Em 23 anos, o capitão ajudou a transformar a seleção portuguesa campeã da Europa. Seu adeus, anunciado pelas redes, expôs a dificuldade de preparar o dia seguinte.
Durante 23 anos, Cristiano Ronaldo foi referência portuguesa em campo. Nesta quinta-feira, 5 de novembro, o capitão anunciou pelas redes sociais que devolvia a camisa sete. Aos 41, encerrou sua passagem pela seleção com 234 jogos e 146 gols, ambos recordes mundiais no futebol masculino. Esses números dão uma ideia do tamanho da carreira. Longe das arquibancadas, aquele adeus chegou ao público por vídeo.
Antes dele, Portugal havia disputado três Copas do Mundo, em 1966, 1986 e 2002, respectivamente. Na estreia, Eusébio marcou nove gols, conduzindo os portugueses ao terceiro lugar. Aquela geração venceu o Brasil de Pelé, deixando um retrato duradouro sobre seu potencial. Ainda assim, duas décadas separaram a campanha inglesa da viagem rumo à edição mexicana. Para quem cresceu nesse intervalo, ver sua bandeira num Mundial era acontecimento raro.
Cristiano Ronaldo estreou pela seleção de Portugal contra o Cazaquistão, aos 18 anos, em agosto de 2003. Meses depois, viu os gregos vencerem a decisão da Euro 2004 disputada no Estádio da Luz. As lágrimas daquele rapaz guardavam também uma frustração coletiva. Já sob céus alemães na Copa do Mundo de 2006, ele terminou com os lusitanos na quarta colocação. Aquele resultado indicava que aquela equipe poderia frequentar grandes decisões.
Frequentou seis Mundiais consecutivos, de 2006 a 2026, todos com seu camisa sete. Foram duas vezes mais participações que durante toda sua história anterior à estreia dele. O atacante marcou pelo menos uma vez por edição, feito inédito no torneio masculino, e somou 11 gols. Na última campanha, anotou três tentos antes da eliminação diante dos espanhóis, nas oitavas disputadas em Dallas. Nesse intervalo, chegar ao Mundial virou expectativa portuguesa.
Cristiano Ronaldo entre todos na história de Portugal:
— Sofascore Brasil (@SofascoreBR) November 5, 2026
1º em gols (146)
1º em gols em Copas do Mundo (11)
1º em Copas do Mundo disputadas (6)
1º em jogos por Copas do Mundo (27)
1º em gols em Eurocopas (14)
1º em gols em uma única Eurocopa (5)
1º em jogos em Eurocopas (30)
1º em… pic.twitter.com/OxMuhU9hFb
A mudança ficou mais clara numa noite em que Cristiano Ronaldo precisou sair cedo. Lesionado na final europeia de 2016, viu boa parte do duelo junto à linha lateral. Éder marcou aos 109 minutos contra os anfitriões franceses, dando ao país seu primeiro grande título. O camisa sete ajudara aquela equipe durante toda essa campanha. Coube então àquele reserva selar um triunfo cujo alcance redefiniu o prestígio da seleção lusitana.
Vieram também as conquistas da Liga das Nações, tanto em 2019 quanto em 2025. Na segunda, Cristiano Ronaldo empatou diante dos espanhóis. Diogo Costa defendeu a cobrança de Morata, enquanto Rúben Neves converteu seu pênalti decisivo. Aos 40 anos, CR7 ainda tinha futebol para alterar uma final. Aquela noite mostrou quantos outros jogadores portugueses já sabiam assumir responsabilidade sob pressão.
Se Portugal aprendeu com Cristiano Ronaldo a entrar em campo para ganhar, saberá confiar nesse aprendizado agora que ele saiu? Vitinha pode organizar o jogo. Nuno Mendes oferece profundidade pela esquerda e Gonçalo Ramos dá outra dinâmica ao ataque. Essa sucessão passa por distribuir entre vários jogadores decisões antes concentradas num homem. Talvez esse seja um desafio à altura da geração instalada no grupo formado pelas principais seleções do mundo.
Em julho, depois do revés diante dos espanhóis, Cristiano Ronaldo confirmou sua despedida das Copas. Segundo o GE, ele já cogitava encerrar também a trajetória pela seleção nacional. Jorge Jesus, antigo treinador no Al-Nassr, pediu ao atacante que continuasse. Dirigentes federativos desejavam igualmente vê-lo ficar. Havia ali tempo para acertar função, minutos e adeus antes da próxima convocação.
É razoável supor que o peso comercial do sete tornasse essa decisão mais difícil. Sua presença amplia audiências, atrai patrocinadores, ajuda na venda internacional dos jogos portugueses. Quanto isso pesou junto à seleção portuguesa permanece incerto. Esse erro aparece no descompasso entre aquele convite para ficar e as expectativas sobre seu papel. Uma instituição precisa definir em quais condições faz sentido manter determinado atleta.
Portugal estará sempre em mim pic.twitter.com/dnFj51rxmh
— Cristiano Ronaldo (@Cristiano) November 5, 2026
Diante da Noruega, o impasse ganhou corpo quando Cristiano aqueceu sem sair do banco.
Gonçalo Ramos, titular naquela noite, marcou aquele gol decisivo. Jorge Jesus disse ter planejado utilizar seu veterano, mas reviu seus planos conforme avançava aquela partida.
Ronaldo alegou quebra de confiança e abandonou a concentração. Qualquer treinador pode mexer no time, assim como um capitão tem direito à clareza sobre compromissos assumidos.
Em setembro de 2025, houve uma noite especial para Lionel Messi. No último compromisso caseiro das eliminatórias, marcou duas vezes na vitória argentina por 3 a 0 diante de Benim. Lotado, o Monumental ovacionou seu camisa dez, que falou emocionado após aquele jogo. A ocasião permitiu ao público agradecer enquanto ainda podia vê-lo jogar. Os torcedores portugueses receberam pelo celular notícias dessa despedida.
A FPF (Federação Portuguesa de Futebol) prometeu uma homenagem. Um jogo especial ainda seria capaz de reunir ídolo e torcida. Esse tributo pode render ao capitão aplausos que faltaram no anúncio. Já o desgaste com Jorge Jesus, porém, marcou aquele fim doloroso. Depois desses 23 anos, planejar bem essa transição teria sido tão importante quanto insistir pela permanência de Cristiano Ronaldo.
Em 1911, deputados constituintes consagraram A Portuguesa como hino nacional. Mais de um século depois, suas palavras atravessam os estádios do país antes do apito inicial. Marchar contra os canhões ganha outro sentido neste novembro. Quando Portugal voltar ao gramado, faltará na fila aquele rosto familiar para tantas gerações. Caberá aos próximos titulares levar adiante essa seleção transformada pelo maior jogador português de todos os tempos.