Faltam apenas 11 dias para a estreia da Croácia em sua sétima Copa do Mundo. Um feito que ganha contornos ainda mais impressionantes quando lembramos da história recente do país. Afinal, a independência croata só foi conquistada em 1991, após o colapso da antiga Iugoslávia, e foi seguida por um dos conflitos mais sangrentos da Europa moderna. Mesmo com uma população inferior a quatro milhões de habitantes, a seleção balcânica transformou-se em uma das maiores forças do futebol internacional nas últimas décadas.
A trajetória croata em Copas do Mundo é uma das mais fascinantes da história recente do futebol. Desde sua primeira participação, em 1998, quando conquistou um surpreendente terceiro lugar na França, a Croácia passou a figurar entre os países mais respeitados do cenário mundial. O que parecia uma campanha isolada acabou se transformando em uma tradição competitiva que atravessou gerações e consolidou a identidade vencedora dos Bálcãs.
Nas últimas duas edições da Copa do Mundo, a Croácia escreveu alguns dos capítulos mais marcantes de sua história. Em 2018, na Rússia, chegou pela primeira vez à decisão do torneio, sendo derrotada pela poderosa França. Quatro anos depois, no Catar, voltou a surpreender o planeta ao alcançar as semifinais e terminar entre as quatro melhores seleções do mundo. Poucos países conseguiram apresentar tamanha regularidade em um período tão curto.
É verdade que a campanha na Eurocopa de 2024 ficou muito abaixo das expectativas. Inserida em um grupo extremamente complicado, que contava com Espanha e Itália, a Croácia acabou eliminada ainda na fase de grupos. O desempenho gerou questionamentos sobre o futuro daquela geração que tantas alegrias proporcionou aos torcedores croatas. Entretanto, o ciclo pós-Euro foi utilizado para corrigir problemas e reorganizar a seleção para o principal objetivo do quadriênio.

Se existe uma palavra capaz de definir esta seleção croata, essa palavra é experiência. Enquanto diversas seleções apostam na renovação de seus elencos, a Croácia chega à Copa do Mundo sustentada por jogadores que acumulam centenas de partidas internacionais. A maturidade competitiva tornou-se uma marca registrada da equipe comandada por Zlatko Dalic, que mais uma vez aposta na capacidade dos veteranos para enfrentar os desafios do torneio.
O principal símbolo dessa geração continua sendo Luka Modric. Aos 40 anos de idade, o lendário meio-campista prepara-se para disputar sua última Copa do Mundo. Maestro absoluto do time há mais de uma década, Modric permanece como referência técnica, tática e emocional para seus companheiros. Sua capacidade de controlar o ritmo das partidas, encontrar espaços e tomar decisões sob pressão segue sendo um diferencial que poucas seleções possuem no futebol mundial.
Ao lado de Luka Modric, outros nomes experientes continuam desempenhando papel fundamental. Mateo Kovacic retorna após um longo período afastado por lesão e chega com a missão de oferecer dinâmica e qualidade ao setor central. No ataque, Ivan Perisic segue sendo uma das lideranças do elenco, enquanto Andrej Kramaric permanece como uma importante referência ofensiva. Juntos, eles representam a espinha dorsal de uma equipe acostumada a disputar grandes competições.
A elevada experiência do elenco pode ser observada também através dos números. Entre todas as seleções europeias classificadas para a Copa do Mundo, apenas Áustria e Suíça apresentavam média de idade superior aos 29 anos da Croácia. Trata-se de um dado que evidencia claramente a filosofia adotada por Zlatko Dalic. Ao invés de promover uma renovação radical, o treinador optou por preservar jogadores que já provaram sua capacidade nos momentos mais decisivos.
Durante boa parte da última década, o meio-campo croata foi considerado um dos mais qualificados do planeta. A combinação formada por Luka Modric, Mateo Kovacic, Marcelo Brozovic e Ivan Rakitic proporcionava equilíbrio, criatividade e controle de jogo em altíssimo nível. Essa geração permitiu à Croácia competir de igual para igual contra qualquer adversário, independentemente do tamanho ou da tradição do oponente.

No entanto, com as aposentadorias de Marcelo Brozovic e Ivan Rakitic, uma nova responsabilidade surge para os remanescentes. Nesse contexto, a principal esperança de renovação atende pelo nome de Petar Sucic. Considerado uma das maiores promessas do futebol croata, o meio-campista da Inter de Milão oferece versatilidade ao setor central. Capaz de atuar como volante ou em posições mais avançadas, ele representa a ponte entre a geração histórica e o futuro da Croácia.
A presença de Petar Sucic amplia as possibilidades táticas da sleção croata. Graças às características do jovem meio-campista de 22 anos de idade, o técnico Zlatko Dalic consegue alternar o sistema entre o 4-2-3-1 e o 3-4-3 sem comprometer o equilíbrio coletivo. Essa flexibilidade tornou-se uma das principais armas da Croácia ao longo do ciclo de preparação para a Copa do Mundo. Dependendo do adversário, os Bálcãs foram capazes de adotar posturas mais ofensivas ou conservadoras sem perder sua identidade.
Os resultados obtidos durante as Eliminatórias reforçam o otimismo dos torcedores. A Croácia garantiu classificação como líder de sua chave de maneira invicta. Em oito partidas disputadas, conquistou sete vitórias e um empate, marcando 26 gols e sofrendo somente quatro. Em um grupo que contava com República Tcheca, Montenegro, Gibraltar e Ilhas Faroe, os croatas demonstraram superioridade técnica e consistência defensiva do início ao fim da campanha.
Agora, o desafio será ainda maior na Copa do Mundo. A Croácia está inserida no Grupo E, ao lado de Inglaterra, Panamá e Gana. A estreia acontecerá justamente contra os ingleses, em Dallas, em um confronto que poderá definir os rumos da chave. Segundo projeções da FIFA, trata-se do segundo grupo mais difícil da competição, tornando cada ponto conquistado extremamente valioso na luta pela classificação às oitavas-de-final.
Entretanto, se existe algo que a história recente ensinou ao futebol é que jamais se deve subestimar a Croácia. Foi a seleção croata que eliminou o Brasil na última Copa do Mundo e transformou mais uma vez o improvável em realidade. Acostumados a superar obstáculos dentro e fora dos gramados, os guerreiros balcânicos chegam aos Estados Unidos carregando o mesmo espírito competitivo que marcou sua trajetória.
E, liderados por Luka Modric em sua despedida dos Mundiais, os croatas sonham em escrever mais um capítulo inesquecível na história do mundo da bola.