Com Lamine Yamal em ascensão e uma identidade que resiste às mudanças, a campeã mundial aproxima seu presente do maior legado de sua história.
Há seleções que atravessam grandes momentos; outras conseguem transformar a excelência em endereço permanente. A Espanha parece instalada nesse segundo território, onde vencer deixa de representar uma surpresa e passa a traduzir uma maneira de compreender o futebol. Depois do bicampeonato mundial conquistado em 2026, seria compreensível encontrar alguma dispersão entre celebrações, homenagens e compromissos seguintes. Entretanto, a resposta veio com autoridade: triunfo por 3 a 2 sobre a Inglaterra em Wembley, seguido de uma goleada por 4 a 1 diante da Croácia, em Sevilha. O troféu recém-erguido não encerrou a caminhada espanhola; apenas ampliou o horizonte da Fúria Roja, que continua faminta.
No Ramón Sánchez-Pizjuán, o placar expressivo apresentou mais do que a superioridade da anfitriã diante de uma adversária respeitável. Revelou a facilidade com que um conjunto profundamente entrosado consegue preservar suas referências mesmo quando diferentes protagonistas ocupam posições importantes. Luis de la Fuente promoveu alterações, distribuiu oportunidades e encontrou uma resposta compatível com a confiança depositada no elenco. Essa continuidade oferece um argumento particularmente forte sobre a dimensão do trabalho realizado: a excelência sobrevive à troca dos intérpretes. Em seleções, cujos períodos de preparação são curtos e descontínuos, construir semelhante familiaridade exige algo muito mais profundo do que reunir bons jogadores.
No centro dessa apresentação estava Lamine Yamal, autor de dois gols e uma assistência, novamente capaz de transformar uma partida coletiva em expressão de seu talento particular. Aos olhos de quem acompanha sua evolução, o extraordinário começa perigosamente a adquirir aparência cotidiana. Seus números pela Espanha já alcançam dez tentos e 12 passes decisivos em 35 aparições, totalizando 22 participações diretas em lances que terminaram nas redes. Considerando Barcelona e a seleção atual campeã mundial, a temporada reúne 11 bolas convertidas e sete contribuições finais em apenas dez compromissos. São estatísticas impressionantes, embora ainda insuficientes para explicar a variedade de problemas que o jovem impõe a qualquer sistema defensivo.

O fenômeno interessa, sobretudo, pela maneira como sua liberdade encontra abrigo dentro de uma estrutura organizada. Um jogo posicional bem executado procura oferecer linhas de passe, distribuir espaços e permitir que a circulação desloque a marcação até abrir caminhos. Quando recebe em condições favoráveis, Lamine Yamal acrescenta a ruptura: conduz, provoca o confronto individual e transforma uma vantagem territorial em ameaça concreta. A arquitetura coletiva prepara o cenário, enquanto sua inventividade impede que a atuação se torne previsível. Seria injusto reduzir tamanho domínio ao brilho de um atacante, assim como seria incompleto analisar essa engrenagem sem reconhecer quem lhe oferece uma dimensão excepcional.
A posse refinada continua sendo o idioma espanhol, mas seu significado ultrapassa o prazer estético de trocar passes pelo chão. Controlar a bola serve para escolher onde a disputa acontecerá, atrair adversários e produzir superioridades nas regiões que permitem avançar. O meio-campo funciona como espaço de interpretação, conectando a saída defensiva aos movimentos que surgem adiante. Quando essa circulação ganha velocidade e propósito, o rival precisa decidir entre abandonar uma posição ou permitir a progressão. A qualidade está justamente nessa capacidade de criar dilemas sucessivos, evitando que o domínio se resuma a uma estatística confortável, porém incapaz de alterar o resultado.
As mudanças contra os croatas tornaram essa identidade ainda mais visível, começando pela entrada de Martín Zubimendi no lugar de Rodri. Na defesa, Dean Huijsen substituiu Aymeric Laporte, enquanto Álex Baena ocupou a vaga de Nico Williams entre os titulares. Fermín López apareceu em vez de Dani Olmo, e Mikel Oyarzábal assumiu o posto ofensivo anteriormente entregue a Ferran Torres. Perfis distintos inevitavelmente modificam movimentos, escolhas e formas de atacar, mas não precisam desmontar as relações que sustentam o funcionamento da equipe. O mérito do técnico Luis de la Fuente consiste em acomodar essas diferenças dentro de uma ideia reconhecível, permitindo renovação sem transformar cada escalação em um recomeço.
Diante de tamanha continuidade, uma pergunta se oferece ao leitor: o que impressiona mais nesta Espanha, a genialidade de seus talentos ou a capacidade de permanecer excelente quando tantos nomes mudam? A resposta talvez esteja no encontro entre as duas virtudes, porque organização sem inventividade pode produzir rigidez, enquanto inspiração desacompanhada de referências costuma depender do acaso. Luis de la Fuente encontrou um equilíbrio que permite ao elenco compartilhar responsabilidades sem apagar características individuais. Seu trabalho ganha relevância justamente onde muitos projetos internacionais encontram dificuldades: na transformação de convocados ocasionais em parceiros habituais. Assim, a confiança deixa de pertencer apenas aos titulares e passa a circular por todo o grupo.
