O Real Madrid sabe virar jogos. José Mourinho pode mudar o time?

A reação do Real Madrid diante da Roma em pleno estádio Olímpico expõs tanto a força de uma camisa, quanto as contradições de um elenco que precisa transformar talento em organização.

Durante boa parte da noite no Olímpico, o Real Madrid pareceu carregar o peso de uma equipe incapaz de compreender a própria abundância. Havia talento para decidir qualquer lance, mas faltava organização para governar a partida. A Roma abriu 3 a 1, aproximou os espanhóis de uma derrota dolorosa e expôs fragilidades conhecidas. Então veio o desfecho: 4 a 3, numa reação que pertence ao imaginário europeu daquela camisa. O problema começa quando uma demonstração extraordinária de sobrevivência passa a servir como certificado de saúde.

A vitória preserva a campanha na Champions League, iniciada com um apertado 2 a 1 sobre a Inter, sem encerrar as dúvidas levantadas pelo desempenho. Em La Liga, a quarta colocação e os seis pontos de distância para o bicampeão Barcelona oferecem um retrato menos generoso. As derrotas nas visitas a Betis e Atlético reforçaram a dificuldade diante de adversários competitivos. Com o clássico marcado para 25 de outubro, o calendário aproxima uma cobrança que o entusiasmo italiano, sozinho, não consegue adiar.

José Mourinho conhece esse endereço e suas armadilhas. Sua primeira passagem produziu, na temporada 2011-12, uma Liga de 100 pontos e 121 gols, números de um conjunto que sabia transformar potência em funcionamento coletivo. A lembrança interessa pelo contraste: aquele sucesso exigiu mecanismos reconhecíveis, além de personalidade. Agora, o português reencontra um clube atravessado por duas temporadas sem conquistas de maior expressão e por relações desgastadas. Recuperar a competitividade envolve reconstruir compromissos que nenhuma palestra consegue restabelecer apenas pela força da voz. 

O empenho atribuído ao treinador desde antes da apresentação, com jornadas prolongadas e participação em diferentes áreas, demonstra disposição para enfrentar a tarefa. Contudo, dedicação não equivale automaticamente a autoridade. Florentino Pérez pode escolher um comandante experiente, mas precisa sustentar as consequências dessa escolha quando decisões técnicas atingirem protagonistas do projeto. Dentro do Bernabéu, o banco de reservas também distribui prestígio. Uma reconstrução exige respaldo justamente no instante em que a escalação deixa de confirmar as hierarquias estabelecidas pelo investimento, pela fama e pelo passado.

A convivência entre Kylian Mbappé, Jude Bellingham e Vinícius Júnior continua levantando uma questão essencial: como organizar tantos jogadores decisivos dentro da mesma ideia? Reunir capacidade individual não garante complementaridade, sobretudo quando os deslocamentos ofensivos deixam espaços semelhantes desocupados e exigem compensações constantes dos companheiros. Desde a chegada do francês, em 2024, essa equação permanece aberta. O ataque precisa oferecer opções de passe, distribuir profundidade e participar da recuperação. Sem tais acordos, cada avanço pode parecer promissor enquanto prepara, silenciosamente, a vulnerabilidade da jogada seguinte.

Foi nesse terreno que a atuação de Vinícius em Roma voltou a incomodar. A perda displicente na origem do primeiro gol de Donyell Malen pesa, assim como o desempenho insuficiente até sua substituição por Endrick. O episódio da expulsão contra o Villarreal, seguido pela suspensão de quatro partidas ainda contestada pelo clube, acrescenta uma dificuldade disciplinar ao momento esportivo. Existe, porém, um risco na cobrança seletiva: a baixa participação defensiva de Kylian Mbappé também compromete o equilíbrio. Responsabilidade coletiva exige critérios aplicados com coerência.

José Mourinho já retirou o brasileiro durante jogos e deixou seu nome fora de uma formação inicial, indicando alguma disposição para rever privilégios. A pergunta decisiva está no alcance dessa disposição: até onde pode avançar sem perder apoio interno? Se a reação aparece quando os nomes consagrados saem, quem deve orientar a próxima escalação: o prestígio acumulado ou aquilo que o campo demonstra? Não se trata de transformar uma substituição bem-sucedida em sentença definitiva, mas de admitir que titularidade precisa continuar sendo uma conquista.

