Diversas eram as incertezas em relação ao sucesso de Enzo Maresca quando ele desembarcou na capital inglesa para assumir o comando do Chelsea no ano passado, afinal tratava-se da chegada de um jovem treinador cujos únicos trabalhos na carreira haviam sido à frente do Parma e do Leicester, campeão da Championship League.
Ao mesmo tempo, o Chelsea atravessava um momento pra lá de turbulento mediante a sexta colocação na tabela da Premier League, que resultou na queda de Mauricio Pochettino — o terceiro técnico demitido sob a curta gestão de Todd Boehly — ao término de sua primeira temporada no clube. E isso sem contar o vestiário do Stamford Bridge, composto por mais jogadores do que armários devido as inúmeras contratações realizadas pelo magnata norte-americano.
No entanto, apesar da inexperiência é óbvio que existiam motivos para o Chelsea apostar na vinda de Enzo Maresca, tendo em vista que o treinador italiano é mais um discípulo de Pep Guardiola, de quem foi auxiliar-técnico no Manchester City. Em outras palavras, os Blues se espelhavam no sucesso alcançado pelo Arsenal ao escolher Mikel Arteta para dirigí-lo há seis anos. Soma-se a isso, o fato de que o sucessor de Mauricio Pochettino sempre foi obcecado por táticas, algo que já vem desde os tempos em que o incansável meio-campista se destacava pela tenacidade e agressividade em campo.
Contudo, passados 518 dias a realidade é que Enzo Maresca se tornou unânime pelos lados do Stamford Bridge, e não apenas pelas conquistas da Conference League e da Copa do Mundo de Clubes neste meio de ano, mas em especial por ter colocado o Chelsea novamente nos holofotes tanto do futebol inglês quanto no certame europeu, desenvolvendo uma identidade apoiada, acima de tudo, num futebol intenso e combativo, fruto também da vitalidade do plantel mais jovem da Premier League na atualidade.

Pois é, e a cada partida essa nova versão do Chelsea retrata mais a cara do mini-Guardiola, a exemplo do clássico ante o Arsenal, no qual os Blues eram superiores enquanto o jogo estava com onze jogadores de cada lado, ou seja, até Moisés Caicedo receber um cartão vermelho direto, aos 38 minutos do primeiro tempo, por uma entrada perigosa em Mikel Merino, dando assim a enorme possibilidade do Arsenal sair do Stamford Bridge com os três pontos.
Em contrapartida, mais uma vez o Chelsea provou o quanto se sente confortável em jogar sem a bola e, como resultado, deixar o adversário com a obrigação de vencê-lo. Foi assim recentemente na conquista da Copa do Mundo de Clubes da FIFA contra o Paris Saint-Germain, derrotado pelos londrinos 3 a 0 na decisão, bem como nos dois títulos da Champions League em 2012 e 2021, nos quais eles chegaram nas finais sendo considerados meros azarões frente oponentes mais prestigiados como Bayern de Munique e Manchester City.
Não à toa, mesmo com um jogador a menos durante toda a segunda etapa o Chelsea não se rendeu diante dos líderes da Premier League, vencendo a maioria dos duelos contra o físico time do Arsenal, sobretudo no meio-campo. Inclusive, a marcação era tão forte que em determinados momentos do jogo os jogadores não encontravam espaços para receber passes ou até mesmo para se movimentar.
Deste modo, foi o Chelsea que abriu a contagem no Stamford Bridge com uma cabeçada do zagueiro Trevoh Chalobah, aos 3 minutos do segundo tempo. Quer dizer, eram os comandados de Enzo Maresca fazendo o Arsenal sofrer por intermédio da sua principal arma: a bola parada. Todavia, muito se fala da eficîencia dos Gunners, mas é importante salientar que os Blues só marcaram um gol a menos em comparação a eles na Premier League nesse tipo de jogada, desconsiderando pênaltis.

Assim, ainda que o Arsenal tenha igualado o marcador dez minutos depois com Mikel Merino, a verdade é que o Chelsea suportou bem a pressão da inferioridade numérica ao anular as ações do rival. Destaque para a atuação de Marc Cucurella, que não deixou Bukayo Saka jogar da mesma maneira que já havia feito com Lamine Yamal no meio da semana, além da plenitude de Wesley Fofana ao ganhar todos os seis duelos aéreos no jogo, da segurança do goleiro Robert Sánchez nas bolas altas, isto é, o seu ponto fraco, e do brilho de Reece James, literalmente, o dono do meio-campo dos Blues, seja na defesa, seja no ataque.
Enquanto isso, na parte ofensiva Pedro Neto levava enorme perigo nos lances de velocidade no um contra um, ao passo que Liam Delap atacava os espaços e a bola nos constantes lançamentos de Robert Sánchez, promovendo acirradas disputas com os zagueiros do Arsenal, inclusive lembrando os velhos tempos de Didier Drogba e Diego Costa, embora o camisa 9 não tenha balançado as redes.
We have to settle for a point. #CFC | #CHEARS pic.twitter.com/PtV2K8eDZu
— Chelsea FC (@ChelseaFC) November 30, 2025
Isto posto, por mais que aos olhos do grande público o cartão de visitas do técnico de 45 anos de idade no oeste de Londres tenha sido apresentado depois do título da Copa do Mundo de Clubes, ou após a contundente vitória por 3 a 0 sobre o Barcelona na rodada anterior da Champions League, foi exatamente no empate com o Arsenal que pudemos acompanhar a pura e verdadeira essência do Chelsea, de Enzo Maresca, a exemplo do menor número de passes trocados e o maior de duelos aéreos ganhos ao longo dos 51 jogos pela Premier League.
Portanto, apesar do começo bastante similar em comparação ao da última edição da Premier League, o panorama é completamente diferente na atual, pois além elenco dominar o sistema de Enzo Maresca, o controle de minutagem dos atletas vem sendo feito de forma inteligente com a ampla utilização do banco de reservas. Isso explica porque o número de gols dos Blues passou a ser mais distrubuído, ao contrário da temporada passada, marcada pela dependência de Cole Palmer. Aliás, isso explica a queda de rendimento da equipe depois da lesão do meia inglês no Natal.
À vista disso, um ano depois outro Natal se aproxima do Stamford Bridge, porém desta vez trazendo perspectivas positivas ao Chelsea, que nessa temporada já assina com nome e sobrenome de Enzo Maresca!