Um ano depois do título: o Newcastle evoluiu ou o projeto saudita perdeu força?

Há exatamente um ano os Magpies viviam um dos momentos mais marcantes de sua história recente. A conquista da Copa da Liga Inglesa representou muito mais do que um simples troféu em uma competição considerada secundária no calendário do futebol inglês. Para os torcedores, aquele título simbolizou o fim de uma espera que já durava sete décadas. Setenta anos sem levantar uma taça oficial criaram uma ferida histórica no clube e na cidade. Por isso, quando o troféu finalmente chegou, o sentimento foi de libertação coletiva. Era a confirmação de que o Newcastle, agora sob nova gestão, havia voltado a acreditar em dias maiores.

O título também serviu como um marco dentro do novo ciclo iniciado após a compra do Newcastle pelo fundo de investimentos da Arábia Saudita, há quatro anos e meio. Desde então, o clube passou por uma transformação estrutural importante, deixando de lutar contra o rebaixamento para se tornar presença constante nas primeiras posições da Premier League. Nesse período, os Magpies chegaram a duas finais de copa, conquistaram um título e conseguiram se classificar duas vezes para a Champions League. Resultados que indicam evolução, mas que também mostram que o crescimento do projeto tem sido mais gradual do que muitos imaginavam no momento da aquisição.

Essa evolução relativamente lenta também se explica por fatores estruturais que ainda estão em progresso. Um dos pilares do novo Newcastle é a construção de um moderno centro de treinamento, planejado para ser erguido nas proximidades do aeroporto da cidade. A obra representa um investimento estratégico para elevar o nível de preparação e desenvolvimento de atletas, o aproximando das grandes potências da Premier League. Entretanto, o projeto ainda não foi concluído, o que simboliza bem o estágio atual dos Magpies: um clube em expansão, mas que ainda não consolidou completamente sua nova identidade.

Outro ponto central dessa transformação envolve o futuro do histórico St. James’ Park. O estádio, um dos mais tradicionais do futebol inglês, também está no centro dos debates sobre o futuro do clube. A diretoria avalia duas possibilidades: realizar uma profunda modernização da estrutura atual ou, em um cenário mais radical, demolir o estádio e construir outro no mesmo local. Até o momento, nenhuma decisão definitiva foi tomada. Essa indefinição mostra que o Newcastle ainda busca encontrar o equilíbrio entre preservar sua tradição e acompanhar a evolução estrutural exigida pelo futebol moderno.

Dentro de campo, o objetivo sempre foi claro: inserir o Newcastle no chamado “Big Six” do futebol inglês. Esse grupo tradicional formado por Manchester City, Manchester United, Liverpool, Arsenal, Chelsea e Tottenham domina historicamente as vagas europeias e os grandes investimentos da liga. O plano dos novos proprietários era transformar esse cenário em um possível “Big Seven”, com os Magpies ocupando espaço entre os gigantes. Contudo, apesar dos avanços, esse objetivo ainda não foi alcançado. O clube continua competitivo, mas ainda luta para se firmar de maneira definitiva entre as principais potências da Premier League.

A conquista da Copa da Liga poderia ter sido o impulso definitivo para essa transformação. Muitos imaginavam que aquele título serviria como ponto de virada para uma nova fase do clube. Todavia, um ano depois, a realidade mostra que o impacto esportivo da conquista foi menor do que se imaginava. O Newcastle não conseguiu dar o salto de qualidade necessário para se estabelecer definitivamente entre os protagonistas do futebol inglês. A sensação é de que ele avançou, mas não na velocidade que o novo investimento financeiro fazia supor.

Um dos episódios que simboliza esse momento foi a saída do atacante Alexander Isak para o Liverpool. O sueco havia se tornado um dos grandes ídolos recentes do Newcastle, especialmente após marcar o gol do título contra o próprio Liverpool na final da Copa da Liga. Muitos imaginavam que ele seria um dos pilares desta nova era no St. James’ Park. Em contrapartida, sua decisão de forçar uma transferência revelou que nem todos os jogadores estavam dispostos a permanecer no projeto de longo prazo dos Magpies. A saída de Isak deixou uma lacuna importante no elenco e trouxe questionamentos sobre o poder de retenção do clube.

Em contraste, outros jogadores optaram por seguir comprometidos com o projeto. Bruno Guimarães, Joelinton e Sandro Tonali se consolidaram como referências do elenco e demonstraram disposição em construir uma trajetória duradoura no clube. Esses atletas passaram a representar a base da nova identidade competitiva do Newcastle, assumindo papéis de liderança dentro e fora de campo. A permanência desse núcleo foi fundamental para manter a estabilidade do time, mesmo em meio a um período de mudanças e incertezas.

