O dia 24 de junho de 2014 carrega um peso que parece aumentar a cada ano para o torcedor italiano. Foi naquela tarde, em Natal, na derrota por 1 a 0 diante do Uruguai — gol do já aposentado Diego Godín —, que a Itália entrou em campo pela última vez em uma Copa do Mundo.
Pois é, já se passaram 12 anos desde então e, no intervalo, uma das camisas mais pesadas da história do futebol mundial transformou a ausência no principal torneio de seleções do planeta em algo assustadoramente habitual. Como costumo dizer, uma vez pode ser acidente de percurso, duas vezes já é incompetência, mas três vezes começa a representar uma realidade e, por mais dolorosa que seja para um país tetracampeão mundial, a condição atual é exatamente esta: disputar uma Copa do Mundo deixou de ser uma certeza aos italianos.
Depois de ficar fora de 2018 e 2022, a Itália voltou a fracassar nas Eliminatórias e também não esteve na edição de 2026. São três ausências consecutivas sem a Azzurra, algo que seria praticamente inimaginável quando Fabio Cannavaro ergueu a taça em Berlim, em 2006. Nem mesmo a possibilidade discutida de a FIFA ampliar o Mundial de 2030 para 64 seleções deveria tranquilizar os italianos. A proposta existe e vem sendo analisada, mas ainda não foi aprovada oficialmente pela entidade. E talvez seja justamente aí que esteja o aspecto mais constrangedor de toda essa história: mesmo em uma Copa do Mundo potencialmente gigantesca, já não parece absurdo imaginá-los enfrentando dificuldades para conseguir sua vaga.
O mais preocupante é que o ciclo para 2030 praticamente começou envolvido em uma crise. Paolo Maldini havia sido escolhido para assumir uma função central na reconstrução esportiva da Federação Italiana (FIGC), tendo Leonardo como seu principal colaborador. Dezesseis dias depois de sua chegada, os dois estavam fora. Não houve sequer tempo para que qualquer projeto começasse a sair do papel. Uma entidade que precisava transmitir organização, serenidade e convicção depois do terceiro fracasso consecutivo em Eliminatórias conseguiu produzir exatamente o contrário. Antes mesmo da primeira convocação, antes do primeiro amistoso e antes da primeira competição oficial desse novo caminho, a Itália já discute renúncias, vetos internos, disputas políticas e uma escolha de treinador que acabou implodindo a estrutura recém-montada.
QUE LOUCURA! 😮🇮🇹❌ Paolo Maldini e Leonardo renunciaram aos cargos de diretor técnico e conselheiro na Seleção Italiana após a não contratação de Pirlo como técnico! Eles ficaram APENAS 16 DIAS na Itália!
— CazéTV (@CazeTVOficial) July 27, 2026
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Paolo Maldini chegou prometendo justamente aquilo que talvez mais faltasse ao futebol italiano neste momento: autoridade esportiva. O desejo era encontrar um treinador capaz de devolver imediatamente credibilidade à Azzurra, e por isso nomes gigantescos entraram na discussão. Pep Guardiola foi procurado, mas não houve acordo; Carlo Ancelotti também fazia parte dos sonhos italianos, porém estava comprometido com o projeto da Seleção Brasileira. O problema não está em ouvir um “não” de Guardiola ou perceber que Ancelotti não estava disponível, mas sim quando uma federação anuncia implicitamente ao ambiente que procura um treinador de classe mundial e, poucos dias depois, apresenta como alternativa um profissional cujo currículo ainda está muito distante desse nível.
Foi exatamente assim que Andrea Pirlo apareceu no centro da história. E aqui é importante separar duas figuras completamente diferentes. O jogador Andrea Pirlo dispensa qualquer apresentação: campeão mundial, protagonista de uma geração histórica, um dos maiores meio-campistas de seu tempo e um símbolo do próprio futebol italiano. O treinador Andrea Pirlo, porém, ainda precisa construir quase tudo aquilo que o jogador conquistou. Depois de iniciar praticamente do zero na Juventus, terminou a Serie A em quarto lugar e deixou o cargo ao final daquela temporada. Posteriormente trabalhou no Fatih Karagümrük, na Turquia, passou pela Sampdoria, na Serie B, e mais recentemente assumiu o United FC, de Dubai, na segunda divisão dos Emirados Árabes Unidos.
