Quando Cristiano Ronaldo desembarcou em Riade no início do ano para defender as cores do Al-Nassr, muitos imaginavam que tratava-se apenas de uma contratação bombástica por parte do clube saudita, cuja finalidade era aparecer no notíciario esportivo mundo afora e, na próxima temporada, negociá-lo junto ao Newcastle.
Em contrapartida, a realidade é que a contratação de CR7 foi somente o primeiro passo dado pelo governo da Arábia Saudita no projeto de colocar a Saudi Pro League ao menos entre as dez ligas mais poderosas do planeta, lembrando que de acordo com a agência de inteligência esportiva, Twenty First Group, no momento ela ocupa somente a 54ª posição – estando ranqueada abaixo da Scottish Premiership e da Serie C da Itália, por exemplo.
Ainda assim, é óbvio que existem intenções mais complexas por trás deste ambicioso projeto. O primeiro deles, é atrair a atenção da Fifa e, consequentemente, sediar a Copa do Mundo de 2030, assim como ocorrerá na futura edição do Torneio Mundial de Clubes que será disputado em Jeddah.
Ademais, através do futebol a Arábia Saudita pode mudar a imagem que ostenta de ser uma nação autoritária, dona de um histórico terrível de direitos humanos, onde a homossexualidade é crime, e há severas restrições tanto à liberdade de expressão quanto aos direitos das mulheres, embora algumas condições estejam mudando, a julgar que já é permitido pessoas do sexo feminino trabalharem e dirigirem no país, algo que era inimaginável há 20 anos.
Por fim, uma liga competitiva e repleta de craques também fortalecerá a economia saudita, principalmente no desenvolvimento do entretenimento e do turismo, áreas que seguem em franca ascensão devido as realizações do LIV Golf, o novo circuito de golfe apoiado pela Arábia Saudita, e da Formula 1, através do GP de Jeddah.
Cristiano Ronaldo announces he’s not leaving Al Nassr despite Newcastle links: “I am happy here — I want to continue here and I will continue here”. 🚨🟡🇸🇦
— Fabrizio Romano (@FabrizioRomano) June 1, 2023
“Life goes very well, the league is good. The big players are all welcome. If this happens, the league will improve”. pic.twitter.com/xfuGYGiERb
Diante disso tudo, os árabes seguiram o conselho de Cristiano Ronaldo, e deram início a astronômicos investimentos a fim de impulsionar a Saudi Pro League. Aliás, a primeira obra do governo saudita foi comprar 75% das ações de quatro dos cinco maiores clubes do país, no caso, Al-Hilal e Al-Nassr, da capital Riade, além de Al-Ittihad e Al-Ahli, da cidade portuária de Jeddah.
Deste modo, os reforços trazidos através de dinheiro público passaram a ser distribuídos entre os rivais de Riade e Jeddah, o que claramente não vem agradando os demais participantes da Saudi Pro League. A propósito, confira abaixo as transferências realizadas até aqui:
| Jogador | Clube |
| Karim Benzema | Al-Ittihad |
| N’Golo Kanté | Al-Ittihad |
| Rúben Neves | Al-Hilal |
| Kalidou Koulibaly | Al-Hilal |
| Edouard Mendy | Al-Ahli |
| Roberto Firmino | Al-Ahli |
| Marcelo Brozovic | Al-Nassr |
| Hakim Ziyech | Al-Nassr |
Contudo, é importante salientar que os renomados Lionel Messi, Luka Modric, Romelu Lukaku, Bernardo Silva, além do técnico José Mourinho, também receberam propostas milionárias dos árabes, porém recusaram as ofertas. Por outro lado, nomes como Riyad Mahrez, Jesse Lingard e Jordi Alba, devem aumentar a lista de estrelas na Saudi Pro League, cuja intenção é contar com 20 grandes jogadores até o fechamento da janela.
Vale ressaltar ainda, que a China já fez um movimento semelhante ao dos árabes entre 2016 e 2017, quando o meia Oscar foi contratado pelo Shanghai SIPG, e Carlos Tévez pelo rival Shanghai Shenhua, mas diferentemente do que ocorre no país do Oriente Médio, o futebol nunca foi uma paixão entre os chineses, e sem contar que o projeto de Xi Jinping não era nada sólido, tanto é, que não resistiu a pandemia.
Por sinal, o interesse dos sauditas pelo futebol também transparece através da gigantesca rivalidade que separa tanto os clubes da capital, quanto de Jeddah. Para se ter uma ideia, a proporção da rixa envolvendo essas torcidas é equilavente a existente entre os torcedores de Milan e Internazionale, Galatarasay e Fenerbahce, ou Celtic e Rangers.

Das 49 edições da Saudi Pro League disputadas até aqui, 33 foram ganhas por equipes de Riade, contra 13 dos times de Jeddah, sendo que o Al-Hilal é o maior campeão saudita com 18 títulos no currículo.
Não obstante, está o encanto pela seleção nacional que embora não tenha nenhum craque e ocupe somente a 53ª posição no ranking da Fifa, já realizou grandes feitos como vencer três edições da Copa da Ásia (1984, 1988 e 2019), além de ter disputado as oitavas-de-final da Copa do Mundo de 1994, e ter vencido a atual campeã, Argentina, na estreia do Mundial do Catar, no ano passado.
Portanto, a Arábia Saudita já se posiciona como um dos principais polos do futebol, e a prova disso são as recentes críticas proferidas pela Premier League ao se posicionar contra o uso de capitais públicos no esporte, o que soa até cômico partindo da liga que: aprovou a recente venda do Newcastle ao próprio governo saudita; permitiu com que a família real dos Emirados Árabes Unidos adquirisse o Manchester City em 2008; e fez vistas grossas aos altíssimos investimentos realizados por Roman Abramovich no Chelsea durante quase duas décadas, com dinheiro vindo sabe-se lá de onde.
Particularmente, não sou favorável ao uso de recursos públicos no futebol, pois na minha opinião os clubes devem ser autossustentáveis, ou seja, sobreviver com as próprias pernas através de receitas provenientes de publicidade, marketing, cotas televisivas, bilheterias e vendas de jogadores, sobretudo porque a área de atuação do Estado deveria ser apenas em questões relacionadas a saúde, educação, segurança, infra-estrutura, meio-ambiente, saneamento básico, bem-estar social e tecnologia.
Todavia, com o dinheiro proveniente do petróleo jorrando nos cofres sauditas, e a inexistência de uma lei que permita a utilização de receitas públicas no futebol, um novo e atraente mercado vigora no mundo da bola.