ESP 4-1 CRO (FT)
— MisterChip (Alexis) (@2010MisterChip) September 29, 2026
España con Del Bosque:
35 partidos seguidos sin perder
76.3% de victorias
14.9% de derrotas
2.23 goles a favor por partido
0.69 goles en contra por partido
11 victorias 6 empates y 7 derrotas contra selecciones campeonas del mundo
España con Luis de la Fuente:…
Os 40 compromissos consecutivos sem derrota dão a essa percepção uma dimensão histórica, estabelecendo um patamar inédito no futebol masculino de seleções. Desde o revés por 1 a 0 diante da Colômbia, em março de 2024, passaram-se aproximadamente dois anos e meio sem que um adversário conseguisse interromper a sequência. O alcance da marca fica mais claro quando lembramos os 37 confrontos invictos da Itália de Roberto Mancini, encerrados em 2021 justamente pelos espanhóis. Cada calendário apresentou circunstâncias próprias, naturalmente, mas superar essa referência exige uma regularidade que nenhuma noite isolada consegue explicar. O recorde recompensa a persistência de quem atravessa diferentes contextos preservando competitividade, concentração e capacidade de resposta.
Também seria possível relativizar uma série construída apenas diante de rivais inferiores, mas o percurso apresentado oferece resistência a essa leitura. Durante a invencibilidade, foram nove encontros contra países campeões mundiais, todos encerrados com vitórias da Fúria Roja. Itália, Alemanha, Inglaterra, França e Argentina aparecem entre as potências derrotadas, conferindo densidade competitiva a um retrospecto que já impressionaria pelo tamanho. A camisa adversária, portanto, não funciona como freio para um conjunto habituado a impor suas referências nos ambientes mais exigentes. É esse encontro entre duração e qualidade dos obstáculos superados que torna tão convincente o argumento espanhol pela condição de melhor seleção da atualidade.
Convém, ainda assim, preservar a análise da tentação de confundir superioridade com ausência de vulnerabilidades. O triunfo em Wembley trouxe três gols a favor e dois sofridos, lembrando que até uma equipe dominante pode atravessar trechos desconfortáveis. Da mesma maneira, a goleada em Sevilha não eliminou completamente a possibilidade de o adversário encontrar o caminho das redes. Esses placares recomendam atenção à proteção defensiva e ao equilíbrio quando a disputa se abre, sem autorizarem diagnósticos específicos que dependeriam de observar cada lance. Reconhecer pontos a aperfeiçoar torna o elogio mais consistente, porque a grandeza esportiva também se manifesta na disposição de corrigir detalhes enquanto os resultados permanecem favoráveis.
2️⃣de 2️⃣
— Selección Española Masculina de Fútbol (@SEFutbol) September 29, 2026
Muy líderes.#VamosEspaña | #NationsLeague pic.twitter.com/ywSnExKLKY
A liderança do grupo A3 da Liga das Nações, com aproveitamento integral, confirma que o período posterior à Copa começou sem acomodação. Para Luis de la Fuente, o balanço de apenas duas derrotas em 51 partidas traduz uma continuidade raríssima num cargo frequentemente submetido à urgência. Mais significativo do que a dimensão estatística, porém, é perceber que o comando técnico consegue renovar estímulos depois de conquistas capazes de satisfazer qualquer carreira. Administrar vencedores exige reconhecer quando insistir, quais responsabilidades repartir e de que maneira manter espaço para quem procura uma oportunidade. A ambição coletiva encontra sustentação nessa gestão, evitando que a lembrança das taças ocupe o lugar da preparação para os desafios seguintes.
A comparação com a geração de Casillas, Puyol, Busquets, Xavi, Iniesta, David Villa e David Silva surge inevitavelmente, carregada de admiração e de responsabilidade histórica. Foi Luis Aragonés quem conduziu a conquista da Eurocopa de 2008, abrindo uma estrada que Vicente del Bosque prolongaria com o Mundial de 2010 e o título continental de 2012. Aquela sucessão modificou o lugar ocupado pelo país no imaginário do futebol, transformando uma promessa recorrente em potência efetivamente vencedora. O grupo atual, campeão europeu em 2024 e mundial em 2026, aproxima-se desse legado sem precisar reproduzir cada gesto dos antecessores. Sua identidade reconhece a herança do passe, mas encontra na capacidade de desequilíbrio de Lamine Yamal uma assinatura própria.
A Eurocopa de 2028 aparece, portanto, como possibilidade de completar outra sequência de três grandes conquistas, embora ainda esteja longe de oferecer qualquer garantia. Igualar esse percurso daria novos argumentos ao debate entre gerações, mas a comparação também precisaria considerar adversários, protagonistas e diferentes maneiras de exercer o domínio. Por enquanto, o presente já entrega material suficiente para admiração: um campeão que continua vencendo, um elenco que responde às mudanças e um talento capaz de ampliar suas fronteiras. A Espanha alcançou 40 partidas invicta porque aprendeu a sustentar sua ideia quando a festa termina e o calendário exige outra resposta. Talvez seja essa a imagem mais fiel de sua grandeza: depois de chegar ao topo, segue jogando como quem ainda tem um mundo a conquistar.