Há dois anos, o ex-meio-campista da seleção espanhola, campeão mundial de 2010 e europeu em 2008 e 2012, Cesc Fàbregas, iniciava a carreira como treinador ao assumir o comando técnico do Como — na segunda divisão italiana — ao substituir Moreno Longo apesar da sexta posição na tabela da Serie B.
A propósito, é importante salientar que Cesc Fàbregas foi registrado como assistente-técnico do atual chefe de desenvolvimento do Como, Osian Roberts, por não ter todas as licenças de treinador da UEFA. De qualquer maneira, uma aposta arriscada que cumpriu totalmente as expectativas, a julgar pelo retorno dos Biancoblù à elite do futebol italiano após duas longas décadas nas divisões inferiores, devido a vice-colocação na edição 2023-24 da Serie B.
E como não poderia deixar de ser, a meta do Como — assim como a de qualquer clube recém-promovido — era evitar o descenso no ano seguinte ao regresso à Serie A. Todavia, os pupilos de Cesc Fàbregas não apenas se livraram da degola, como acabaram o campeonato na décima posição separados a 18 pontos do primeiro rebaixado Empoli, através de um estilo de jogo propositivo, com ênfase na posse de bola, na construção de jogadas a partir da defesa e na busca por passes verticais,
Em todo caso, um modelo de jogo que não surpreende em se tratando de uma equipe comandada por um treinador que, ao longo da trajetória dentro das quatro linhas, defendeu as cores de Barcelona e Arsenal, “bebendo da mesma fonte” de Arsène Wenger e Pep Guardiola. Não à toa, é comum vermos os jogadores do Como se movimentando de forma rápida e intensa, sempre sabendo o que fazer, quais espaços ocupar, e como sair de situações adversas.

À vista disso, o nome de Cesc Fàbregas entrou no radar de diversos clubes após o término da temporada anterior, dentre eles, Bayer Leverkusen e Inter de Milão. Entretanto, o treinador do Como decidiu permanecer no clube para dar continuidade ao ambicioso e, financeiramente sólido, projeto esportivo sustentado pelo Djarum Group, que o administra desde 2019, lembrando que além de liquidar dívidas, o conglomerado indonésio investiu pesado na parte de infraestrutura com a construção de novos campos de treinamento e até de um restaurante para os jogadores.
Vale ressaltar ainda que o planejamento do Djarum Group vai além da esfera esportiva, já que um dos principais tópicos visa transformar tanto o clube quanto a cidade num destino turístico global e uma marca de estilo de vida de luxo, obviamente, alavancando a beleza do Lago de Como, bem como a presença constante de celebridades e ex-atletas renomados como, por exemplo, os seus acionistas minoritários Thierry Henry e o próprio Cesc Fàbregas.
Ademais, apesar da fortuna dos indonésios à disposição, o Como adotou uma estratégia bastante inteligente no que diz respeito ao recrutamento de jogadores, priorizando a busca por jovens com grande potencial de crescimento que, é claro, se enquadram no sistema de jogo de Cesc Fàbregas, tudo por intermédio de amplas e eficientes análises de dados. E o resultado se vê mediante as ascenções de Nico Paz, ex-Real Madrid, e Massimo Perrone, contratado nessa temporada junto ao Manchester City.
E por falar em Nico Paz, que verdadeira jóia o Como descobriu. Depois de um primeiro ano brilhante no clube italiano, o camisa 79 evoluiu ainda mais na atual, vide os 5 gols e cinco assistências concedidas por ele em 14 aparições até então, seja atuando como meia, seja atuando como um falso 9 no ataque. Isso explica porque o Real Madrid acionará a cláusula de recompra prevista em seu contrato no final da temporada.
Além de Nico Paz e Máximo Perrone, as recentes contratações dos novatos Nicolas Kühn (Celtic), Jesús Rodríguez (Betis), Martin Baturina (Dinamo Zagreb), Álex Valle (Barcelona), Ignace van der Brempt (Salzburg), Jayden Addai (AZ Alkmaar), Luca Mazzitelli (Frosinone), Jacobo Ramón e Fellipe Jack (Palmeiras), todos escolhidos a dedo por Cesc Fàbregas, comprovam o quão o projeto do Como é focado num crescimento sustentável a longo prazo, com uma identidade de jogo clara.
Por essa razão, os mais de cem milhões de euros despejados pelo Como, que o coloca como o quinto clube que mais gastou no futebol italiano na última janela de transferências, acabam valendo cada centavo investido, haja vista a 5ª colocação dos Biancoblù após o desfecho da 13ª rodada da Serie A. Ou seja, um simples retrato de que eles estão brigando diretamente por uma vaga na Champions League.
O campeonato mais equilibrado do mundo, é ou não é, @sfpepior? 📊 pic.twitter.com/2uLA1ZIWeM
— Lega Serie A (@SerieA_BR) December 1, 2025
Aliás, outro detalhe relevante sobre a incrível campanha do Como é a atual sequência de 12 jogos consecutivos sem derrotas. Para se ter uma ideia, os Biancoblù não perdem desde a derrota pelo placar mínimo frente o Bologna há exatos três meses — no caso, a única até aqui na temporada. De lá pra cá, foram seis vitórias e seis empates obtidos, com 20 gols marcados e apenas seis sofridos no período.
Já considerando somente a Serie A, o triunfo da rodada passada por 2 a 0 sobre o Sassuolo resultou no 11º jogo seguido do Como sem perder, o que o fez igualar sua melhor série invicta desde a temporada 1985-86, quando o time na época liderado por Emiliano Mondonico — e que terminou a competição na nona colocação naquela oportunidade — colecionou o total de oito empates e três vitórias.
Isto posto, embora ainda não estejamos nem ao menos na metade da temporada, já é possivel afirmar com todas as letras que o Como brigará por uma vaga no G-4 e, muito provavelmente, finalizará o campeonato com a melhor campanha na Serie A desde a sua fundação há 118 anos, marcada pelo sétimo lugar em 1950, o que significa que o principal objetivo de disputar competições internacionais, enfim, será alcançado após a única e última participação na extinta Copa Mitropa na década de 80.
Então, aos que ainda perguntam: mas, como? O Como é a resposta de que com organização, planejamento e trabalho, é possível para qualquer clube alcançar o sucesso no futebol. Cesc Fàbregas que o diga!