Apesar disso, o mercado de transferências do último verão foi decepcionante para os torcedores. O Newcastle enfrentou dificuldades significativas para convencer alguns de seus principais alvos a aderirem ao projeto. Jogadores como João Pedro, que acabou escolhendo o Chelsea, e Benjamin Sesko, que preferiu se transferir para o Manchester United, recusaram a possibilidade de atuar no St. James’ Park. Essas recusas expuseram uma realidade incômoda: apesar do crescimento financeiro, os Magpies ainda não possuem o mesmo poder de atração que os clubes mais tradicionais da liga.

Diante dessas dificuldades, o clube acabou recorrendo a contratações consideradas emergenciais. A mais significativa foi a chegada de Nick Woltemade, contratado junto ao Stuttgart por cerca de 75 milhões de euros, tornando-se asegunda contratação mais cara da história do Newcastle. Inicialmente visto como substituto natural de Isak no comando do ataque, o jogador teve um início promissor, marcando seu primeiro gol após apenas seis finalizações. Entretanto, seu rendimento caiu rapidamente e, nas últimas partidas, o técnico Eddie Howe chegou a utilizá-lo até como meia ofensivo. Atualmente, ele perdeu espaço para o jovem William Osula, que ganhou a titularidade.

Outro reforço que ainda não correspondeu às expectativas foi Yoane Wissa, contratado junto ao Brentford por 57,7 milhões de euros. O jogador chegou com a missão de reforçar o setor ofensivo atuando aberto pelos lados, oferecendo velocidade e profundidade ao ataque. Contudo, uma lesão o afastou dos gramados por cerca de três meses, prejudicando completamente sua adaptação ao clube. Como consequência, Wissa participou como titular em apenas uma das últimas quatorze partidas da equipe, ficando muito aquém do protagonismo esperado para um investimento desse porte.

Entre os reforços contratados, quem melhor conseguiu se adaptar foi o zagueiro Malik Thiaw, que rapidamente encontrou espaço na equipe e demonstrou consistência defensiva. Jacob Ramsey ainda passa por um processo de adaptação ao sistema de jogo de Eddie Howe, mas já apresenta sinais claros de evolução. Já Anthony Elanga tem sido um dos jogadores mais efetivos do setor ofensivo nas últimas partidas, contribuindo com velocidade e intensidade pelas pontas. Mesmo assim, essas boas atuações isoladas ainda não foram suficientes para transformar o desempenho coletivo do time.

O cenário atual levanta uma pergunta inevitável: até onde pode chegar o Newcastle nesta temporada? O clube ocupa atualmente a nona posição na Premier League, com uma campanha marcada pelo equilíbrio negativo entre resultados positivos e derrotas. São 12 vitórias, 12 derrotas e 6 empates, o que representa um aproveitamento de apenas 40% de vitórias na competição — índice inferior aos 47% registrados desde a chegada do investimento saudita em 2023. Nas copas, o desempenho foi ligeiramente melhor, com semifinal na Copa da Liga e eliminação na quinta fase da FA Cup diante do Manchester City. Na Champions League, o empate em 1×1 contra o Barcelona no jogo de ida das oitavas representa um feito histórico, já que é a primeira vez que o clube alcança essa fase do torneio continental.

Seja como for, o elevado número de partidas disputadas também tem cobrado seu preço. Com 49 jogos realizados na temporada, o Newcastle é atualmente o clube com maior número de partidas entre as cinco principais ligas europeias. Esse calendário extremamente exigente tem impactado diretamente o desempenho físico e técnico da equipe. O desgaste acumulado ajuda a explicar a irregularidade de resultados na Premier League e reforça a percepção de que o plantel ainda precisa ganhar profundidade para sustentar ambições maiores.

O futuro imediato do Newcastle, portanto, permanece cercado de incertezas. A prioridade dos pupilos de Eddie Howe neste momento é garantir uma vaga em competições europeias na próxima temporada, algo essencial para manter o prestígio do projeto e continuar atraindo jogadores de alto nível. Uma vaga na Champions League parece distante, mas a Europa League ainda é uma possibilidade realista. Além disso, já se especula internamente sobre uma grande reformulação do elenco no próximo verão europeu. Os Magpies continuam em construção, buscando transformar investimento em conquistas consistentes. A questão que permanece é se o clube conseguirá acelerar esse processo ou se continuará avançando passo a passo em sua tentativa de se tornar uma nova potência inglesa.

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