Xabi Alonso no Chelsea: aposta ousada em meio ao caos dos Blues

A fumaça celeste que tomou conta de Wembley após a derrota do Chelsea para o Manchester City na decisão da FA Cup ainda sequer havia se dissipado completamente quando o clube londrino surpreendeu o futebol europeu ao anunciar oficialmente Xabi Alonso como seu novo treinador.

Menos de 24 horas depois de mais um duro golpe sofrido em Wembley, os Blues decidiram iniciar outro capítulo de uma reconstrução que parece interminável desde a chegada da gestão da BlueCo ao comando do clube. Xabi Alonso será o quinto técnico permanente do Chelsea em quatro anos, um número que retrata perfeitamente a instabilidade instalada em Stamford Bridge desde a saída da antiga administração. E embora o espanhol tenha assinado um contrato de quatro temporadas, a realidade recente do clube, que tornou-se uma verdadeira máquina de moer treinadores, mostra que tempo e paciência são artigos raros no oeste de Londres, onde projetos nunca chegam ao fim e os resultados imediatos costumam falar mais alto do que qualquer planejamento de longo prazo.

O mais curioso em toda essa movimentação é justamente o fato de que, nesse momento, o Chelsea parece precisar muito mais de Xabi Alonso do que o próprio treinador necessita do Chelsea. Afinal, os londrinos atravessam mais uma temporada extremamente decepcionante, ocupando somente a décima colocação na tabela da Premier League, separados a 30 pontos do líder Arsenal.

Para se ter uma ideia, os Blues se encontram atualmente envolvidos em uma disputa modesta por vagas em competições secundárias como a Conference League, brigando diretamente com equipes como Brighton, Bournemouth e Brentford. Ou seja, um cenário absolutamente incompatível com a dimensão histórica, financeira e esportiva do Chelsea. E justamente por isso, a escolha de Xabi Alonso acaba gerando surpresa em boa parte do futebol europeu, especialmente considerando o status que o treinador espanhol conquistou nos últimos anos dentro do mercado.

Treinadores emergentes e ainda em construção naturalmente enxergariam o Chelsea como uma oportunidade impossível de recusar. Foi exatamente isso que aconteceu, por exemplo, com Liam Rosenior ao aceitar deixar o Strasbourg no meio da temporada para assumir o clube londrino. O mesmo valeu anteriormente para Enzo Maresca, que trocou o Leicester pelos Blues logo após conquistar o acesso à Premier League. Antes deles, Graham Potter havia tomado decisão semelhante ao deixar um Brighton extremamente organizado e competitivo para assumir o caos instalado em Stamford Bridge.

Em contrapartida, no caso de Xabi Alonso o contexto muda completamente. O espanhol não era apenas mais um treinador promissor do mercado. Ele era tratado como um dos técnicos jovens mais brilhantes do futebol europeu após o trabalho histórico realizado no Bayer Leverkusen. Por isso, sua decisão de aceitar o Chelsea inevitavelmente levanta questionamentos sobre o momento de sua carreira e sobre os riscos envolvidos nessa aposta.

Desde que foi adquirido pela BlueCo, grupo liderado pelo empresário norte-americano Todd Boehly, os londrinos mergulharam em uma política de contratações extremamente agressiva e, muitas vezes, desorganizada. O clube gastou mais de 1,8 bilhão de libras em reforços, investindo valores absurdos em jovens jogadores espalhados pelo futebol mundial. Porém, acumular talentos promissores não significa necessariamente construir um time competitivo, tanto é que os Blues conquistaram apenas a Conference League e a Copa do Mundo de Clubes sob a atual administração. Quer dizer, muito pouco para quem estava acostumado a disputar Premier League, Champions League e títulos nacionais regularmente. O excesso de apostas em novatos atletas, sem equilíbrio com alguns mais experientes e consolidados, acabou criando um plantel desequilibrado, emocionalmente instável e incapaz de suportar a pressão que envolve defender uma camisa tão pesada quanto a do Chelsea.

Os números dos treinadores recentes ajudam a dimensionar ainda mais o tamanho do problema. O técnico com melhor aproveitamento na Premier League durante a era BlueCo foi justamente Enzo Maresca, que venceu apenas 26 das 57 partidas que disputou na competição nacional. Um dado assustador para um clube que, pouco mais de três anos atrás, era campeão europeu sob a liderança de Thomas Tuchel.