Endrick chegou àquela noite com somente quatro minutos acumulados na temporada, contraste expressivo diante da necessidade de alternativas. Carlos Espí, por sua vez, voltou a marcar vindo do banco e alcançou o terceiro gol nessa condição. Oportunismo também constitui uma competência: estar no lugar adequado pressupõe leitura, movimento e atenção. A torcida que pede espaço para esses jovens, além de Arda Güler, cobra uma distribuição mais convincente das oportunidades. O desafio será oferecer continuidade e funções claras, evitando que a juventude exista apenas como recurso emergencial.

Mais profundamente, entretanto, persiste o vazio de um meio-campo que ainda procura referências desde a aposentadoria de Toni Kroos, em 2024. Federico Valverde e Aurélien Tchouaméni oferecem qualidades relevantes, mas a parceria não tem produzido o controle necessário. Correr, disputar e cobrir terreno são tarefas fundamentais; administrar distâncias, orientar a circulação e escolher quando acelerar pertencem a outra dimensão. Sem essa coordenação, a equipe atravessa partidas como quem cruza uma avenida entre carros: consegue chegar ao outro lado, embora quase nunca transmita segurança durante o percurso.

As alterações no Olímpico forneceram pistas. Bernardo Silva substituiu Aurélien Tchouaméni com o placar adverso em 3 a 1; Arda Güler entrou na vaga de Denzel Dumfries, enquanto Federico Valverde recuou à lateral direita. A reorganização ampliou as possibilidades de associação e ajudou a sustentar a resposta ofensiva. Seria precipitado decretar ali uma formação definitiva, porque enfrentar um rival em vantagem também modifica espaços e comportamentos. Ainda assim, José Mourinho recebeu elementos concretos para experimentar combinações capazes de aproximar os setores e diminuir a dependência de arrancadas individuais.

Essa discussão alcança o planejamento da diretoria. Bernardo Silva acrescenta inteligência e criatividade, mas sua contratação não resolve, por si, a ausência de um organizador para atuar na base das jogadas. A preferência por Rodri, que acabou no Barcelona, precisava estar acompanhada de alternativas coerentes. A movimentação de outros meio-campistas no mercado torna legítima a cobrança por uma estratégia mais ampla. Ao ex-técnico do Benfica cabe encontrar soluções com as peças disponíveis; aos dirigentes, responder pela composição de um grupo cujo desequilíbrio não nasceu na prancheta atual.

A história europeia oferece uma lembrança sedutora. Em 2022, contra o Manchester City, Rodrygo marcou duas vezes nos instantes finais do tempo regulamentar, antes de Karim Benzema decidir a classificação na prorrogação. Aquela semifinal consolidou outra página da capacidade madridista de prolongar disputas aparentemente encerradas. Existe valor competitivo nessa memória: ela alimenta confiança quando adversários começam a enxergar o apito final. Mas tradição não recompõe posicionamento, fecha linhas de passe ou impede infiltrações. O passado inspira respostas; a preparação precisa reduzir a frequência das emergências. 

É compreensível que José Mourinho e seus auxiliares tenham celebrado a luta até o último instante. Também faz sentido evitar rupturas precipitadas num ambiente em que confrontos internos podem comprometer qualquer projeto. No entanto, escolher a ocasião adequada para mudar não pode significar esperar indefinidamente. Revezar protagonistas, ajustar responsabilidades e recompensar boas atuações são instrumentos cotidianos de gestão. O comandante necessita de tempo, enquanto o clube precisa aceitar que reconstruções cobram desconforto. Sem essa reciprocidade, toda tentativa de renovação termina negociada até perder a força.

Roma deixou três pontos e uma advertência embrulhada em euforia. O Real Madrid conserva jogadores capazes de alterar destinos em poucos minutos, mas ainda procura uma estrutura que dispense feitos excepcionais para atravessar noites comuns. José Mourinho foi chamado para enfrentar justamente essa distância entre os nomes disponíveis e o futebol apresentado. Seu trabalho será medido pelas escolhas feitas depois da celebração, quando os refletores já estiverem apagados. A coroa permanece sobre o escudo; falta saber quanto poder o Special One terá para reorganizar o reino.

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