deve ser exaltada em meio a linda história que ele construiu em Anfield, circunstância pela qual ele ganhou o status de titular indiscutível do Liverpool ao longo dos oito anos em que veste a camisa do clube, tanto é que antes de sentar no banco de reservas há três partidas, Salah acumulava o montante de 53 titularidades consecutivas na Premier League, algo que também é fruto do ótimo condicionamento físico do egípcio, que pouco se machuca.
Em contrapartida, trazer essa insatisfação a público foi um grande equívoco cometido por Mohamed Salah, sobretudo em meio a crise que o Liverpool atravessa, além de se tratar do clube cujo lema é o “You’ll Never Walk Alone” (Você Nunca Andará Sozinho), quer dizer, ele está indo completamente na direção oposta ao pensar única e exclusicamente em si, como já havia feito tanto com Jurgen Klopp quanto na negociação do seu contrato.
Portanto, fica evidente porque não apenas a diretoria como o próprio vestiário ficou ao lado de Arne Slot nessa queda de braço, o que nos leva a crer que se não houver um pedido desculpas o ciclo de Mohamed Salah realmente está próximo do fim no Liverpool. Aliás, é importante destacar que o treinador holandês nem o relacionou para enfrentar a Inter de Milão, no San Siro, pela 6ª rodada da fase de liga da Champions League, a exemplo da postagem de Salah nas redes sociais treinando sozinho na academia do clube inglês.
— Mohamed Salah (@MoSalah) December 9, 2025
Por fim, é claro que Mohamed Salah tem o direito de se sentir injustiçado em figurar no banco de reservas, ainda mais assistindo as pífias atuações de Cody Gakpo. Deste modo, Arne Slot também deve satisfações visto que qualquer treinador deveria explicar o porquê tirou ou vai tirar um jogador da formação titular, algo que o ex-técnico do Feyenoord não faz. Todavia, o ideal seria ambos conversarem internamente para que a solução fosse resolvida, seja com a transferência do atleta na próxima janela, seja com a sua permanência no clube de modo amistoso.
De qualquer maneira, o incêndio causado por Mohamed Salah prejudicou todas as partes, quer dizer, ele e o clube, isso porque os futuros interessados na sua contratação já sabem que não precisarão oferecer muito ao jogador que busca respirar novos ares em virtude do conflito com o treinador, fazendo com que o Liverpool deixe de faturar alguns milhões de euros a mais, enquanto o atacante dos Reds perdeu espaço, boa parte da idolatria dos torcedores, e ainda corre o risco de sair de Anfield pela porta dos fundos.
Isto posto, a partida do próximo sábado (13) frente o Brighton pode ser a última página escrita por Mohamed Salah no Liverpool. Que temporada, hein, Reds!