Vinte e quatro anos. Este foi o período de espera da Turquia para voltar a disputar uma Copa do Mundo. Depois de marcar presença pela última vez no maior palco do futebol mundial em 2002, quando realizou uma campanha histórica e terminou na terceira colocação, a seleção dos Estrelas Crescentes está de volta ao torneio. E o retorno acontece em um momento extremamente promissor para o futebol turco, que atravessa um dos períodos mais interessantes de sua história recente graças ao surgimento de uma geração talentosa e tecnicamente diferenciada.
A lembrança da campanha realizada na Copa do Mundo de 2002 continua viva na memória dos torcedores turcos. Naquela oportunidade, a equipe comandada por Senol Gunes encantou o mundo ao alcançar as semifinais da competição, sendo eliminada apenas pelo campeão Brasil de Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho. Posteriormente, a Turquia ainda derrotou a Coreia do Sul na disputa pelo terceiro lugar e garantiu o melhor resultado de sua história em Mundiais. Desde então, o país passou por um longo período de reconstrução até finalmente retornar ao principal torneio do futebol internacional.
O processo de renovação do futebol turco ganhou força nos últimos anos graças ao surgimento de uma geração extremamente qualificada. Diversos jovens jogadores passaram a atuar em grandes centros do futebol europeu e elevaram consideravelmente o nível técnico dos Estrelas Crescentes. O resultado desse crescimento ficou evidente na Eurocopa de 2024, quando a Turquia protagonizou uma campanha bastante positiva e chegou às quartas-de-final da competição continental, ficando muito próxima de eliminar a Holanda e garantir uma vaga inédita entre as quatro melhores seleções da Europa.
A classificação para a Copa do Mundo de 2026 não foi simples. Apesar de apresentar um futebol consistente durante boa parte das eliminatórias, a seleção turca precisou disputar a repescagem para assegurar sua vaga no torneio. Sob pressão, os pupilos de Vincenzo Montella mostraram maturidade e superaram Romênia e Kosovo por 1 a 0, garantindo presença na competição que será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México. Foram vitórias apertadas, mas que demonstraram a capacidade competitiva de uma equipe acostumada a controlar as partidas através da posse de bola.

O sorteio da Copa do Mundo reservou à Turquia um desafio considerável. Inserida no Grupo D, considerado pela FIFA o grupo mais equilibrado do torneio, os Estrelas Crescentes terão pela frente adversários capazes de dificultar sua caminhada. A diferença relativamente pequena entre as seleções no ranking mundial demonstra o grau de competitividade da chave. Ainda assim, muitos especialistas enxergam os turcos como fortes candidatos a terminar a fase de grupos na liderança, muito em função da qualidade coletiva e do talento individual presente em seu elenco.
Uma das principais virtudes da equipe montada por Vincenzo Montella é justamente a sua capacidade de controlar os jogos através da construção desde o campo defensivo. A Turquia procura iniciar suas jogadas de forma organizada, valorizando a posse de bola e atraindo a pressão adversária para encontrar espaços entre as linhas. É uma seleção que não abre mão de jogar e que procura assumir o protagonismo mesmo diante de oponentes teoricamente mais fortes.
Nesse modelo de jogo, os zagueiros Samet Akaydin Bardakci e Ozan Kabak desempenham funções fundamentais. Ambos participam ativamente da saída de bola e contribuem para o início das criações ofensivas. Ao mesmo tempo, o volante Ismail Yuksek frequentemente recua entre os defensores para criar superioridade numérica na primeira fase da construção, permitindo que a seleção avance de maneira segura e organizada rumo ao campo adversário.
Os laterais também possuem papel determinante no funcionamento ofensivo da seleção turca. Zeki Celik pelo lado direito e Ferdi Kadioglu pela esquerda atuam como verdadeiros alas em diversos momentos das partidas. Os dois oferecem amplitude ao ataque, ocupam os corredores laterais e ajudam a esticar as defesas adversárias. Graças a essa característica, os meias encontram mais espaços para atuar por dentro e acelerar a circulação da bola nas proximidades da área.

Mas é do meio-campo para frente que reside o principal diferencial desta geração. O capitão Hakan Calhanoglu continua sendo o cérebro da equipe e o responsável por organizar grande parte das ações ofensivas. Ao seu lado aparecem dois talentos que simbolizam o futuro do futebol turco: Orkun Kokcu e Arda Guler. Juntos, eles oferecem criatividade, visão de jogo e qualidade técnica suficiente para desmontar sistemas defensivos bem organizados.
Entre todos os jogadores do elenco, Arda Guler talvez seja aquele que desperta maior expectativa. O jovem meia do Real Madrid reúne características raras para sua idade. Possui excelente leitura de jogo, grande capacidade de decisão no último terço do campo e uma qualidade técnica que lhe permite criar oportunidades mesmo em cenários de forte marcação. Não por acaso, muitos torcedores enxergam nele o jogador capaz de conduzir a Turquia a uma campanha histórica nesta Copa do Mundo.

Outro nome que merece atenção especial é Kenan Yildiz. O atacante da Juventus chega ao Mundial consolidado como uma das grandes promessas do futebol europeu. Extremamente habilidoso, ele gosta de encarar seus marcadores um contra um e constantemente procura criar desequilíbrios através do talento individual. O fato de ter liderado a Série A italiana em tentativas de dribles durante a última temporada evidencia sua personalidade ofensiva e sua disposição para assumir riscos em busca de jogadas decisivas.
Entretanto, nem tudo é perfeito na Turquia. O principal problema dos Estrelas Crescentes está justamente na ausência de um centroavante de referência. Desde a aposentadoria de Burak Yilmaz da seleção, em 2022, os turcos ainda não encontraram um substituto capaz de assumir definitivamente a função. Por essa razão, jogadores como Kerem Akturkoglu e o próprio Kenan Yildiz frequentemente se alternam ocupando a faixa central do ataque como falsos nove, buscando compensar a falta de um homem de área tradicional.
Em resumo, após mais de duas décadas longe dos Mundiais, a Turquia retorna ao torneio cercada por expectativas e confiança. Regidos por Vincenzo Montella à beira do campo, os Estrelas Crescentes apresentam um futebol ofensivo, técnico e agradável de assistir. Se conseguir manter o equilíbrio defensivo e encontrar soluções para a ausência de um centroavante de referência, a seleção turca possui condições reais de avançar às fases eliminatórias e transformar-se em uma das grandes surpresas da Copa do Mundo de 2026.