Senegal e o título que une gerações

Se somarmos todas as decisões de Copa do Mundo e da própria Copa Africana de Nações ao longo dos tempos, certamente não encontraremos uma final tão polêmica e agitada quanto a da CAN 2025, que terminou com o triunfo por 1 a 0 de Senegal sobre o anfitrião, Marrocos.

Pois é, para dar a segunda volta olímpica na história da Copa Africana de Nações e dentre as últimas três edições do torneio, os senegaleses precisaram superar uma verdadeira guerra em Rabat marcada, primeiramente, pelo gol — na minha opinião — legítimo de Ismaila Sarr, aos 48 minutos do segundo tempo. Além do equívoco na interpretação ao assinalar uma falta de Abdoulaye Seck em Achraf Hakimi, o árbitro ainda apitou a infração antes do desfecho da jogada, o que impediu a análise do VAR.

No entanto, pior do que isso foi a penalidade dada dois minutos depois em decorrência de um suposto puxão de Malick Diouf em Brahim Díaz após cobrança de escanteio. Ao mesmo tempo, é importante destacar que desta vez a marcação veio do VAR, já que o árbitro deixou o jogo seguir. À vista disso, indignados pelo gol anulado e pelo pênalti confirmado, os Leões de Teranga decidiram abandonar o campo atendendo às ordens do técnico Pape Thiaw.

Contudo, correndo o risco de sofrer severas punições da FIFA na Copa do Mundo daqui a menos de 150 dias, Senegal decidiu retornar ao gramado do Estádio Príncipe Moulay Abdellah sob forte interferência do capitão Sadio Mané, e assim viu o goleiro Édouard Mendy defender a cavadinha de Brahim Díaz na cobrança do pênalti, literalmente, no último ato do tempo regulamentar da final africana.

Vale ressaltar ainda, que mediante ao forte temporal que assolou Rabat em determinado momento da decisão, alguns gândulas tentaram impedir com que o goleiro reserva, Yehvan Diouf, levasse uma toalha para o titular Édouard Mendy secar as luvas. De qualquer maneira, Pape Gueye transformou frustração em alegria na capital marroquina quando, aos 4 minutos da prorrogação, acertou um belíssimo chute da entrada da área que resultou na vitória de Senegal pelo placar mínimo.

Apesar dos diversos incidentes ocorridos na final, que infelizmente reforçam preconceitos em relação aos africanos, a realidade é que a decisão da CAN 2025 reuniu as duas principais forças do continente na atualidade, das quais eu aponto Senegal com uma leve superioridade por conta do maior nível técnico dos jogadores. Por essa razão, o título foi justo por tudo o que aconteceu na final e no decorrer da competição, em que os pupilos de Pape Thiaw se mantiveram invictos mesmo em meio aos difíceis embates contra Mali, Egito e Marrocos.

Obviamente, a conquista da Copa Africana de Nações foi comemorada pelos senegaleses na mesma proporção que o vice-título foi lamentado pelos marroquinos. Em contrapartida, a segunda conquista continental por parte de Senegal é simbolizada pelos últimos dias da melhor geração do país e o florescer da promissora que acaba de desabrochar, o que significa que não apenas o presente como também o futuro se mostram prósperos aos Leões de Teranga.

O cartão amarelo recebido por Kalidou Koulibaly ainda no primeiro tempo da semifinal diante do Egito, seguido da lesão na virilha sofrida pelo capitão de Senegal poucos minutos depois, o tiraram da decisão frente Marrocos. Ainda assim, algo que não preocupou os senegaleses devido a entrada do jovem Mamadou Sarr, de somente 20 anos de idade, que enquanto esteve em ação justamente nos jogos mais decisivos da CAN 2025, contribuiu para que os campeões africanos fossem vazados nenhuma vez.

Da mesma maneira, a geração de ouro do futebol senegalês, liderada pelos veteranos Édouard Mendy (33), Kalidou Koulibaly (34), Idrissa Gueye (36) e Sadio Mané (33), sabia que, no Marrocos, teria a penúltima oportunidade de deixar o nome ainda mais marcado na história de Senegal, uma vez que o capítulo final desta gloriosa trajetória será escrito na Copa do Mundo de 2026.

Presentes nas duas conquistas da Copa Africana de Nações dos Leões de Teranga, em 2021 e agora em 2025, Idrissa Gueye (128), Sadio Mané (124) e Kalidou Koulibaly (102) são os três jogadores que mais vezes vestiram a camisa de Senegal até então, sendo também os únicos que superaram a marca centenária de jogos pela seleção senegalesa, lembrando que o atacante do Al-Nassr ainda ostenta o rótulo de maior artilheiro com 52 gols.

Em todo o caso, seguindo o caminho inverso e tendo a grata chance de compartilhar os últimos momentos ao lado dos ídolos na seleção senegalesa, o zagueiro Mamadou Sarr — conforme citado anteriormente —, o lateral-esquerdo El Hadji Malick Diouf, os meio-campistas Habib Diarra, Lamine Camara, Pape Gueye e Pape Matar Sarr, além dos atacantes Nicolas Jackson, Iliman Ndiaye e Ibrahim Mbaye, despontam como as grandes promessas de Senegal. 

Por sinal, é importante destacar que, em 2023, Senegal foi campeão da Copa Africana de Nações Sub-20 pela primeira vez e contou com a presença de diversos destes novatos, dentre eles Lamine Camara, eleito o melhor jogador da competição. Em outras palavras, isso retrata o êxito dos Leões de Teranga no desenvolvimento de talentos. Não por um acaso, eles participarão da Copa do Mundo pela terceira vez consecutiva no Mundial da América do Norte.

Deste modo, ao passo que a maior geração de Senegal chega ao fim, ela inspira a outra que já começa sua jornada erguendo um troféu e vislumbrando alçar vôos mais altos.

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