Paris Saint-Germain, pentacampeão francês 2025-26. E que venha o bi-europeu

O Paris Saint-Germain acostumou o futebol francês a algo perigoso: transformar o extraordinário em rotina. O pentacampeonato da Ligue 1 na temporada 2025-26, confirmado após a vitória diante do Lens por 2 a 0, não representa apenas mais um troféu na sala parisiense. É uma conquista que reforça uma hegemonia tão dominante que, em determinados momentos, parece desconectada da realidade do restante do país.

Para se ter uma ideia, o Paris Saint-Germain levantou sua décima quarta taça nacional e ampliou ainda mais a distância para seus perseguidores históricos. O Olympique de Marseille e o Saint-Étienne seguem observando de longe, ambos estacionados em dez conquistas. O futebol francês vive há mais de uma década dentro da era parisiense. Uma era onde o impossível deixou de existir e a repetição do sucesso passou a ser encarada como obrigação. E talvez esse seja justamente o maior peso de vestir a camisa do PSG atual.

A vitória diante do Lens, vice-líder da competição, carregava um simbolismo maior. Era um confronto direto contra o único time que ainda alimentava alguma chance matemática. Mas esperança, no futebol, nem sempre resiste ao talento. Com gols de Kvicha Kvaratskhelia, ainda no primeiro tempo, e Ibrahim Mbaiê, já nos minutos finais, os parisienses fecharam a conta e confirmaram o título da Ligue 1. Um veterano europeu em ascensão e um garoto representando o futuro. Dois gols que resumem perfeitamente o projeto esportivo construído nos últimos anos no Parque dos Príncipes.

A vantagem de nove pontos restando apenas uma rodada para o fim não deixa espaço para questionamentos. O Paris Saint-Germain não apenas venceu a Ligue 1; ele administrou e conduziu a competição sob suas próprias regras. O que antes parecia uma corrida pelo título virou uma longa caminhada conduzida por uma equipe que entende como poucos a diferença entre jogar partidas e controlar temporadas inteiras. A superioridade técnica foi evidente, mas a maturidade coletiva talvez tenha sido ainda mais impressionante. Porque dominar é difícil. Permanecer dominando durante tanto tempo é algo reservado a pouquíssimos clubes na história do futebol.

O mais impressionante é perceber que o Paris Saint-Germain continua vencendo enquanto troca sua própria identidade. Durante muitos anos, o projeto parisiense foi associado ao brilho individual, aos superastros, aos nomes gigantescos que pareciam transformar cada jogo em uma cerimônia particular. Vieram Lionel Messi, Neymar, Sergio Ramos, Kylian Mbappé e tantas outras estrelas. Mas o futebol possui uma ironia curiosa: às vezes, quando os holofotes diminuem, a equipe cresce. E talvez o PSG tenha aprendido isso tarde, mas aprendeu da melhor maneira possível.

A chegada de Luis Enrique, em 2023, alterou profundamente a estrutura do clube. Ele encontrou um elenco em transformação e iniciou uma reconstrução silenciosa. Primeiro vieram as despedidas de Messi, Neymar e Sergio Ramos. Depois, um ano mais tarde, a saída de Mbappé para o Real Madrid parecia representar o encerramento definitivo de uma era. Muitos imaginaram que o PSG perderia força. Outros acreditaram que os parisienses finalmente voltariam a dividir espaço internamente na França. Aconteceu justamente o contrário. O treinador espanhol transformou o vazio em oportunidade e reorganizou a alma esportiva do time.

O terceiro título consecutivo de Luis Enrique talvez seja sua maior resposta aos críticos. Porque seu trabalho jamais esteve limitado a resultados. Ele mudou comportamentos. Criou um PSG menos dependente de individualidades e mais comprometido coletivamente. Hoje existe algo raro no Paris Saint-Germain: equilíbrio. A equipe ataca sem se tornar irresponsável, defende sem abrir mão da coragem e consegue controlar diferentes contextos de jogo. Em outras palavras, deixou de ser apenas um conjunto de estrelas para literalmente se transformar em um time completa. E existe uma enorme diferença entre essas duas coisas.

