Após quatro temporadas sem títulos, o gigante de Amsterdã aposta em Jordi Cruyff, Míchel e reforços de peso para recuperar a identidade perdida.
Há quatro anos sem levantar uma taça, o Ajax começará a temporada 2026-27 tentando reencontrar uma grandeza que parecia fazer parte de sua própria natureza. O clube que ensinou diferentes gerações a compreender o futebol como uma forma de arte tornou-se um personagem secundário dentro da Holanda. Enquanto a equipe de Amsterdã enfrentava crises administrativas, escolhas equivocadas e constantes mudanças no comando, o PSV ocupou o espaço deixado pelo adversário. O conjunto de Eindhoven conquistou as últimas três edições da Eredivisie e transformou uma antiga rivalidade em uma relação momentaneamente desequilibrada. Não se trata, portanto, apenas de interromper uma sequência incômoda, mas de recuperar uma posição histórica no imaginário esportivo do país. Para os Godenzonen, voltar a vencer significa provar que a camisa ainda é capaz de carregar o peso de suas quatro estrelas europeias.
A última conquista do Ajax aconteceu na Eredivisie de 2021-22, ainda sob a direção de Erik ten Hag, antes de uma sucessão de decisões que desmontou a estabilidade construída naquele período. Desde então, treinadores passaram pelo banco de reservas, dirigentes ocuparam cargos importantes e diversos jogadores chegaram sem que houvesse uma ideia suficientemente sólida ligando todas essas peças. O dinheiro circulou, os nomes mudaram e as promessas se multiplicaram, porém o rendimento permaneceu distante da tradição estabelecida em Amsterdã. Em alguns momentos, a instituição pareceu acreditar que bastaria contratar talento para reconstruir aquilo que havia sido perdido. Todavia, nenhuma equipe recupera sua identidade somente por meio de cheques, anúncios ou apresentações acompanhadas por belas fotografias. Um projeto esportivo exige coerência, continuidade e, acima de tudo, uma convicção capaz de sobreviver aos primeiros resultados negativos.
A dor mais profunda desse período ocorreu na temporada retrasada, quando o time comandado por Francesco Farioli esteve muito próximo de recuperar o campeonato nacional.
Com cinco rodadas restantes, a vantagem sobre o PSV chegou a nove pontos, margem que parecia suficiente para conduzir o troféu de volta à Johan Cruyff Arena. O desfecho, contudo, transformou uma campanha de superação em uma das maiores frustrações da história recente do clube. O PSV Eindhoven aproveitou cada tropeço do concorrente, assumiu a liderança e terminou a competição um ponto à frente, confirmando a conquista na última jornada.
Farioli deixou o cargo dias depois, citando diferenças de visão e de ritmo em relação à diretoria, encerrando um trabalho que havia levado a torcida da esperança ao desalento.
Poucas quedas machucaram tanto quanto aquela que veio após a taça já ter sido tocada pela imaginação.

Se aquele vice-campeonato deixou cicatrizes, a temporada seguinte aprofundou a sensação de desorientação nos corredores da Johan Cruyff Arena. John Heitinga iniciou o trabalho, Fred Grim assumiu interinamente e Óscar García terminou a campanha à beira do campo, numa sequência que simbolizou a ausência de direção esportiva. O Ajax concluiu a Eredivisie somente na quinta colocação e precisou aceitar a disputa dos play-offs por uma vaga na Conference League por conta disso. Para uma agremiação acostumada a medir forças com as maiores potências continentais, competir pelo acesso ao terceiro torneio da UEFA representa uma dura redução de horizonte. A classificação não foi apenas um número ruim na tabela, mas o retrato de uma estrutura que perdeu referências e passou a reagir aos acontecimentos. Quando três técnicos comandam um time no mesmo ano, normalmente o problema ultrapassa as quatro linhas e alcança os gabinetes onde as escolhas são realizadas.
É nesse cenário que Jordi Cruyff surge como a principal figura da nova tentativa de reconstrução iniciada pelo gigante holandês. Filho do lendário Johan Cruyff, o atual diretor técnico carrega um sobrenome que representa muito mais do que uma ligação familiar com o passado. O eterno camisa 14 foi o grande símbolo de uma revolução que, durante a década de 1970, levou o Ajax a três conquistas consecutivas da antiga Copa dos Campeões da Europa. Sua influência atravessou fronteiras, modificou o Barcelona e eternizou a ideia de que controlar espaços pode ser mais importante do que simplesmente ocupar posições. Jordi, naturalmente, não deve ser julgado apenas por sua origem, porém compreende como poucos a responsabilidade de preservar essa herança. Em Amsterdã, o passado não pode dirigir o presente, porém continua funcionando como uma bússola quando o futuro parece encoberto pela neblina.