Nada disso significa que Andrea Pirlo jamais poderá se tornar um grande treinador. Futebol está cheio de técnicos que construíram carreiras extraordinárias depois de começos irregulares. A questão é outra: a seleção italiana pode se dar ao luxo de realizar mais uma experiência? Depois de três Copas consecutivas assistidas pela televisão, não existe mais espaço para apostar simplesmente em potencial, identificação ou passado como jogador. A Itália precisava de uma certeza tão grande quanto possível, especialmente depois do fracasso de Gennaro Gattuso no ciclo anterior. Escolher Pirlo seria colocar novamente um campeão mundial de 2006 diante de uma missão gigantesca, esperando que a autoridade construída dentro de campo compensasse um currículo ainda bastante limitado fora dele. Era uma aposta enorme justo no momento em que a Azzurra menos precisava.
Uma trajetória tão invejável quanto a de Gattuso como treinador.
— César Costa (@cesar21costa) July 24, 2026
Gosto do Pirlo, gosto das ideias dele, mas acaba tendo o mesmo problema que outros treinadores da geração de 2006: receberam as melhores oportunidades por quem são, e não pelo que entregaram como técnicos.
É um… https://t.co/JwpAB5SXsH pic.twitter.com/YIrvNYnyEL
Diante deste cenário, fica evidente porque a reação negativa em torno do nome foi tão intenso na opinião pública italiana. Entretanto, curiosamente, não foi o currículo de Andrea Pirlo que acabou definitivamente afastando-o do cargo. Sua relação comercial com a Fonbet, empresa russa de apostas da qual é embaixador global, provocou uma enorme controvérsia política na Itália. Pirlo sustentou que sua ligação com a companhia sempre foi exclusivamente comercial e esportiva, sem qualquer conotação política, mas a pressão cresceu até sua candidatura se tornar insustentável. Giovanni Malagò, presidente da FIGC, decidiu não seguir com a escolha. E essa intervenção acabou criando o ponto de ruptura definitivo entre a presidência e os homens contratados para liderar a reconstrução da Itália.
Paolo Maldini e Leonardo não aceitaram a forma como o processo terminou e entregaram seus cargos. De certa maneira, todos saíram menores de uma história que sequer precisava ter chegado a esse estágio. Andrea Pirlo foi publicamente exposto e obrigado a explicar uma relação comercial que mantinha desde antes de qualquer possibilidade concreta de assumir a Azzurra. Maldini, um dos maiores símbolos da história do futebol italiano, permaneceu somente 16 dias em uma função que deveria representar o início de um projeto de longo prazo. Leonardo seguiu o mesmo caminho. E Giovanni Malagò ficou com uma federação novamente sem a estrutura esportiva que acabara de montar. Independentemente de quem estava certo na discussão, institucionalmente a Itália perdeu.
O episódio também levanta outra pergunta inevitável: por que Andrea Pirlo? A Itália continua sendo uma das maiores escolas de treinadores do planeta. Antonio Conte, por exemplo, possui currículo e personalidade suficientes para assumir praticamente qualquer seleção do mundo, embora seja legítimo questionar sua capacidade — ou até seu interesse — em permanecer quatro anos dentro de um mesmo projeto. Simone Inzaghi se consolidou em altíssimo nível. Roberto De Zerbi representa uma geração mais moderna e conceitualmente interessante do futebol italiano, enquanto Francesco Farioli também despontou entre os mais promissores do país. Ou seja, o problema dos tetracampeões mundiais nunca foi simplesmente ausência de técnicos. O problema parece ser encontrar um projeto capaz de convencer um grande nome a assumir aquilo que, nos últimos anos, passou a parecer uma missão cada vez mais ingrata.

Até mesmo dentro da geração campeã do mundo em 2006 seria possível encontrar nomes com experiências diferentes. Fabio Cannavaro, por exemplo, chegou ao Uzbequistão em outubro de 2025 e conduziu a seleção durante o Mundial de 2026, embora tenha assumido o cargo quando a classificação do país já estava garantida. Isso não significaria automaticamente que Cannavaro seria a escolha correta para a Itália, assim como ganhar uma Copa como jogador jamais deveria funcionar como requisito para assumir a Itália. O ponto é que a escolha de Andrea Pirlo transmitia muito mais a sensação de proximidade e confiança pessoal do que de uma decisão construída exclusivamente a partir do currículo, lembrando que o ex-meio-campista foi companheiro de Paolo Maldini durante anos no Milan e na própria Azzurra. Quando a reconstrução exige escolhas difíceis, relações pessoais inevitavelmente também ficam sob escrutínio.
