Foram longos e árduos 36 anos de espera, para que enfim o povo peruano pudesse comemorar o retorno de sua seleção a uma Copa do Mundo. Essa histórica façanha, foi confirmada na madrugada desta quinta-feira, quando o Peru derrotou a Nova Zelândia por 2 a 0 na repescagem das Eliminatórias, e assim, conquistou a trigésima segunda e última vaga do Mundial da Rússia. Desta maneira os rojiblancos terão a chance de disputar a sua quinta Copa do Mundo ao longo da história, já que eles também participaram dos Mundiais de 1930, 1970, 1978 e 1982.
Os peruanos que nasceram depois do ano de 1982, jamais tiveram a oportunidade de ver a seleção nacional participando de uma Copa do Mundo, portanto, a partir desta informação, fica nítida a enorme pressão pela qual os comandados de Ricardo Gareca passaram durante todos estes últimos anos. Mesmo com uma tonelada de peso nas costas, tendo de disputar a complicadíssima Eliminatória Sul-Americana, aonde se depararam com uma série de adversários superiores tecnicamente, além de perderem seu maior craque justamente na fase decisiva (repescagens), os Incas tiveram forças para vencer todos estes contratempos, e para o delírio de toda a nação peruana, carimbaram seu passaporte rumo à Rússia.
Antes do início das Eliminatórias Sul-Americanas, poucas pessoas imaginavam que o Peru conquistaria uma vaga na Copa do Mundo, afinal, os Incas teriam pela frente fortes concorrentes como Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e Uruguai, seleções estas, que eram consideradas as grandes favoritas do torneio. Além disso, o retrospecto recente do Peru nas Eliminatórias era realmente grotesco, o melhor desempenho da equipe ocorreu na edição de 1998, quando os peruanos foram superados pelos chilenos por conta do saldo de gols, ficando assim, de fora da repescagem. De resto, o Peru obteve péssimas performances, incluindo a Eliminatória da Copa 2010, competição em que o time ficou na última posição da tabela, atrás até dos modestos selecionados de Bolívia e Venezuela.

Mesmo sabendo que teria de encarar diversos obstáculos, montar uma série de quebra-cabeças e descascar muitos abacaxis, em fevereiro de 2015 o treinador Ricardo Gareca aceitou o desafio de comandar a seleção peruana, após uma passagem apagada pelo Palmeiras. O casamento entre o treinador argentino e a seleção peruana deu mais do que certo, já que o treinador de 59 anos foi um dos principais responsáveis pela classificação do Peru à Copa do Mundo. Digo isso pois os Incas terminaram sua participação nas Eliminatórias Sul-Americanas na 5ª posição da tabela com 26 pontos ganhos, contabilizando 7 vitórias, 5 empates e 6 derrotas em 18 partidas realizadas pela competição, obtendo assim, 48,1% de aproveitamento no torneio. Vale ressaltar ainda, que o Peru conseguiu a façanha de chegar nas semifinais da Copa América 2015, aonde perdeu do então campeão Chile (2 x 1), além de ter chegado nas quartas de finais na Copa América Centenário 2016, quando foi eliminado pela Colômbia nas dramáticas cobranças de pênaltis (4 x 2), porém foi o líder do grupo A, no qual estavam as seleções do Brasil, Equador e Haiti.

Na fase de repescagem, o Peru teve de enfrentar dois adversários, me refiro a Nova Zelândia e a desgastante viagem até o país da Oceania. No jogo de ida, realizado no sábado passado, na cidade de Wellington, capital neozelandesa, ambas as equipes tiveram oportunidades de sair de campo com a vitória, porém nenhuma delas teve a capacidade de acertar o alvo do oponente, e no final da partida, o zero predominou no placar.
Já no jogo de volta, disputado em Lima, na madrugada desta quinta-feira, o Peru novamente teve pela frente dois concorrentes, a Nova Zelândia e a enorme pressão de sua torcida, sedenta pela última vaga da Copa da Rússia. Diante de um gigantesco ferrolho armado pelo treinador do conjunto neozelandês, Anthony Hudson, os Incas precisaram usar o talento individual de seus atletas para passar pela retranca dos All Whites. Foi assim que aos 27 minutos do primeiro tempo, o experiente Jefferson Farfán abriu o marcador, depois de uma excelente jogada do são-paulino Christian Cueva. Contudo, o tento da classificação veio mesmo aos 19 minutos da etapa final, através de um petardo disparado pelo zagueiro Christian Ramos, após cobrança de escanteio.

Apesar da péssima gestão da FPF (Federação Peruana de Futebol), que não dá a mínima atenção para a liga nacional, uma das mais fracas do continente sul-americano, não investe nos precários estádios do país, e muito menos nos clubes, que estão cada vez mais pobres, a seleção do Peru foi capaz de conquistar a última vaga para a Copa da Rússia, méritos totais dos talentosos jogadores peruanos e claramente do treinador Ricardo Gareca. Um time formado em sua maioria por atletas que atuam na fraca liga local, que não tem o privilégio de contar com nenhum Lionel Messi, Neymar, James Rodríguez, Luis Suárez ou Alexis Sánchez, mas que tem como marca registrada a entrega, a dedicação e o trabalho em equipe, só poderia mesmo alcançar o sucesso, que não é uma mera coincidência, basta lembrarmos que os rojiblancos não perdem um único jogo desde novembro do ano passado, ou seja, há exato um ano. Nem mesmo a La Bambonera, impulsionada por fanáticos argentinos, foi capaz de derrubar o Peru. Atualmente, o que vimos é um país mobilizado em torno de sua seleção, um povo que veste a camisa com orgulho, e que acredita que o futebol não é somente um esporte, e sim uma paixão. São estes os motivos que levaram o presidente Pedro Pablo Kuczynski, a decretar feriado nacional nesta quinta-feira, e são exatamente estes motivos que também podem levar o Peru a alçar altos vôos na próxima Copa do Mundo.