Entre jovens promessas e uma base experiente, a Squadra Azzurra procura transformar os primeiros sinais de recuperação em um projeto para 2028 e 2030.
A camisa italiana continua carregando quatro estrelas, mas há algum tempo o peso do tecido parece superar a proteção que sua história oferece. Depois de três ausências consecutivas em Copas do Mundo, a Azzurra precisa recuperar algo anterior ao prestígio: a capacidade de construir um amanhã que não dependa da lembrança de ontem. O retorno de Roberto Mancini nasce dessa urgência. Há um treinador conhecido no banco e uma geração diferente à sua disposição, combinação que oferece esperança, embora também cobre explicações. Recomeçar com alguém que já esteve ali pode fazer sentido, desde que a familiaridade não substitua a revisão dos erros.
Os quatro primeiros compromissos ajudam a dimensionar esse início sem autorizar grandes proclamações. A derrota por 2 a 0 para a Bélgica, em casa, abriu a caminhada; a resposta veio com o triunfo por 4 a 1 sobre a Turquia, em Bursa. Depois, o empate em 1 a 1 com a França, no Stade de France, antecedeu a vitória de virada por 3 a 1 diante dos turcos, em Bolonha. São sete pontos, oito gols marcados e cinco sofridos, suficientes para ocupar a segunda posição do grupo A1 da Liga das Nações, três pontos atrás dos franceses. Existe progresso nos resultados, mas a amostra permanece pequena.
A principal novidade, contudo, não cabe na classificação. Roberto Mancini abriu espaço para uma leva de jogadores que amplia as possibilidades de escolha e modifica o horizonte da equipe. Massimo Pessina, Daniele Ghilardi, Michael Kayode, Eddy Kouadio, Alessandro Romano, Issa Doumbia, Sebastiano Esposito, Antonio Vergara e Mohamed Alì Zoma aparecem entre os estreantes em convocações, enquanto Samuele Inácio também integra esse movimento de rejuvenescimento. O conjunto reúne funções diferentes, trajetórias diversas e promessas em estágios distintos de desenvolvimento. Por isso, vale resistir à tentação de apresentá-los como uma solução pronta: uma lista pode anunciar intenções, mas somente o trabalho transforma nomes em alternativas confiáveis.
Ao redor dessas apostas existe um núcleo capaz de oferecer sustentação imediata. Gianluigi Donnarumma, Alessandro Bastoni, Federico Dimarco, Riccardo Calafiori, Nicolò Barella, Sandro Tonali e Davide Frattesi representam recursos importantes para qualquer treinador que procure organizar uma seleção competitiva. A experiência desse grupo deveria permitir que os recém-chegados entrassem em um ambiente com referências claras, sem assumir sozinhos a responsabilidade de reparar anos de frustração. O desafio está em fazer as gerações conversarem dentro de campo. Uma hierarquia útil protege o crescimento, distribui tarefas e reconhece desempenho; quando se limita a preservar lugares por reputação, acaba fechando justamente as portas que a renovação prometeu abrir.
🚨🇮🇹 Convocação da Itália para os jogos da data FIFA. pic.twitter.com/8bie7DlYvl
— Futebol Total (@FuteboltotaIbr) September 18, 2026
Há material, sobretudo, para pensar uma construção mais rica desde a defesa. Alessandro Bastoni e Riccardo Calafiori oferecem caminhos para iniciar ataques, enquanto Federico Dimarco acrescenta qualidade ao jogo pelos lados. No meio, Nicolò Barella, Sandro Tonali e Davide Frattesi apresentam características que podem se complementar, dependendo das funções estabelecidas. Essas possibilidades, porém, precisam virar relações: quem aproxima para receber, quem ocupa o espaço adiante, quem permanece em posição de conter uma perda. Sem essa coordenação, reunir bons jogadores produz apenas uma escalação respeitável. A tarefa de Roberto Mancini será criar um desenho em que a iniciativa tenha apoio e a circulação da bola encontre propósito, em vez de terminar em posse estéril.
A presença de atletas que atuam fora do país também acrescenta experiências ao repertório disponível. Michael Kayode chega do Brentford, Issa Doumbia do Sporting, Samuele Inácio do Borussia Dortmund e Mohamed Alì Zoma do futebol alemão, oferecendo contato com ambientes de formação e competição distintos. Seria simplista concluir que jogar no exterior torna alguém automaticamente mais preparado, assim como seria equivocado tratar a Serie A como uma escola ultrapassada. O benefício possível está na diversidade de vivências: exigências físicas, ritmos e soluções que podem enriquecer o conjunto. Cabe à comissão liderada por Roberto Mancini aproveitar essas diferenças sem depender da improvisação. Uma seleção precisa encontrar linguagem comum em períodos curtos de convivência, mesmo quando seus integrantes aprendem dialetos diferentes nos clubes.
Convocar jovens, entretanto, é a parte mais visível de uma decisão que exige continuidade. O verdadeiro compromisso aparece quando um passe sai errado, uma cobertura atrasa ou a primeira atuação fica abaixo da expectativa. Se cada tropeço provocar uma volta automática aos nomes conhecidos, o discurso de transformação terá servido apenas à apresentação do projeto. Roberto Mancini precisará distinguir falhas de aprendizado, limitações momentâneas e problemas coletivos, oferecendo oportunidades com critérios. Também não basta lançar promessas sem orientação e chamar isso de coragem. Desenvolver alguém envolve definir responsabilidades possíveis, explicar escolhas e permitir evolução. O futuro costuma perder espaço quando o futebol exige experiência de quem nunca recebe tempo para adquiri-la.