Entretanto, seria injusto transformar Andrea Pirlo no culpado pela desorganização do futebol italiano. Ele foi, na realidade, mais um personagem colocado no centro de um sistema que há anos procura soluções individuais para problemas estruturais. Primeiro espera-se que um treinador resolva tudo. Depois muda-se o treinador. Em seguida busca-se um antigo campeão mundial para recuperar uma suposta identidade perdida. Posteriormente troca-se a direção. E então começa tudo novamente. Enquanto isso, a mesma seleção que foi campeã europeia em Wembley em 2021 continua incapaz de retornar a uma Copa do Mundo. Talvez o maior problema italiano seja precisamente este: acreditar repetidamente que uma troca de nome no banco pode corrigir aquilo que exige transformação muito mais profunda nos bastidores, na formação e na própria condução institucional.
E a história ganhou mais um capítulo justamente quando parecia que a FIGC havia chegado ao fundo do poço. Nesta terça-feira, 28 de julho, Giovanni Malagò indicou Roberto Mancini para voltar ao comando da seleção italiana. É uma escolha muito mais defensável esportivamente do que a aposta em Andre Pirlo. Mancini conhece o ambiente, possui experiência internacional e, acima de tudo, foi o treinador responsável pelo maior momento recente da Azzurra, conduzindo o país ao título da Eurocopa em 2021.
Roberto Mancini è il nuovo Commissario Tecnico della Nazionale 🇮🇹💙#Nazionale #Azzurri #VivoAzzurro pic.twitter.com/PioBpZX6TS
— Nazionale Italiana ⭐️⭐️⭐️⭐️ (@Azzurri) July 28, 2026
Ao mesmo tempo, o regresso de Roberto Mancini carrega uma ironia impossível de ignorar: depois de procurar Carlo Ancelotti, negociar com Pep Guardiola, apostar em Andrea Pirlo, perder Paolo Maldini e Leonardo e mergulhar em uma crise política, a Itália acabou recorrendo justamente a um treinador que já havia comandado a seleção entre 2018 e 2023, enquanto o experiente Claudio Ranieri, ex-Roma, será o novo diretor da FIGC.
Roberto Mancini pode estabilizar a Azzurra e talvez seja exatamente o treinador de que a Itália precisa neste momento. Mas sua chegada não apaga o que aconteceu nas últimas semanas. Muito pelo contrário. Ela evidencia uma FIGC que começou o ciclo de 2030 sem conseguir definir claramente que caminho pretendia seguir. Queria um astro internacional como Pep Guardiola? Queria recuperar a tradição com Carlo Ancelotti? Queria apostar na geração de 2006 através de Andrea Pirlo? Ou queria novamente um técnico experimentado e conhecedor da estrutura como Mancini? Foram caminhos completamente diferentes discutidos em pouquíssimo tempo. Uma reconstrução verdadeira precisa começar por uma ideia, e somente depois procurar o homem capaz de executá-la. Na seleção italiana, durante alguns dias, pareceu acontecer tudo o inverso.
Por isso, o maior adversário da Itália rumo a 2030 talvez não esteja dentro de campo. Não é Espanha, França, Alemanha, Inglaterra, Argentina ou qualquer outra potência mundial. Neste momento, seu grande oponente parece ser a própria incapacidade de aprender com seus fracassos. Doze anos depois daquela derrota para o Uruguai, três Copas do Mundo passaram sem a presença dos italianos, e aquilo que um dia seria tratado como uma tragédia nacional tornou-se perigosamente normal.
Isto posto, Roberto Mancini receberá agora a responsabilidade de quebrar esse ciclo, mas nenhuma seleção deveria depender exclusivamente de um treinador para recuperar sua grandeza. Se a Itália pretende voltar ao lugar que sua história exige, precisa compreender que 2030 já começou. E, até aqui, iniciou muito mal.