Dentro desse novo cenário, Ousmane Dembélé simboliza perfeitamente a nova fase parisiense. Eleito o melhor jogador da Ligue 1 pela segunda temporada consecutiva, o atacante lidera a artilharia do clube na temporada com 21 gols. Durante anos, Dembélé foi tratado como uma promessa cercada por lesões, irregularidades e expectativas frustradas. Hoje parece ter encontrado o ambiente ideal para alcançar estabilidade. Seu talento nunca esteve em discussão. O que faltava era continuidade. E agora ela chegou justamente no momento em que o Paris Saint-Germain precisava encontrar novos protagonistas.

Mas a Ligue 1 já não é suficiente para definir o tamanho deste Paris Saint-Germain. O olhar parisiense atravessa fronteiras há bastante tempo. A conquista inédita da Champions League na temporada passada mudou a forma como o clube passou a ser enxergado. Durante anos, a obsessão europeia virou motivo de piada, pressão e frustração. O PSG colecionava eliminações traumáticas, quedas dolorosas e capítulos difíceis de apagar. Até que finalmente alcançou o topo da Europa. E quando isso aconteceu, algo mudou definitivamente. Porque conquistar pela primeira vez é um sonho. Voltar e permanecer lá em cima é uma decisão.

Agora o Paris Saint-Germain retorna à final da Champions League pela segunda temporada seguida. O adversário será o Arsenal, em Budapeste. E existe algo gigantesco em jogo. Caso vença, o clube francês poderá se tornar o primeiro bicampeão consecutivo da era moderna da Champions League desde o Real Madrid de Zidane entre 2016 e 2018. Um feito que parece distante porque quase ninguém conseguiu repetir. O futebol europeu se tornou cruel demais, equilibrado demais, imprevisível demais. Permanecer no topo exige algo próximo da perfeição.

E talvez o mais assustador seja perceber que o PSG parece realmente capaz disso. Contra o Bayern de Munique, nas semifinais, a equipe mostrou duas versões completamente diferentes de si mesma. Primeiro participou de um espetáculo caótico em Paris, um 5 a 4 que parecia uma partida disputada por crianças em uma rua sem limites para atacar. Depois, na Allianz Arena, mostrou maturidade, paciência e capacidade de sofrimento. Soube sofrer. Soube esperar. Soube resistir. E campeões europeus quase sempre aprendem essa linguagem antes de levantarem grandes taças.

Vincent Kompany, técnico do Bayern de Munique, resumiu bem ao afirmar que o Paris Saint-Germain continua sendo a melhor equipe da Europa. E essa frase ganha ainda mais peso quando observamos a juventude do elenco. A média de idade gira em torno de 24 anos. Apenas Fabián Ruiz, Lucas Hernández e Marquinhos ultrapassam os 28 anos de idade no plantel. Existe juventude, talento e, principalmente, fome competitiva. O PSG atual parece distante daquele grupo que às vezes transmitia a sensação de fragilidade emocional em noites decisivas. Hoje existe algo diferente ali. Existe resistência. E tudo a longo prazo.

E talvez essa seja a maior evolução de todas. Porque talento o Paris Saint-Germain sempre teve. Dinheiro também. Estrutura, estrelas e ambição jamais faltaram. O que faltava era personalidade coletiva. Durante anos o clube parecia forte até encontrar a primeira grande tempestade europeia. Hoje parece exatamente o oposto. Quanto maior o jogo, mais confortável a equipe parece ficar. E isso costuma ser um sinal extremamente perigoso para os adversários.

A grandeza, no entanto, possui uma característica curiosa: ela nunca aceita permanecer parada. O PSG já atingiu aquilo que parecia impossível uma década atrás. Tornou-se campeão europeu, dominou seu país e passou a frequentar o grupo dos gigantes sem pedir licença. Todavia, agora surge uma pergunta ainda maior. Não se trata mais de alcançar a história, mas sim de escrever uma nova era. Porque dinastias não nascem quando se conquista uma vez. Elas começam quando o mundo inteiro percebe que talvez ninguém consiga impedir a próxima conquista.

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