A derrota por 5 a 2 para o Atlético de Madrid no Metropolitano, no jogo de ida das oitavas-de-final da Champions League, foi apenas mais um capítulo da temporada caótica do Tottenham. Um resultado pesado, mas que, curiosamente, já não causa espanto ao clube que parece ter se acostumado ao desastre. O que antes seria considerado um vexame histórico hoje soa quase como rotina. E talvez esse seja o maior sintoma da crise: os Spurs perderam a capacidade de surpreender negativamente, porque a expectativa já é sempre a pior possível.
O mais preocupante é que a goleada por 5 a 2 chegou a soar até generosa diante do que foi o jogo no estádio Metropolitano. Os comandados de Igor Tudor retornaram da capital espanhola com a sensação de que o estrago poderia ter sido ainda pior. E não seria exagero. Afinal, o Atlético de Madrid praticamente resolveu a partida em um intervalo de tempo que costuma ser usado apenas para aquecer o jogo.
Com 15 minutos de partida o placar já era 3 a 0 para os espanhóis. Um início devastador, que entrou para a história da Champions League como um dos começos mais brutais já vistos em confrontos eliminatórios. Nunca antes um time havia aberto três gols de vantagem tão cedo em uma fase de mata-mata da competição. Para o Tottenham, um início que simboliza perfeitamente a falta de organização e competitividade que tem marcado sua temporada.
Aos 22 minutos o jogo já estava 4 a 0, diante de um Tottenham completamente perdido em campo. O Atlético de Madrid dominava todos os setores: intensidade, posicionamento, pressão e velocidade de circulação da bola. Enquanto isso, os Spurs pareciam uma equipe desorientada, incapaz de reagir ou ao menos reorganizar suas linhas defensivas. Foi um massacre tático e emocional.
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Se o resultado final não foi ainda mais elástico, muito se deve a uma redução natural de intensidade do próprio Atlético. Com a classificação praticamente encaminhada, os espanhóis tiraram o pé do acelerador. Ainda assim, o Tottenham só conseguiu balançar as redes graças a dois erros incomuns da equipe madrilenha: uma falha defensiva que originou o primeiro gol e uma saída de bola desastrosa de Jan Oblak, que entregou o segundo.
Mesmo com esses presentes inesperados, a sensação geral foi de constrangimento esportivo, tendo em vista que o Tottenham deixou Madrid muito mais aliviado por não ter sofrido uma goleada ainda maior do que propriamente por ter conseguido balançar as redes duas vezes. Em um clube que disputa a Champions League, isso diz muito sobre o momento, já que a derrota também ampliou um dado preocupante: são seis derrotas consecutivas, algo inédito em 143 anos de história. Um número que ilustra o tamanho do colapso vivido pelo clube. Nunca antes os Spurs haviam atravessado uma sequência tão negativa desde sua fundação no século XIX.
O cenário na Premier League é igualmente alarmante. O Tottenham não vence no campeonato desde 28 de dezembro do ano passado. Já estamos em março e a equipe soma o montante de 11 partidas consecutivas sem vitória no campeonato, incluindo cinco derrotas nos últimos cinco compromissos. Um desempenho que transformou um clube acostumado a brigar por vagas europeias em um candidato real ao rebaixamento.
Para dimensionar ainda melhor a crise, basta observar outro dado chocante: apenas duas vitórias na Premier League desde outubro. É um retrospecto absolutamente incompatível com um clube que possui o nono maior faturamento do futebol mundial. A diferença entre investimento e desempenho nunca pareceu tão gritante, sobretudo porque estamos nos referindo a um integrante do bloco Big Six do futebol inglês.
Vale ressaltar que hoje o Tottenham ocupa apenas a 16ª colocação na tabela da Premier League, com um ponto de vantagem sobre o West Ham, primeiro time dentro da zona de rebaixamento. Logo atrás também aparece o Nottingham Forest, igualmente a apenas um ponto. Ou seja, a luta do Tottenham neste momento não é por vagas europeias. É simplesmente para não cair.
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Diante desse cenário, o próprio treinador Igor Tudor admitiu antes do jogo da Champions League que a prioridade do clube passou a ser a permanência na Premier League. Uma declaração que por si só já evidencia a gravidade da situação. Um clube que iniciou a temporada sonhando com protagonismo europeu agora luta desesperadamente para permanecer na elite inglesa.
Mas as decisões do treinador croata também levantam questionamentos pra lá de profundos. Em apenas quatro jogos à frente do Tottenham, Tudor já contabiliza quatro derrotas e 14 gols sofridos no período. Um início desastroso que levanta dúvidas não apenas sobre a atual fase da equipe, mas sobre a própria escolha da diretoria ao contratá-lo, lembrando que se somarmos a passagem pela Juventus, seu ex-clube, ele coleciona o total de 12 partidas sem vitórias.
De qualquer maneira, a decisão mais controversa aconteceu justamente neste último jogo contra o Atlético de Madrid. Igor Tudor surpreendeu ao escalar o jovem goleiro Antonín Kinský, de 22 anos. Era sua primeira partida como titular desde outubro do ano passado, além de ser também sua estreia em um jogos válidos pela Champions League. A aposta, no entanto, revelou-se desastrosa.
Após duas falhas graves que contribuíram para dois dos três primeiros gols do Atlético de Madrid, igor Tudor tomou uma decisão ainda mais polêmica: substituiu Antonín Kinský aos 17 minutos do primeiro tempo. A imagem do jovem goleiro deixando o campo sob aplausos irônicos da torcida espanhola, visivelmente abalado, foi uma das cenas mais duras da noite. Independentemente do erro do jogador, a forma como tudo aconteceu gerou forte debate sobre gestão emocional dentro de campo.
A crise do Tottenham também passa por decisões estruturais equivocadas. A troca de Thomas Frank por Igor Tudor simboliza a falta de direção do projeto esportivo. Frank já demonstrava dificuldades, mas ao menos havia um modelo de jogo claro. Tudor, por sua vez, trouxe uma proposta completamente diferente, baseada em uma linha de três zagueiros e em um sistema que exige tempo para adaptação — algo que o Tottenham claramente não possui neste momento.
E o cenário pode piorar. Até a publicação deste artigo, Igor Tudor segue no cargo. Isso significa que ele deve dirigir os londrinos em Anfield contra o Liverpool. Um desafio enorme para um time fragilizado técnica e emocionalmente. Porque, neste momento, existe uma sensação perigosa rondando o clube: no Tottenham de hoje, o pior jogo parece ser sempre o próximo.