O primeiro grande movimento dessa nova fase foi a contratação de Marcos Leonardo, adquirido do Al-Hilal por aproximadamente 20 milhões de euros. O brasileiro chega como o quinto reforço mais caro da história do Ajax e, sobretudo, como uma referência capaz de transformar volume ofensivo em gols. Sua mobilidade, o oportunismo dentro da área e a facilidade para atacar pequenos espaços oferecem características importantes a uma formação que pretende permanecer mais tempo no campo adversário.
Já Caio Henrique, comprado junto ao Monaco por cerca de 10 milhões de euros, acrescenta qualidade técnica, experiência internacional e capacidade de construção pelo corredor esquerdo, ao passo que Jofre Torrents, revelado em La Masia, representa uma aposta de longo prazo em um lateral que cresceu numa escola futebolística influenciada pelos mesmos princípios holandeses. Somadas, essas operações mostram que a diretoria não está procurando apenas notoriedade, mas perfis compatíveis com uma proposta baseada em iniciativa e domínio territorial.
Atenção! ⚠️
— AFC Ajax (@AFCAjax) July 17, 2026
A chegada de Julian Brandt sem custos de transferência talvez seja um dos movimentos mais inteligentes realizados por Jordi Cruyff nesta janela. Depois de mais de 300 partidas oficiais pelo Borussia Dortmund, o alemão desembarca na Holanda oferecendo visão de jogo, repertório entre as linhas e experiência em ambientes de enorme pressão. Tolu Arokodare, cedido pelo Wolverhampton, amplia as alternativas no comando do ataque com presença física, jogo aéreo e potência para confrontos mais diretos. Marc-André ter Stegen, emprestado pelo Barcelona, acrescenta liderança, qualidade com os pés e uma longa vivência em partidas decisivas do futebol europeu. Daley Blind, por sua vez, retorna como uma extensão da cultura ajacied em campo, conhecendo os atalhos, as exigências e o significado daquela camisa.
Entre juventude e maturidade, a composição do elenco revela o esforço para recuperar rapidamente o tempo desperdiçado nos últimos campeonatos.
Tão importante quanto contratar foi assegurar a permanência de Oscar Gloukh, um dos atletas mais cobiçados do atual grupo. O israelense possui criatividade para receber entre setores, acelerar combinações curtas e encontrar passes capazes de romper defesas compactas.
Em uma equipe que deseja voltar a controlar as partidas pela posse, conservar jogadores dessa natureza vale tanto quanto anunciar uma nova aquisição. A reconstrução não pode ser confundida com uma demolição completa, pois determinadas referências precisam permanecer para que o próximo ciclo encontre uma base. Mas será que reunir tantos nomes de qualidade será suficiente para impedir o quarto título consecutivo do PSV? A resposta dependerá menos da fotografia da janela e muito mais da capacidade de transformar diferentes talentos em um organismo coletivo reconhecível.
Para conduzir esse processo, o Ajax escolheu Míchel Sánchez, treinador espanhol de 50 anos que terá sua primeira experiência profissional fora de seu país. O trabalho realizado no Girona explica por que sua contratação combina com a maneira pela qual os Godenzonen historicamente enxergam o jogo. Suas equipes procuram iniciar as jogadas desde o goleiro, atraem a pressão rival e utilizam movimentos coordenados para criar superioridades em diferentes zonas. Os laterais podem avançar ou ocupar espaços interiores, enquanto os meio-campistas trocam constantemente de altura para oferecer linhas seguras de passe. Mais do que conservar a bola de maneira ornamental, Míchel busca utilizá-la para deslocar o adversário e abrir caminhos em direção ao gol. Essa filosofia dialoga diretamente com um clube que sempre entendeu a posse como instrumento de ataque, não como simples decoração estatística.
O Girona histórico que conquistou uma vaga inédita na Champions League mostrou um futebol corajoso, fluido e capaz de desafiar a hierarquia espanhola. Naquela equipe, as posições iniciais funcionavam somente como pontos de partida, porque os jogadores recebiam liberdade orientada para interpretar cada lance. A amplitude oferecida pelos extremos abria corredores internos, as aproximações criavam triângulos e a pressão após a perda tentava recuperar rapidamente o controle territorial. Existe, deste modo, uma compatibilidade evidente entre as ideias do novo treinador e os conceitos associados ao Ajax desde Rinus Michels e Johan Cruyff. Em contrapartida, o desafio será adaptar esses mecanismos à Eredivisie sem permitir que a beleza do desenho esconda fragilidades defensivas nas transições. Atacar com muitos homens exige precisão, pois qualquer passe errado pode transformar uma construção elegante em uma avenida para o contra-ataque.
