Após recolocar os giallorossi na Champions League, treinador ganha reforços importantes, goleia a Fiorentina e inicia sua segunda temporada de olho no Scudetto.
A primeira temporada de Gian Piero Gasperini no comando da Roma terminou de maneira indiscutivelmente positiva, visto que a terceira colocação na Serie A devolveu o clube à Champions League depois de sete longos anos de ausência. Mais do que cumprir um objetivo esportivo, a classificação representou a reconstrução da confiança de uma torcida acostumada a viver entre grandes expectativas e frequentes frustrações.
Contratado há um ano, após uma passagem histórica pela Atalanta, o Gian Piero Gasperini chegou à capital italiana carregando ideias próprias e uma identidade impossível de confundir. Em poucos meses, transformou um conjunto irregular em uma equipe competitiva, intensa e consciente daquilo que deveria fazer dentro de campo. Como nas antigas construções romanas, o primeiro passo não foi erguer monumentos, mas estabelecer alicerces suficientemente resistentes para suportar o peso de uma nova ambição.
A mudança começou pela estrutura tática, sustentada por uma linha de três defensores e pelas variações do tradicional 3-4-1-2. Gian Piero Gasperini implantou encaixes individuais, pressão adiantada e participação constante dos alas, exigindo coragem mesmo diante dos adversários mais qualificados. O resultado apareceu principalmente na retaguarda, setor que se tornou a maior virtude dos giallorossi ao longo da campanha. Poucos espaços foram oferecidos, as coberturas ganharam precisão e cada atleta passou a compreender sua responsabilidade longe da bola. Entretanto, essa proposta cobra um preço físico elevado, pois qualquer atraso na perseguição pode desorganizar todo o bloco e deixar o goleiro exposto. A solidez, portanto, não nasceu de uma postura conservadora, mas de um mecanismo agressivo no qual defender significa atacar o portador antes que o perigo consiga avançar.

Outro mérito de Gian Piero Gasperini foi rejuvenecer o elenco sem transformar juventude em sinônimo de ingenuidade. A média de idade ficou próxima dos 25 anos, colocando a Roma entre os plantéis mais novos das principais forças italianas. Essa característica ofereceu vigor para pressionar, velocidade nas transições e disponibilidade física para sustentar confrontos intensos. Ao mesmo tempo, nomes experientes permaneceram fundamentais na orientação dos talentos que ainda estão construindo suas trajetórias. O equilíbrio entre energia e maturidade permitiu que a formação crescesse justamente quando a temporada entrou em sua fase mais delicada. Em uma cidade fundada, segundo a tradição, por Rômulo em 753 antes de Cristo, renovar sem apagar as próprias raízes sempre foi uma espécie de vocação histórica.
A arrancada na reta final da última temporada confirmou que o trabalho havia deixado de ser apenas promissor para se tornar verdadeiramente competitivo. Cinco vitórias consecutivas mudaram o cenário da corrida pelas primeiras posições e permitiram a ultrapassagem sobre rivais poderosos. Juventus e Milan ficaram para trás enquanto os giallorossi conquistavam o direito de retornar ao maior palco continental. Não houve uma revolução repentina, mas a consolidação de um processo que ganhou força à medida que os jogadores assimilaram as ideias da comissão. O terceiro lugar simbolizou uma conquista importante, embora não pudesse representar o ponto definitivo de chegada. Depois de abrir novamente os portões da Champions League, seria inevitável perguntar quando esse projeto teria condições de disputar também o trono nacional.
A resposta inicial da nova temporada foi tão contundente quanto o placar de 4 a 0 sobre a Fiorentina no Estádio Olímpico. Donyell Malen marcou um hat-trick, Paulo Dybala ofereceu três assistências e Niccolò Pisilli completou uma atuação de enorme autoridade coletiva. O resultado não valeu apenas pelos pontos, pois atacou diretamente a principal fragilidade apresentada no campeonato anterior. Se antes havia organização para resistir, mas pouca inspiração para romper defesas fechadas, agora apareceram mobilidade, criatividade e contundência. A Viola foi sufocada por uma pressão alta que dificultou sua saída e concedeu aos donos da casa o domínio territorial. Foi somente a primeira batalha, mas Roma aprendeu ao longo dos séculos que certas demonstrações públicas de força também servem para intimidar os próximos adversários.
