A CAN pode consolidar Marrocos como nova potência do futebol mundial

Há tempos o povo marroquino não começava um ano tão animado e repleto de expectativas. E não por conta do progresso do país em setores carentes como é o caso da saúde, em que de acordo com ranking do Índice Global de Segurança de 2021, Marrocos ocupava o 108º lugar entre 195 países com os sistemas mais precários.

Pois é, e essa não é uma preocupação do governo marroquino, representado pela figura do Rei Mohammed VI, que segue priorizando investimentos no esporte, em especial no futebol. Não à toa, o moderníssimo estádio Grand Stade Hassan II, cuja capacidade será para 115 mil pessoas, está sendo construído em torno de Rajablanca visando a Copa do Mundo de 2030. Por este motivo, uma onda de protestos tomou conta de Marrocos no último mês de outubro, dada a insatisfação da população em relação ao direcionamento dos gastos públicos.

De qualquer maneira, todos estes assuntos realmente ficaram em segundo plano assim que a bola começou a rolar na Copa Africana de Nações. A começar, porque Marrocos está sediando o torneio este ano, o que aumenta as esperanças da torcida no que diz respeito a quebra do longo jejum que está prestes a completar cinco décadas sem vencer o título continental, bem como o de jogar a primeira final desde o vice de 2004.

Além disso, o fato mais relevante dentre todos é que a geração de ouro do futebol marroquino coloca os Leões do Atlas como principais candidatos à conquista da CAN. Semifinalista na Copa do Mundo de 2022, Marrocos trabalha no desenvolvimento das seleções de base há pelo menos dez anos. Inclusive, os boas sementes plantadas já começaram a ser colhidas através da recente conquista do Mundial Sub-20, marcado pela vitória por 2 a 0 sobre a Argentina na decisão.

E como não poderia deixar de ser, Walid Regragui é uma das peças da engrenagem do projeto esportivo que transformou a seleção marroquina numa potência mundial. Desde 2022 à frente de Marrocos, o treinador de 50 anos de idade vem realizando um excelente trabalho tanto dentro quanto fora das quatro linhas, seja na parte mental dos jogadores, seja até mesmo em fatores como logística e conexão junto aos torcedores.

Para se ter uma ideia, partiu de Walid Regragui a iniciativa de disputar os jogos da fase inicial e do restante da Copa Africana de Nações na capital Rabat, caso Marrocos avance como líder da sua chave, o que é o mais esperado. Quer dizer, uma escolha que surpreendeu levando em conta que Casablanca abriga os dois principais clubes do país e, por essa razão, é apontada como a alma futebolística do país.

Soma-se a isso, a hostil atmosfera de Casablanca, capaz de intimidar a arbitragem e os adversários, ao contrário de Rabat, onde os ingressos para os compromissos de Marrocos na Copa Africana de Nações, por exemplo, não foram totalmente vendidos apesar do preço acessível — vide os lugares vazios no Prince Moulay Abdellah Stadium durante a partida de estreia diante de Comores. Ou seja, uma condição absolutamente distinta em comparação aos jogos anteriores da seleção africana disputados no estádio Mohammed V, em que os bilhetes se esgotaram com dias de antecedência.

Deste modo, a dúvida que fica é: por que Walid Regragui optou pelos jogos em Rabat, em vez de Casablanca? Além da parte de infraestrutura do moderníssimo Prince Moulay Abdellah Stadium, que na parte externa parece a Allianz Arena e por dentro o Estádio da Luz, a principal explicação é a menor pressão por parte da torcida, afinal nos momentos em que Marrocos encontrar dificuldades no decorrer das partidas, a tensão das arquibancadas certamente não o afetará em campo.

Aliás, a boa estratégia adotada por Marrocos se fez valer logo no triunfo por 2 a 0 sobre Comores, em que os marroquinos confirmaram o resultado somente no segundo tempo com gols de Brahim Díaz e outro de bicicleta de Ayoub El Kaabi, depois de uma complicada e ansiosa etapa inicial, digna de estreias em grandes campeonatos, que teve até um pênalti desperdiçado por Soufiane Rahimi, aos 11 minutos de jogo.

Na realidade, a verdadeira muralha armada por Comores através do 5-4-1 dificultou bastante as ações de Marrocos na partida, algo que se deve ser compreendido de forma natural aos marroquinos, que passarão a ver os oponentes cada vez mais fechados ao encará-los, a julgar pela enorme qualidade técnica do único selecionado africano semifinalista de uma Copa do Mundo em todos os tempos, composto por grandes nomes como Yassine Bounou, Achraf Hakimi, Noussair Mazraoui, Sofyan Amrabat, Brahim Díaz, Hakim Ziyech e Youssef En-Nesyri — e pensar que Lamine Yamal poderia completar essa lista.

Logo, o maior desafio de Marrocos será superar as retrancas adversárias, curiosamente, o seu ponto forte na Copa do Mundo de 2022, na qual os marroquinos foram vazados uma única vez até a semifinal, mesmo após enfrentarem difíceis seleções como Croácia, Bélgica, Espanha e Portugal. A propósito, nenhum deles conseguiu marcar um mísero gol nos comandados de Walid Regragui, visto que o único tento sofrido até a queda ante a França por 2 a 0 deu-se no jogo contra o Canadá, ainda na fase de grupos (2×1).

Diante deste cenário, fica evidente porque o supercomputador da Opta Analyst aponta Marrocos como o principal favorito ao título da Copa Africana de Nações com 19,1% de chances de conquistá-la, mesmo em meio a recente perda do zagueiro Romain Saiss ao sofrer uma lesão muscular na vitória sobre Comores, que resultou no 18º jogo consecutivo dos marroquinos sem derrotas (16V-2E). Por sinal, uma extensa sequência que os fez superar a Espanha, detentora da maior série invicta entre seleções desde 2009.

Por essas e outras, Marrocos desponta não apenas como a sensação dentre as seleções africanas, mas também do futebol mundial, lembrando que os Leões do Atlas dividirão o grupo C da Copa do Mundo de 2026 com Haiti, Escócia e Brasil, provavelmente, ostentanto o rótulo de atual campeão africano. A ver!

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