Em busca da própria identidade

A primeira coisa que nos vem a mente quando ouvimos alguém pronunciar o nome Milan, são títulos, triunfos e conquistas, afinal, trata-se da equipe mais gloriosa do futebol italiano ao lado da Juventus. No entanto, nas últimas cinco temporadas os rossoneros ergueram somente a taça da Supercopa da Itália 2016, sendo que o Campeonato Italiano 2010/11, foi a última grande competição vencida pelo Milan, uma prova de que o conjunto milanista não lembra nem de longe o poderoso time que encantou o mundo durante a década de 90 até meados dos anos 2000.
Esta abrupta queda do Milan tem uma explicação, me refiro a Silvio Berlusconi, ex-presidente do clube que inclusive já ocupou o cargo de primeiro-ministro da Itália. O bilionário foi o grande responsável por afundar o Milan em dívidas impagáveis, tudo por conta de esquemas envolvendo corrupção e fraudes fiscais. Visando salvar a equipe, o magnata italiano decidiu vender o Milan em abril do ano passado para o grupo Rossoneri Sport Investment Lux, que pertence ao investidor chinês Li Yonghong, pela bagatela de R$ 2,4 milhões. O final da “Era Berlusconi” encheu de esperanças os torcedores milanistas, que por este motivo criaram uma enorme expectativa em relação ao futuro do time.
Com um novo dono gerindo o clube, o Milan iniciou a temporada 2017/18 com a pretensão de brigar de igual para igual com seus principais rivais pelo scudetto do Calcio, e consequentemente voltar a brilhar nos torneios internacionais. Todas estas aspirações aumentaram ainda mais quando a diretoria milanista foi ao mercado na última janela de transferências, e desembolsou cerca de 925 milhões de reais na compra de jogadores, levando em consideração as contratações de Nikola Kalinic, Fabio Borini e Franck Kessié, que serão pagos futuramente. Vale ressaltar que no pacote de reforços constavam os nomes de Leonardo Bonucci, André Silva, Mateo Musacchio, Ricardo Rodríguez, Hakan Çalhanoglu, Andrea Conti e Lucas Biglia, formando assim um verdadeiro esquadrão. Por essa razão, um bom desempenho era mais do que obrigatório pelos lados do San Siro.

O período de glória mais recente do Milan foi na temporada 2006/07,
O período de glória mais recente do Milan foi na temporada 2006/07, época em que a equipe era comandada por Carlo Ancelotti e contava com estrelas como Paolo Maldini, Alessandro Nesta, Filipo Inzaghi, Clarence Seedorf, Cafu, Kaká, Andrea Pirlo, Gennaro Gattuso, Massimo Ambrosini, entre outros.

Mas como o futebol é o esporte do imponderável, todas estas contratações realizadas pelo Milan não surtiram o efeito esperado, tanto é, que atualmente os rossoneros ocupam a pífia 7ª posição na tabela do Calcio com apenas 20 pontos ganhos em 14 partidas disputadas, contabilizando seis vitórias, dois empates e seis derrotas, obtendo assim, um péssimo aproveitamento de 47,6% no campeonato, ou seja, o Milan está fora até da zona de classificação à Europa League. Entretanto, a paciência tanto dos torcedores como da diretoria milanista chegou mesmo ao limite na tarde deste domingo, quando o Milan empatou sem gols contra o décimo colocado, Torino, em pleno estádio San Siro. Devido a sequência de maus resultados, o treinador Vincenzo Montella, que comandava a equipe desde a temporada passada, foi oficialmente demitido pelo clube na manhã de hoje. O ciclo de Montella se encerra após 64 partidas à frente do time de Milão, com 32 vitórias, 14 empates e 18 derrotas neste período, e somente uma única conquista durante esta apagada passagem, a Supercopa da Itália 2016.

Fim da linha: há pouco mais de um ano dirigindo o conturbado Milan, Vincenzo Montella teve como principal motivo pela demissão, a apatia e falta de vontade de seu time dentro de campo.
Fim da linha: há pouco mais de um ano dirigindo o conturbado Milan, Vincenzo Montella foi demitido por conta da apatia, do desinteresse e da falta de atitude de sua equipe dentro de campo, aspectos que culminaram com os maus resultados obtidos pelo time nessa temporada.

O Milan encontrou rapidamente o nome ideal para comandar o plantel no restante da temporada, pois poucas horas depois de anunciar a tão aguardada demissão de Vincenzo Montella, a diretoria já dava boas-vindas ao ex-volante e ídolo do time, Gennaro Gattuso. A escolha pelo lendário camisa 8 do clube, pegou todos de surpresa, porém no final das contas, o nome de Rino (apelido de Gattuso) definitivamente agradou a maior parte da torcida, que não aguentava mais a falta de vontade dos jogadores em cada partida disputada, e ninguém melhor do que o vibrante Gattuso para encher um vestiário de brio. O novo treinador dos rossoneros teve uma longa e vitoriosa carreira no Milan, por onde atuou exatas 13 temporadas (1999 a 2012), registrando 468 partidas e 11 gols marcados com a camisa rubro-negra, ocupando desta forma, a sétima posição da lista de atletas que mais vezes vestiram a camisa da equipe de Milão. Além disso, o técnico de 49 anos de idade conquistou pelo conjunto milanista duas Champions League, um Mundial de Clubes, duas Supercopas europeias, dois Campeonatos Italianos, uma Copa da Itália e duas Supercopas italianas.

Gennaro Gattuso estava atualmente treinando o Primavera, nome do time B do Milan.
Gennaro Gattuso estava atualmente treinando o Primavera, nome do time de base do Milan, que por sua vez, ocupa a terceira posição dentre as 16 equipes que disputam o campeonato da categoria.

Fora das quatro linhas, Gennaro Gattuso acumula trabalhos no Sion (Suíça), Palermo, OFI Crete (Grécia) e Pisa, aliás, foi nesta última agremiação que ele subiu da terceira para a segunda divisão na temporada 2015/16, mas foi rebaixado novamente já no ano seguinte. Em maio, Gattuso foi anunciado como treinador do Primavera, nome dado ao time sub-18 do Milan, para posteriormente, enfim receber a proposta mais desafiadora de sua curta carreira como técnico, assumir a equipe principal do clube pelo qual foi tantas vezes campeão. Curiosamente, os rossoneros irão insistir na velha política de escolher ex-ídolos para comandar o Milan, assim como ocorreu recentemente com Mauro Tassotti, Clarence Seedorf, Filippo Inzaghi, Sinisa Mihajlovic e Cristian Brocchi, que certamente foram grandes fiascos. Como Gattuso é somente um iniciante nesta nova profissão, fica difícil fazermos uma análise mais completa para saber se essa escolha foi certa ou errado por parte da diretoria. De antemão, podemos afirmar com total convicção que veremos atletas extremamente combativos e se doando intensamente durante os noventa minutos de jogo, algo que está no DNA de Gattuso, a propósito, qualidades que o conjunto milanista efetivamente precisava. Em contrapartida, resta saber se ao ponto de vista técnico e tático, o Milan irá desempenhar um bom papel, além da gestão de grupo, outro fator tão essencial nos dias de hoje. Por essas e outras, acredito que os rossoneros fizeram certo ao demitir Vincenzo Montella, bastante desgastado no cargo, porém erraram feio ao contratar Gennaro Gattuso, inexperiente para comandar uma equipe do tamanho do Milan. Só nos resta mesmo aguardar as cenas dos próximos capítulos, que tem no roteiro um gigante que se apequenou, e agora, luta com unhas e dentes para voltar a ser o que era.

 

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