Finisce così 🔚
— AS Roma (@OfficialASRoma) August 24, 2026
Vinciamo 4-0 con i gol di Malen (3) e Pisilli 💛❤️#RomaFiorentina pic.twitter.com/Yn2RqLmALG
Donyell Malen personificou essa transformação ofensiva ao converter oportunidades com a frieza de quem parece ter encontrado o ambiente ideal. Adquirido definitivamente do Aston Villa por aproximadamente 25 milhões de euros, o neerlandês deixou de ser uma aposta temporária para assumir protagonismo. Sua velocidade ataca a profundidade, enquanto a movimentação abre corredores para os companheiros que chegam de trás. Contra a Fiorentina, cada passe de Paulo Dybala encontrou um atacante capaz de compreender o espaço antes mesmo que ele surgisse. Essa sintonia entre inteligência e aceleração oferece à Roma algo que faltou em muitos momentos da campanha passada: imprevisibilidade no último terço. Se o camisa 14 mantiver semelhante eficiência, Gian Piero Gasperini terá uma arma capaz de transformar equilíbrio em vantagem antes que o oponente consiga reorganizar suas linhas.
Paulo Dybala, por sua vez, continua sendo o artista responsável por dar beleza e significado ao sistema. As três assistências na estreia demonstraram que seu talento permanece decisivo quando o corpo permite uma sequência adequada de jogos. Ele não precisa controlar todas as ações, pois sua principal virtude está em interpretar o instante exato para acelerar uma jogada. A liberdade concedida atrás dos atacantes aproxima o craque da área e reduz deslocamentos desnecessários, preservando-o para os lances determinantes.
No entanto, a dependência técnica em relação ao meia argentino ainda exige cautela diante de seu conhecido histórico de problemas físicos. Toda grande legião necessita de um estrategista, mas nenhuma campanha pode depender exclusivamente da presença de uma única peça do tabuleiro.
Por esse motivo, a contratação de Rodrigo Mora representa uma das decisões mais interessantes do mercado romanista. O português de 19 anos de idade chegou do Porto por uma quantia situada na casa dos 25 milhões de euros e carrega enorme potencial criativo.
Sua capacidade de atuar entre as linhas, conduzir em espaços curtos e encontrar passes improváveis amplia as alternativas para o setor central. Além de dividir responsabilidades com Paulo Dybala, o jovem pode funcionar como sucessor gradual do argentino sem precisar assumir imediatamente um fardo desproporcional. Trata-se de um investimento no presente, mas também de uma escolha direcionada ao futuro esportivo e financeiro da instituição.
Poucos concorrentes da Serie A conseguiram acrescentar à própria engrenagem uma promessa com semelhante combinação de técnica, personalidade e margem de evolução.
O maior investimento da janela foi Santiago Castro, adquirido do Bologna por cerca de 35 milhões de euros, além de bônus. O atacante argentino entrega mobilidade, agressividade e disposição para participar da pressão desde o primeiro passe adversário. Sua chegada oferece uma alternativa a Donyell Malen e permite que a comissão varie a composição ofensiva conforme o comportamento de cada rival.
🚨A Roma chega a acordo para contratar Santiago Castro como novo atacante, aqui vamos nós!
— Central AS Roma (@CentralASRoma) July 27, 2026
Acordo fechado por taxa de pacote no valor de €35 milhões, conforme relata @CLMerlo — acordo em vigor entre todas as partes.
