Disputar a Premier League (Primeira Divisão do Campeonato Inglês) é o sonho de qualquer clube da Terra da Rainha, tudo por conta da enorme visibilidade e logicamente da verba orçamentária que os participantes da liga mais cara do mundo recebem. Mas além destes aspectos, para o Huddersfield Town, desconhecido para nós brasileiros porém conhecidíssimo do público inglês, a sensação de retornar ao torneio tem motivos que vão muito mais além destes fatores.
Huddersfield Town Association Football Club, fundado em 1908 na cidade de mesmo nome, Huddersfield, localizada a aproximadamente 310 km da capital Londres, é popularmente chamado de Terriers por seus torcedores, e tem como maior feito até hoje, ser o primeiro tricampeão da história do futebol inglês, pois nas temporadas de 1923/24,1924/25 e 1925/26 o time foi o vencedor do campeonato nacional, feito este alcançado por apenas outras três equipes, porém jamais superado. E não para por aí, junta-se a estes três títulos, as taças da Copa da Inglaterra (1921/22) e da Supercopa da Inglaterra (1922), comprovando que o clube foi um dos maiores da Inglaterra na década de 20. Curiosamente, o Huddersfield Town ergueu mais vezes o troféu de campeão inglês do que clubes como Tottenham Hotspurs, Derby County, Preston North End (todos com dois títulos), Leicester, Nottingham Forest e West Bromwich (todos com 1 título), portanto, está explicado porque os Terriers não são meramente desconhecidos em seu país.

Antes do início da Championship League (Segunda Divisão do Campeonato Inglês) eram poucos os que apostavam suas fichas no acesso do Huddersfield Town, afinal, haviam concorrentes mais fortes a sua frente, como por exemplo Newcastle, Fulham, Aston Villa, Norwich e o Queen Park Rangers, considerados os favoritos da competição. Como no futebol o imponderável é algo extremamente comum, após a longa disputa do campeonato, o surpreendente Huddersfield Town conseguiu a façanha de classificar-se nos playoffs de acesso ao lado do Reading (3º colocado), Sheffield Wednesday (4º colocado), e Fulham (6º colocado), lembrando que o 5º colocado foi justamente o Huddersfield Town, enquanto o campeão Newcastle e o vice Brighton & Hove Albion subiram para a Premier League de maneira direta. A campanha dos comandados de David Wagner no torneio foi acima das expectativas, pois em 46 jogos realizados, o time registrou a marca de 25 vitórias, 6 empates e 15 derrotas, somando o total de 81 pontos na tabela.

Já qualificado nos playoffs, os Terriers sabiam que três partidas os separavam do sonho de retornar à Premier League, ou seja, havia ainda um longo caminho a percorrer, haja visto a pressão que é disputar esta fase da competição. Como terminou a Championship League na quinta posição, o Huddersfield Town encarou logo de cara o quarto colocado, Sheffield Wednesday, no primeiro confronto das semifinais do torneio. No jogo de ida, o empate por 0 a 0 em pleno John Smith’s Stadium (estádio do Huddersfield Town) dava indícios de que o time de David Wagner seria eliminado no jogo de volta, na casa do adversário. Nos noventa minutos finais, o Huddersfield Town arrancou um novo empate, desta vez por 1 a 1, através de muita garra, raça e disposição, levando a decisão para as fatídicas cobranças de pênaltis. Para a alegria de todos os Terriers espalhados pelos quatro cantos do planeta, a equipe bateu o Sheffield Wednesday por 4 a 3, garantindo assim sua vaga para a final dos playoffs, aonde iria enfrentar o Reading, que acabara de eliminar o Fulham do campeonato.

O palco da grande decisão dos playoffs da Championship League foi o glorioso estádio de Wembley, tomado por um público total de 76.682 pessoas. Tanto o Reading quanto o Huddersfield Town precisariam vencer a final para saber quem estaria na Premier League na próxima temporada. Outro detalhe que eu jamais poderia deixar de citar, é que estava também em jogo, a bagatela de 170 milhões de libras (algo em torno de 700 milhões de reais), valor pago aos clubes que disputam a competição. Em um breve resumo do duelo, posso afirmar que ambas equipes criaram pouquíssimas oportunidades, protagonizando uma das decisões mais fracas da história dos playoffs da Championship League. Com isso, o placar de 0 a 0 do tempo regulamentar se estendeu também até o término da prorrogação, fazendo com que as penalidades máximas entrassem novamente no caminho dos pupilos de David Wagner, e foi na cobrança do zagueiro alemão Chris Schindler que o Huddersfield Town garantiu seu regressou à elite do futebol inglês, quarenta e cinco anos depois de sua última participação no torneio.

Se juntarmos as cifras relacionadas a bilheterias, patrocínios e direitos de transmissão, esse montante pode chegar a 250 milhões de libras (1,05 bilhões de reais), porém isso tudo pode ser deixado de lado para os torcedores dos Terriers, pois não existe dinheiro no mundo que compre tamanha alegria gerada pelo retorno à elite do futebol inglês. Há 14 anos atrás, na temporada 2003/04 para ser mais específico, o Huddersfield Town disputava a League 2 (Quarta Divisão do Campeonato Inglês), e conseguiu subir para a Championship League apenas em 2012. Quem diria que agora o time está contando os segundos para entrar em campo pela Premier League, aliás, como a Primeira Divisão passou a ser chamada oficialmente de Premier League somente a partir de 1992, é possível afirmar que o Huddersfield Town disputará a liga pela primeira vez na história, sendo o 49º clube diferente a participar do torneio. Para não fazer feio em seu regresso, a diretoria já iniciou o planejamento para a próxima temporada, e o primeiro passo dado, foi a renovação do contrato do ídolo Dean Whitehead, de 35 anos, presente nos três últimos acessos da equipe. Diante de todas essas informações, e sabedores da linda trajetória do primeiro tricampeão inglês, o que resta no momento ao Huddersfield Town, é curtir cada segundo dessa nova etapa em sua vida.