Senhoras e senhores, a ITÁLIA LOW PROFILE está com tudo! 🇮🇹
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Números nesta DATA FIFA:
4 jogos.
2 vitórias.
1 empate.
1 derrota.
7 gols marcados.
5 gols sofridos.
O Mancini vai buscar mais uma Euro.
Tudo sobre o futebol internacionalhttps://t.co/aQiILMRxm0 pic.twitter.com/eUMaCvqR0n
Nesse aspecto, a confiança do treinador pode ajudar, desde que venha acompanhada de autocrítica. O título europeu conquistado em 2021 permanece como evidência de sua capacidade de conduzir um grupo ao sucesso; a ausência no Mundial de 2022 também pertence ao mesmo currículo. Seu retorno, cerca de três anos depois da saída para comandar a Arábia Saudita, não apaga nenhuma dessas passagens. A convicção necessária para liderar deve conviver com a disposição de rever decisões. Afinal, alguém que conhece profundamente aquele ambiente também conhece suas feridas. A autoridade mais valiosa será a que transformar esse conhecimento em correções, sem se apoiar no troféu antigo como resposta para toda cobrança presente.
O problema italiano, de qualquer maneira, ultrapassa a área técnica. As tentativas de Luciano Spalletti e Gennaro Gattuso não recolocaram a seleção na Copa de 2026, e a sucessão de frustrações exige perguntas sobre formação, aproveitamento de talentos e continuidade de planejamento. Seria conveniente atribuir tudo a um comandante, porque a troca de nome produz uma sensação imediata de providência. Reconstruções duradouras pedem mais. De que adianta anunciar uma nova geração se, no primeiro momento de dificuldade, o país exigir que ela jogue como uma equipe pronta? O resultado importa, mas não pode ser o único instrumento para avaliar cada etapa de um processo que precisa sobreviver à próxima derrota.
A estreia diante dos belgas serve precisamente como esse lembrete. Perder por dois gols em casa expõe a distância entre as expectativas e a capacidade de respondê-las, embora o placar sozinho não explique onde aconteceram as falhas. Da mesma forma, a goleada em solo turco oferece um sinal de reação, sem comprovar que todas as questões foram resolvidas. A leitura responsável precisa acompanhar o que se repete: qualidade das chances, organização sem a bola, proteção do próprio campo e capacidade de sustentar o desempenho contra diferentes adversários. Esse acompanhamento será mais revelador do que oscilar entre condenação e euforia a cada rodada. Uma identidade se reconhece pela recorrência de comportamentos, inclusive quando o resultado não ajuda.
A Itália somou mais uma boa vitória na Nations League, praticamente rebaixando a Turquia e ficando na segunda posição do Grupo A1 da competição da Uefa. pic.twitter.com/EMh4k6pdCm
— Calciopédia (@calciopedia) October 5, 2026
O ponto conquistado na França e a virada em Bolonha acrescentam razões para olhar o começo com algum otimismo. Pontuar fora contra os franceses tem valor competitivo; vencer depois de sair atrás indica uma resposta favorável à adversidade naquela partida. Nenhum desses episódios, isoladamente, autoriza declarar recuperada a força mental do grupo, mas ambos ajudam a construir confiança para os próximos encontros. Os números oferecem também um contraponto: a Itália sofreu gols nos quatro jogos. Com média de dois marcados por compromisso, existe produção ofensiva, ao passo que a necessidade de maior estabilidade permanece aberta. O avanço desejável será combinar essa capacidade de reação com atuações que exijam menos reparos ao longo dos noventa minutos.
A Eurocopa de 2028 aparece como uma etapa importante antes da busca pela Copa de 2030, embora o histórico continental não ofereça atalhos. Houve a final de 2012, o título de 2021 e campanhas encerradas nos pênaltis nas quartas de 2008 e 2016, mas também a eliminação nas oitavas de 2024 diante da Suíça. Essa alternância impede que se trate a competição europeia como território de sucesso garantido. Para o novo ciclo, o torneio pode funcionar como medida de maturidade, desde que sua preparação produza continuidade. Escolhas consistentes, funções assimiladas e opções desenvolvidas ao longo do caminho seriam conquistas importantes para uma equipe que precisa recuperar a capacidade de competir além de uma boa sequência.
O início da segunda passagem de Roberto Mancini devolve à torcida uma possibilidade que parecia cada vez mais distante: olhar para o próximo compromisso com curiosidade, sem carregar apenas o receio de outra decepção. Ainda falta muito para transformar essa disposição em segurança, e seria injusto pedir aos jovens que resolvessem imediatamente problemas acumulados durante anos. Também seria pouco ambicioso aceitar a renovação como objetivo suficiente. A Azzurra precisa crescer, competir e voltar a ocupar o palco mundial, fazendo da história uma referência que oriente suas escolhas. As estrelas continuam ali, costuradas sobre o peito. Agora, o trabalho consiste em construir um futebol capaz de carregá-las sem depender delas para justificar o presente.