Míchel é o novo treinador do Ajax. pic.twitter.com/ARo9JttHmi
— B24 (@B24PT) June 2, 2026
O rebaixamento do Girona na última temporada, porém, impede que a contratação do espanhol seja tratada como uma garantia antecipada de sucesso. Míchel chega à Holanda depois de experimentar os dois extremos da profissão: a classificação histórica para a Champions e a dolorosa queda à segunda divisão. Esse contraste não apaga seus méritos, mas oferece à análise uma necessária dose de prudência diante do entusiasmo provocado por sua chegada. Treinadores também precisam demonstrar capacidade de adaptação quando o plano preferido deixa de produzir respostas, especialmente em uma instituição obrigada a disputar troféus. No Ajax, não bastará propor um futebol atraente, revelar jovens ou dominar adversários durante determinados períodos das partidas. A arquibancada espera vitórias, a direção precisa de estabilidade e a história exige que boas ideias sejam convertidas novamente em conquistas.
Também convém lembrar que esta nem sequer é a janela mais cara vivida recentemente pelo clube, embora tenha causado enorme empolgação entre os torcedores. Na temporada 2022-23, mais de 100 milhões de euros foram destinados a contratações, sem que o investimento estabelecesse uma base esportiva duradoura. Já na campanha passada, aproximadamente 60 milhões de euros foram aplicados no elenco, novamente sem a correspondência esperada dentro de campo. Esses números demonstram que gastar muito e investir bem são conceitos bastante diferentes, ainda que frequentemente sejam apresentados como sinônimos durante o verão europeu. Logo, os cerca de 35 milhões já empregados nas principais compras atuais parecem seguir um critério mais equilibrado entre necessidade imediata, experiência e potencial futuro. O verdadeiro mérito de Jordi Cruyff será medido não pelo tamanho das cifras, mas pela harmonia existente entre as características dos reforços e o trabalho de Míchel.
AZ en FC Groningen gaan 𝐚𝐚𝐧 𝐤𝐨𝐩 in de Eredivisie! ⚔️ Op welke plek staat jouw club? 👀 pic.twitter.com/QngnngdtTj
— VriendenLoterij Eredivisie (@eredivisie) August 16, 2026
A empolgação chegou ao ponto de parte da torcida pedir simbolicamente um busto de Jordi diante da Johan Cruyff Arena, reconhecimento que revela o tamanho da carência acumulada.
Depois de anos marcados por incertezas, ver uma diretoria agir com ambição naturalmente devolve confiança a quem acompanhou a erosão do antigo protagonismo. Ainda assim, homenagens definitivas pertencem aos vencedores, enquanto essa reconstrução sequer enfrentou suas primeiras noites realmente turbulentas.
Isto posto, o PSV de Peter Bosz continua sendo o adversário a ser alcançado, possui uma estrutura consolidada e entrará na competição buscando um inédito tetracampeonato na era da Eredivisie. Ao Ajax caberá demonstrar que a movimentação do mercado não foi apenas uma reação emocional à supremacia do rival, mas o início de um caminho sustentável.
Uma janela pode renovar o entusiasmo de uma torcida; somente um projeto coerente consegue devolver a ela o hábito de celebrar.
Amsterdã foi construída enfrentando a água, erguida sobre canais e sustentada pela capacidade de transformar obstáculos naturais em parte de sua identidade. Talvez exista nessa história uma metáfora apropriada para o momento de um clube que precisa reaprender a permanecer de pé após tantas temporadas à deriva. O Ajax reuniu jogadores importantes, entregou o comando a um técnico compatível com sua filosofia e colocou o projeto nas mãos de um Cruyff. Existem razões concretas para acreditar que a equipe voltará à disputa da Eredivisie, incomodará o PSV e encontrará novamente um lugar relevante no cenário holandês.
Contudo, entre a ambição de agosto e a consagração de maio existe uma longa travessia feita de pressão, escolhas, tropeços e capacidade de reação. Os Godenzonen já recuperaram a esperança; agora precisam transformar essa esperança em futebol — e o futebol, finalmente, em títulos.