E a derrota recente para o Manchester City na final da FA Cup aumentou ainda mais a sensação de fracasso da atual temporada, deixando o Chelsea diante da possibilidade real de passar mais um ano fora das competições europeias. Vale lembrar que os Blues disputaram apenas uma edição da Champions League desde a saída de Roman Abramovich. Em outras palavras, uma realidade duríssima para um clube que construiu parte significativa de sua identidade moderna justamente através das grandes noites europeias em Stamford Bridge.

Levando tudo isso em consideração, é inevitável surgir a impressão de que Xabi Alonso talvez esteja dando um passo atrás em sua trajetória profissional. Depois de deixar o Bayer Leverkusen rumo ao Real Madrid no ano passado, o técnico espanhol viveu uma experiência extremamente turbulenta no Santiago Bernabéu. Sua passagem pelo clube merengue durou apenas sete meses antes de uma demissão precoce em janeiro, consequência de um ambiente interno desgastado e de algo próximo a uma rebelião de jogadores dentro do elenco madridista. Agora, poucos meses depois daquela saída traumática, Alonso decide mergulhar justamente em outro dos ambientes mais instáveis do futebol europeu. Stamford Bridge oferece prestígio, dinheiro e visibilidade, mas também carrega uma pressão gigantesca e uma cultura administrativa que historicamente costuma consumir treinadores em velocidade impressionante.

Outro fator que tornava o futuro de Xabi Alonso ainda mais intrigante era sua enorme identificação com o Liverpool. O ex-técnico do Real Madrid construiu uma relação fortíssima com os Reds durante seus cinco anos como jogador em Anfield, período no qual disputou mais de 200 partidas e conquistou a inesquecível Champions League de 2005. O próprio Alonso já declarou em entrevistas a famosa frase: “uma vez vermelho, sempre vermelho”.

Não à toa, durante muito tempo existiu a expectativa de que Xabi Alonso assumisse o comando técnico do Liverpool em algum momento de sua carreira. Principalmente agora, em um panorama onde Arne Slot atravessa uma fase de enorme vulnerabilidade no cargo. De qualquer maneira, os Reds continuarão apostando no treinador holandês, enquanto Alonso surpreendeu ao aceitar imediatamente o projeto apresentado pelo Chelsea.

Mas apesar de todos os riscos envolvidos, existem motivos importantes que ajudam a explicar por que Xabi Alonso decidiu assumir esse desafio. O primeiro deles está diretamente relacionado ao nível de autonomia e respaldo prometido pela diretoria londrina. O novo técnico dos Blues recebeu um contrato longo, de quatro anos, e terá a liberdade para levar toda a sua comissão técnica, construir sua metodologia de trabalho e atuar de forma integrada com os diretores esportivos na montagem do plantel. Isso pesa muito. Especialmente porque no Real Madrid ele nunca sentiu esse mesmo nível de confiança institucional. Em Londres, pelo menos inicialmente, Alonso terá poder para implementar sua visão de futebol de maneira mais profunda. E para um treinador detalhista, estratégico e obcecado por controle organizacional, esse tipo de garantia se torna fundamental.

Mesmo em meio à atmosfera sombria que cerca Stamford Bridge atualmente, também seria injusto ignorar que o Chelsea possui um elenco extremamente talentoso em termos de potencial bruto. O clube acumulou jovens jogadores de enorme qualidade técnica nos últimos anos. Muitos deles ainda não atingiram regularidade, maturidade emocional ou estabilidade tática, mas existe material humano suficiente para a construção de uma equipe competitiva.

Por esta razão, a tendência é que o Chelsea continue investindo pesado nas próximas janelas de transferências, buscando agora adicionar experiência e liderança ao grupo. Xabi Alonso enxergou justamente essa possibilidade de moldar um elenco jovem de acordo com suas próprias ideias, algo muito semelhante ao trabalho que realizou no Bayer Leverkusen. A diretoria dos Blues apostou pesado em uma verdadeira operação de convencimento, oferecendo respaldo total ao treinador espanhol e tentando fazê-lo acreditar que ele será o rosto definitivo do “milésimo” novo projeto esportivo do clube.