Castro, agendado para exames médicos na Roma nos próximos… pic.twitter.com/fIouVJQkYd
Já Nahuel Molina, contratado junto ao Atlético de Madrid por 13 milhões de euros, acrescenta experiência internacional e profundidade pelo corredor direito. Por fim, Daniele Ghilardi, desembarcou na capital vindo do Hellas Verona por cerca de 8 milhões de euros, ampliando assim as opções para uma defesa submetida a enorme desgaste durante o calendário. As movimentações não parecem resultado de uma coleção aleatória de nomes, mas de uma estratégia desenhada para corrigir necessidades específicas do modelo.
É justamente esse planejamento que ajuda a explicar por que a Roma aparece como a principal ameaça à Inter de Milão. A atual campeã continua possuindo o grupo mais experiente, poderoso e acostumado a enfrentar decisões dentro e fora da Itália. Contudo, Milan, Juventus, Napoli e Lazio atravessam processos de reformulação ou convivem com incertezas que podem cobrar pontos preciosos. Os giallorossi, em contraste, preservaram a espinha dorsal, mantiveram o treinador e acrescentaram qualidade aos setores que pediam evolução. Continuidade não garante títulos, porém diminui o tempo necessário para que conceitos antigos e novas características consigam conviver. Ao passo que alguns adversários ainda procuram uma identidade, os pupilos de Gian Piero Gasperini começam sua jornada sabendo exatamente quem são e como pretendem lutar.
O futebol de Gian Piero Gasperini exige coragem porque transforma quase todos os duelos em confrontos diretos espalhados pelo gramado. A marcação individual busca retirar tempo e conforto do rival, empurrando a partida para uma intensidade que favorece jogadores jovens.
Quando os encaixes funcionam, a posse contrária se torna previsível e a recuperação acontece próxima da área. Todavia, caso uma perseguição seja vencida surgem espaços perigosos, especialmente nas costas dos alas ou diante dos zagueiros afastados.
Inegavelmente, a Inter de Milão possui qualidade suficiente para explorar esses vazios, controlar o ritmo e punir qualquer desorganização com extrema frieza. Deste modo, superar os nerazzurri dependerá não somente da agressividade, como também da capacidade de compreender quando atacar como uma legião e quando proteger o próprio território, lembrando que no último compromisso contra a Roma, os atuais campeões italianos encerraram encerrou um jejum de quatro partidas sem vencê-la na Serie A, através da goleada por 5 a 2.
A tabela após a 1ª rodada. O que você notou? 👀 pic.twitter.com/TT0vWL3G7n
— Lega Serie A (@SerieA_BR) August 24, 2026
Existe ainda um obstáculo que não acompanhou a Roma na campanha anterior: a exigência imposta pela Champions League. As noites europeias devolvem prestígio, receita e emoção ao Estádio Olímpico, mas também consomem energia física e concentração mental. Gian Piero Gasperini precisará administrar minutos, preservar nomes importantes e confiar em reservas diante de oponentes menos badalados no cenário doméstico. Nesse sentido, a profundidade demonstrada por Niccolò Pisilli e o volume de contratações oferecem sinais encorajadores para uma maratona inevitavelmente desgastante. O problema surgirá se lesões atingirem simultaneamente Paulo Dybala, Donyell Malen ou integrantes essenciais do sistema defensivo.
É possível sustentar a pressão homem a homem, atravessar viagens continentais e ainda manter regularidade durante 38 rodadas sem perder intensidade?
A Roma não conquista a Serie A desde 2001, quando a equipe de Fabio Capello encerrou o campeonato no alto e coloriu a capital de amarelo e vermelho. Passaram-se 26 anos desde aquela celebração, período suficiente para transformar uma lembrança gloriosa em saudade transmitida entre gerações. O início atual não permite proclamar antecipadamente um novo imperador, tampouco garante que a Inter de Milão perderá sua coroa. Em contrapartida, existem uma base consolidada, um comandante respeitado, reforços criteriosos e uma torcida novamente autorizada a sonhar.
Os antigos gladiadores entravam no Coliseu sabendo que reputação alguma substituía a coragem demonstrada diante do desafio seguinte. Resta descobrir se a Roma está apenas pronta para desafiar o poder estabelecido ou se finalmente marchará até o quarto Scudetto de sua história.