A luz voltou a brilhar em Sunderland e no Sunderland

Os últimos oito anos do Sunderland se resumem a quatro duríssimas temporadas na Championship League, isto é, na segunda divisão inglesa, e outras quatro situado no poço ainda mais fundo da terceira, popularmente conhecida como League 1.

Pois é, isso explica porque o Stadium of Light (estádio da Luz), literalmente, escureceu desde a última aparição do Sunderland na Premier League, marcada pela última colocação na tabela daquela fatídica primavera de 2017, que veria o clima ficar ainda mais obscuro um ano depois com o segundo rebaixamento consecutivo, desta vez à League 1, também como lanterna, porém da Championship League.

No entanto, esse pesadelo que parecia não ter fim acabou e o sol voltou a raiar sobre o Stadium of Light há dez semanas, quando o Sunderland bateu o Sheffield United por 2 a 1 no mítico estádio de Wembley, tomado por mais de 82 mil torcedores numa das decisões mais emocionantes dos playoffs da Championship League em todos os tempos, visto que o novato Tom Watson, formado em Wearside, marcou o gol da vitória dos Black Cats nos acréscimos da partida.

Diante deste cenário, fica evidente porque a estreia do Sunderland na nova temporada da Premier League pode ser considerado um verdadeiro divisor de águas na história do clube de Tyne and Wear, cuja atmosfera criada foi capaz de emocionar até o mais insensível dos torcedores em meio ao som da canção “Can’t Help Falling in Love” (Não consigo evitar me apaixonar), de Elvis Presley, além do mosaíco que retratava a folclórica lenda do Condado de Durham, sobre o gigante verme Lambton que aterrorizava a região nos tempos medievais, e foi morto por um herói local galante. 

Deste modo, a vitória por 3 a 0 diante do West Ham, a maior do Sunderland num jogo válido pela rodada inicial da Premier League desde 1974, acabou retribuindo da melhor forma possível o retorno dos Black Cats à Premier League. A propósito, um resultado construído no segundo tempo da partida através dos tentos dos remanescentes da temporada passada Eliezer Mayenda, Daniel Ballard e Wilson Isidor.

Contudo, é importante destacar que a estreia do Sunderland na atual temporada veio provida de diversas novidades, a julgar que somente três jogadores que disputaram a decisão dos playoffs da Championship League iniciaram o jogo contra o West Ham entre os titulares, como foram os casos do lateral-direito Trai Hume, do atacante Eliezer Mayenda, além do zagueiro goleador Daniel Ballard, que balançou as redes tanto em Wembley quanto no Stadium of Light.

Portanto, oito jogadores estrearam pelo Sunderland no primeiro jogo desta nova temporada, ou seja, nada menos que o reflexo da grande reformulação realizada pelos Wearsiders neste meio de ano, obviamente, com a intenção de vencer a intensa batalha para sobreviver na elite do futebol inglês, algo que os três promovidos das últimas duas temporadas não conseguiram mediante a disparidade envolvendo clubes da Championship League e da Premier League.

Não por um acaso, 165 milhões de euros foram investidos pelo Sunderland, nesta que já é a janela de transferências mais valiosa desde sua fundação em 1879, composta pela chegada do montante de onze novos reforços, lembrando que as recentes compras de Habib Diarra (€ 31,5 milhões), Enzo Le Fée (€ 23 milhões), Chemsdine Talbi (€ 23 milhões) e Simon Andigra (€ 24,4 milhões) integram a lista das transações mais caras do clube do nordeste da Inglaterra.

Como resultado, o Sunderland desponta como o clube que realizou o maior número de contratações até aqui na atual edição da Premier League, basicamente repetindo o que fez o Nottingham Forest depois da promoção em 2022. De qualquer maneira, apesar da agitada movimentação nessa janela os Black Cats continuam ativos no mercado, haja vista as recentes propostas oferecidas ao ponta-direita Abdul Fatawu, do Leicester, e ao zagueiro Jhon Lucumí, do Bologna.

Seja como for, é a chegada de Granit Xhaka que mais animou a torcida do Sunderland em virtude da enorme qualidade técnica e, especialmente, da liderança exercida pelo ex-jogador do Bayer Leverkusen, que ficou nítida já na partida de estreia frente do West Ham, na qual o volante suíço tomou a palavra dos jogadores no centro do círculo formado por eles antes da bola rolar.

Vale ressaltar que a vinda de Granit Xhaka, somada as de Reinildo e Arthur Masuaku, sinaliza a clara intenção do Sunderland em dar maior experiência ao plantel. Quer dizer, um movimento imprescindível para o clube detentor do segundo elenco mais jovem da Premier League apenas atrás do Chelsea (24,5 anos), já incluindo essas três novas peças, que além disso também é presidido pelo novato Kyril Louis-Dreyfus, de somente 27 anos de idade.

Por fim, Régis Le Bris é outro grande personagem do Sunderland que se enquadra neste perfil jovial do clube, uma vez que o treinador com doutorado em fisiologia e biomecânica, ainda diplomado em treinamento mental de atletas de elite, realiza o segundo trabalho na carreira após uma década nas categorias de base do Lorient, antes de assumir a liderança da equipe principal francesa durante duas temporadas a partir de 2022. Em seguida, ele conduziu os Wearsiders à Premier League logo no ano de estreia no futebol inglês.

Logo, é impossível saber como Régis Le Bris e os seus comandados reagirão à pressão de 49 mil torcedores no Stadium of Light, uma das arenas mais intimidantes da Inglaterra, nos instantes em que o Sunderland estiver em desvantagem num jogo de Premier League, afinal, trata-se de uma condição jamais vivenciada por quase todos.

Isto posto, a realidade é que a caminhada do Sunderland para se manter na Premier League, que começou com a conquista de três valiosos pontos sobre um adversário direto na briga contra o descenso, será árdua, longa e repleta de desafios, dentro e fora das quatro linhas.

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