E talvez nenhum trabalho recente explique tão bem o fascínio gerado em torno de Xabi Alonso quanto sua passagem histórica pelo Bayer Leverkusen. O treinador espanhol construiu uma das equipes mais impressionantes do futebol moderno utilizando uma combinação rara de intensidade, organização, inteligência posicional e talento técnico. Seu sofisticado sistema no 3-4-2-1 transformou completamente o clube alemão. Em 2024, o Leverkusen conquistou a Bundesliga, a Copa da Alemanha e a Supercopa da Alemanha, realizando a maior campanha da história do time. Em 53 partidas disputadas naquela temporada, perdeu apenas uma vez: justamente na final da Europa League contra a Atalanta. Foi uma campanha praticamente perfeita e que elevou Alonso ao patamar de treinador de elite dentro do cenário europeu.

O futebol praticado por aquele Bayer Leverkusen encantava justamente pela capacidade de controlar completamente os jogos sem abrir mão da agressividade. As equipes de Xabi Alonso pressionam alto, atacam os espaços com enorme intensidade e mantêm controle territorial através da posse de bola. O treinador de 44 anos de idade valoriza muito a circulação rápida, o posicionamento inteligente e a ocupação racional dos corredores laterais. Seu sistema normalmente utiliza uma linha de três defensores, com zagueiros capazes de iniciar construção desde trás, alas ofensivos, volantes com funções complementares, além de meias criativos atuando próximos ao centroavante. Trata-se de um modelo moderno, sofisticado e dependente de entendimento coletivo. Justamente o tipo de futebol que o Chelsea tenta encontrar.

Naturalmente, implementar essa filosofia em Stamford Bridge não será simples. O elenco atual do Chelsea foi montado por diferentes treinadores, diferentes ideias e diferentes departamentos esportivos ao longo dos últimos anos. Há jogadores contratados para modelos totalmente distintos entre si. Alguns foram escolhidos pensando em pressão alta, outros em transição rápida, outros em posse de bola. E agora caberá a Xabi Alonso reorganizar esse quebra-cabeça. Ele precisará identificar quais peças realmente se encaixam em seu sistema e quais precisarão ser substituídas. Além disso, será preciso conviver com a enorme pressão externa, com a cobrança da torcida e com a impaciência histórica do clube, visto que em Stamford Bridge, o discurso sobre projetos de longo prazo frequentemente desaparece depois de duas ou três derrotas consecutivas.

Ainda assim, existe algo no encontro entre Chelsea e Xabi Alonso que desperta curiosidade genuína. O clube londrino precisava desesperadamente de uma figura forte, moderna e respeitada para tentar reorganizar sua identidade esportiva. E poucos treinadores jovens possuem hoje uma reputação tão alta quanto a do espanhol. Sua experiência como jogador em clubes gigantes, sua inteligência tática e a maneira como conseguiu potencializar jovens atletas no Bayer Leverkusen fazem dele uma escolha interessante no papel. Pela primeira vez em muito tempo, os Blues parecem estar construindo um projeto em torno de uma ideia clara de futebol e não apenas acumulando nomes caros aleatoriamente no mercado.

Por outro lado, o histórico recente do clube impede qualquer excesso de empolgação. O Chelsea já iniciou vários “novos projetos” nos últimos anos e praticamente todos fracassaram antes mesmo de amadurecer. A instabilidade administrativa, a pressão constante por resultados imediatos e o ambiente caótico criado pelas mudanças sucessivas de treinadores continuam sendo enormes obstáculos para qualquer técnico. Isso explica a maior dúvida em torno dessa nova parceria: os Blues serão capazes de oferecer a Xabi Alonso aquilo que nunca ofereceram aos seus antecessores recentes? Tempo. Porque talento, metodologia e capacidade tática o espanhol claramente possui. O problema é que Stamford Bridge raramente permite que treinadores atravessem períodos turbulentos sem consequências drásticas.

No fim das contas, a chegada de Xabi Alonso representa mais uma tentativa do Chelsea de reencontrar sua identidade perdida em meio ao caos da era BlueCo. Trata-se de uma aposta ousada, arriscada e cercada de incertezas, mas também de um movimento que devolve algum nível de expectativa ao torcedor londrino. O casamento entre um treinador extremamente promissor e um elenco jovem e talentoso pode, sim, render frutos importantes no futuro.

Seja como for, tudo dependerá da capacidade do Chelsea em finalmente sustentar um projeto esportivo com coerência, paciência e estabilidade. Porque se houver respaldo verdadeiro, Xabi Alonso talvez seja exatamente o nome capaz de recolocá-lo novamente entre as grandes potências do futebol europeu. Todavia, se os Blues repetirem os mesmos erros, Alonso corre o risco de se tornar apenas mais uma vítima da máquina de moer treinadores do oeste de Londres.

Deixar um comentário

Menu