A seleção venezuelana sempre foi conhecida por seus grandes fiascos, afinal, era a verdadeiro saco de pancadas das Eliminatórias Sul-Americanas. Era super normal vermos a Venezuela sofrendo goleadas, seja lá qual fosse o adversário, que por sua vez, sonhavam em enfrentá-la justamente para somar pontos. Mas tudo isso tinha um motivo, os esportes prediletos dos venezuelanos eram o beisebol e o basquete, enquanto o futebol praticamente não existia. Com o passar dos anos as coisas foram mudando, e se transformaram a tal ponto, de que hoje o futebol é disputado em todos os cantos da Venezuela, tanto é, que a Vinotinto (vinho tinto – apelido da seleção da Venezuela) deixou de ser uma mera coadjuvante nas competições, para tornar-se um oponente bastante perigoso.
Uma prova disso é que a Venezuela conseguiu avançar até às quartas de finais da última edição da Copa América, realizada nos Estados Unidos, no ano passado. Na ocasião, a Vinotinto acabou sendo eliminada pela Argentina, que terminou o torneio com o vice-campeonato. Já nas Eliminatórias Sul-Americanas, o selecionado venezuelano ocupa somente a lanterninha da competição com míseros 6 pontos ganhos, colecionando 1 vitória, 3 empates e 10 derrotas em 14 partidas disputadas, ou seja, com apenas 14,3% de aproveitamento as chances da equipe comandada pelo lendário Rafael Dudamel, ex-goleiro da seleção, classificar-se para a Copa do Mundo da Rússia em 2018, são remotíssimas. Mesmo assim, o entusiasmo e a esperança tomam conta de toda a nação venezuelana, digo isso, devido ao excelente desempenho dos petroleiros no Mundial Sub-20, realizado na Coréia do Sul, aonde os garotos venezuelanos brilharam e mostraram ao mundo que uma excelente geração está nascendo nos gramados do país.

A Copa do Mundo Sub-20 ou então Mundial Sub-20, é um torneio disputado desde 1977, realizado a cada dois anos. Além de ter como principal meta revelar novos talentos para o futebol, é também uma referência para sabermos como andam as futuras gerações dos diversos países espalhados pelos quatro cantos do planeta. No último Mundial da categoria (2015), tivemos a surpreendente Sérvia como campeã e por pouco nesta edição da competição não vimos a Venezuela erguendo o troféu do mundialito. Comandados pelo treinador Rafael Dudamel, a jovem equipe venezuelana já deu mostras de que não era favas contadas desde o início do torneio, quando deixaram para trás as seleções do México, da Alemanha e do Vanuatu, registrando a incrível marca de 100% de aproveitamento na fase de grupos. Em seguida, a Vinotinto eliminou o Japão (oitavas de finais), os Estados Unidos (quartas de finais) e o Uruguai (semifinais), todos estes atuais campeões continentais. Na grande decisão, a Venezuela teve pela frente a forte seleção da Inglaterra, e após uma final disputadíssima, os ingleses venceram pelo placar mínimo, graças ao gol de Dominic Calvert-Lewin, revelação do Everton. Os pupilos de Rafael Dudamel ainda tiveram a oportunidade de empatar aos 29 minutos da segunda etapa, quando o maior destaque do time, Alberto Peñaranda, sofreu um pênalti, porém o próprio camisa 7 desperdiçou a cobrança defendida por Freddie Woodman, eleito o melhor goleiro do campeonato.

Vale ressaltar, que no Sul-Americano Sub-20, realizado em janeiro deste ano no Equador, a Venezuela se destacou demasiadamente, brigando pelo título até o final da competição, aonde inclusive tirou a vaga do Brasil, na época dirigido por Rogério Micale. Todo esse sucesso do selecionado venezuelano é consequência de um trabalho iniciado há dois anos, que teve como grande êxito a integração da seleção principal com o conjunto sub-20, ambos sendo comandados por Rafael Dudamel. Durante este período, as equipes utilizaram o Centro de Alto Rendimento em Margarita, e receberam um bom aporte financeiro do governo para a realização das atividades. Atletas da liga nacional treinavam constantemente no local sob os olhares do exigente Dudamel, e posteriormente estes jogadores se juntavam aos demais que atuam na Europa. O vice-campeonato do Mundial Sub-20 foi a melhor campanha do país em competições organizadas pela FIFA até hoje na história, lembrando que as maiores façanhas alcançadas até hoje pela Vinotinto foram os títulos dos extintos Jogos Centro-Americanos e do Caribe em 1982 e em 1998, além da medalha de prata nos Jogos Sul-Americanos de 1994. No continente sul-americano, somente a Argentina (6 títulos) e o Brasil (5 títulos) conseguiram conquistar a Copa do Mundo Sub-20.

O torneio foi realizado justamente no momento em que a Venezuela vive a maior crise política de sua história, que se estendeu por decorrência do péssimo governo chavista, composto pelos ditadores Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Além da falta de alimentos e medicamentos, existem também diversos presos políticos, portanto é correto afirmar que não se trata apenas de uma crise política e econômica, mas sim humanitária. A situação dos venezuelanos segue tensa, com os apoiadores do governo bolivariano lutando pela permanência de Maduro, enquanto a grande maioria da população se manifesta contra o regime atual, pedindo a saída do governante através de uma eleição. Mesmo diante de toda essa atmosfera, o povo venezuelano teve a oportunidade de se unir e voltar a sorrir pelo menos por alguns instantes com a sua seleção sub-20, fato que comprova novamente que o futebol é capaz de levar a paz aonde quer que seja. Depois de conseguir a classificação para o Mundial sub-17 e o sub-20, a Vinotinto tem um futuro brilhante pela frente, e não será nenhuma surpresa vê-los disputando a Copa do Mundo do Qatar em 2022.